França deixa a esquerda popular órfã

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Por: Jonas | 04 Fevereiro 2016

Cada vez mais, a esquerda se parece com um sonho que se desfaz. A frase pronunciada no ano passado pelo primeiro-ministro francês, Manuel Valls, possui traços de profecia. Em junho de 2014, Valls havia dito: “A esquerda pode morrer (...). Sentimos que chegamos ao final de algo, talvez, inclusive, ao final de um ciclo histórico de nosso partido”. Naquele momento, a frase apareceu mais como uma manifestação do enterro da esquerda socialista encarnado pela presidência de François Hollande e a ação governamental de seu chefe do Executivo. O homem que em 2012 havia vencido as eleições presidenciais com uma retórica de esquerda e militante, quando exerceu o poder fez o contrário. Hollande marcou a disputa eleitoral com uma promessa jamais cumprida: “Meu inimigo é a finança”, disse o então candidato. O inimigo não foi tal, pelo contrário. Porém, entre essa retórica, a advertência de Manuel Valls e a realidade de hoje, algo profundo e decisivo mudou: na França ocorreu uma drástica mudança do eleitorado de esquerda. Já não é mais um Executivo que caminha pela direita, mas, sim, um eleitorado que aprova essa transformação.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 02-02-2016. A tradução é do Cepat.

A fronteira entre uma espécie de esquerda de cima e outra esquerda popular é cada vez mais ampla. O antagonismo entre a “esquerda de verdade” e a “falsa esquerda”, a esquerda de governo e a esquerda inata, radical e histórica, a esquerda que na França se chama de “os sócios traidores” e a esquerda autenticamente social é uma lacuna profunda, desoladora. Entre essa esquerda, introduziu-se o que os meios de comunicação qualificam como “uma esquerda de opinião”, que desqualifica a outra com sua aprovação de medidas por demais discutíveis, mais de acordo com um socialismo liberal do que com um socialismo autêntico. No entanto, “o povo de esquerda” as aprova. Quando o atual ministro da Economia, o sócio liberal Emmanuel Macron, disse que “a vida de um empresário pode ser mais dura que a de um empregado”, a esquerda popular se levanta apreensiva, mas a opinião pública, inclusive no seio de Partido Socialista, aprova. Acontece o mesmo quando o primeiro-ministro defende a extensão do Estado de emergência decretado após os atentados do dia 13 de novembro, em Paris. No campo da ação governamental pura, repete-se uma fratura semelhante: as medidas mais impopulares do Executivo recebem a benção do eleitorado, até no mesmíssimo Partido Socialista: que se trate da reforma do código do trabalho, da retirada da nacionalidade para os franceses com dupla nacionalidade envolvidos em atentados terroristas, do trabalho aos domingos ou da simplificação dos procedimentos administrativos para os empresários, todas essas decisões de cunho liberal encontram um eco majoritário. Por paradoxal que pareça, Manuel Valls e seu ministro da Economia são hoje as figuras mais populares do país, com índices de aprovação que são de 36% para o primeiro e 31% para o segundo. Ambos superam em muitos pontos as figuras da “esquerda autêntica”.

A fibra progressista nem sequer ocupa as ruas. Em fins de janeiro, milhares de pessoas marcharam na França contra a vigência do estado de emergência e a reforma da Constituição que inclui a perda da nacionalidade. No entanto, os números de participação demonstram que foi uma minoria que saiu para se manifestar, longe, muito longe do que a esquerda teria mobilizado em outros tempos. A renúncia da ministra da Justiça, Christiane Taubira, foi um novo sinal do retrocesso dessa “esquerda moral”, oposta à esquerda intelectual e europeísta que está no poder. Quando centenas de milhares de pessoas da direita católica invadiam as ruas de Paris em sinal de protesto contra a lei do matrimônio igualitário, Taubira defendeu esse texto com uma veemência que lhe valeu uma avalanche de insultos e grosseiras agressões raciais. Agora deixou seu cargo por ser contra a reforma da Carta Magna e seu ingrediente suspeito, que é ter incluído uma das ideias da extrema-direita, ou seja, a perda da nacionalidade. Em um editorial que contrasta com sua linha moderada, o vespertino Le Monde escreve que “a falta que François Hollande cometeu frente aos valores da República é uma bomba de deflagrações sucessivas: desgarra sua maioria, coloca em estado de ebulição o Partido Socialista e indispõe até seus próprios aliados. E, na última etapa, provoca a renúncia de Christiane Taubira, que encarnava de maneira cada vez mais subliminar a esquerda no seio da Equipe de Manuel Valls”.

Hollande e Valls desgarraram-se dos blocos progressistas. A esquerda é hoje uma irmandade de órfãos. Os medos, o desemprego galopante, os atentados de janeiro e novembro, a crise dos refugiados e a alucinante progressão da extrema-direita, inclusive, têm transtornado as sensibilidades da esquerda mais genuína. Fica, no cenário, um carrossel de palavras vazias, uma retórica minguante que não acende nenhuma chama. O que se vive na França pode, inclusive, estender-se para outros países da Europa. Nem as históricas social-democracias do norte da Europa se salvam da imoralidade e da renúncia a seus códigos de identidade.

A confiscação dos bens dos refugiados que chegam à Dinamarca, Suíça e a alguns Estados alemães é uma aberração ética e um gesto de desumanidade pavoroso. São, no entanto, as supostas grandes democracias que adotam esses espantos, ao mesmo tempo em que uma maioria consequente das opiniões públicas aplaude como autômato. Donald Trump nos Estados Unidos, Marine Le Pen na França, uma oprobriosa e ultrajante onda de conservadorismo avança como uma praga destruidora nas democracias exemplares do mundo. Frente a isso, a esquerda perdeu o poder da rua e o outro, ainda mais decisivo: o de ser capaz de transformar a sociedade, de gerar um debate que incite à reflexão, ou seja, a dizer não. Ao invés disso, a esquerda se transformou. Um segmento considerável de seu cabedal foi colocado sob a proteção de um socialismo liberal, oportunista e eleitoreiro, enquanto a esquerda popular vive em uma estreita margem, sem crédito para governar, sem recursos para deter a apavorante invasão de uma multidão de pássaros carregados de ódios, desprezo racial e retrocesso moral e social.

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