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13 Janeiro 2016

Camilo Torres não partiu de uma doutrina para aplica-la à vida, mas da própria realidade, que, no seu desenvolvimento, revelou o sentido de toda a doutrina plausível. Este encontro com a própria “verdade” é a base de suas ideias políticas”. O artigo foi publicado pelo Editorial da Revista Insurrección e reproduzido por Rebelión, 12-01-2016. A tradução é de Evlyn Louise Zilch.

Eis o artigo.

Começa o quinquagésimo ano da morte em combate de Camilo Torres Restrepo e de diferentes ângulos da sociedade avançam os preparativos para comemorar sua vida e obra. No Exército de Libertação Nacional consideramos insuficiente fingir um “retorno” à sua figura e ideologia; ele não apenas nos situaria em um plano puramente ideológico e memorial, mas seria uma intenção esquiva, porque evita o que é fundamental para nós: a sua permanência.

De Camilo tomaram a vida, mas sua missão não foi finalizada. O olhar atual deste acontecimento supõe um movimento para além do momento de sua partida física, para nos colocarmos na realidade da sua decisão e prática continuada. Camilo Torres se afirma na realidade de seu pensamento, sendo este, seu “pensar”, sempre inseparável da ação empreendida. Mas, com isso, não estamos nos referindo a uma comunhão convencional entre pensamento e ação.

Camilo é definido principalmente em ação. Imaginar sua ideologia fora dela é impossível. Talvez isso fosse admissível se tivesse sido apenas um acadêmico, cuja altura teórica se distanciasse do engajamento ativo. No entanto, não foi essa, ao menos, sua intenção. Dito de outra forma: não é possível dizer algo sobre Camilo Torres, se evitarmos a referência à ação que se desenrola como definitiva e dá dimensão à sua obra; isto é, se omitimos a tomada de decisão que o levou até as últimas consequências. O reconhecimento desta preeminência é o que permite explicar a sobreposição de seu ser guerrilheiro a seu ser sacerdote; pois embora não tenha existido nele uma renúncia voluntária desta última, houve sim uma escolha vital.

Camilo Torres, então, não partiu de uma doutrina para aplica-la à vida, mas da própria realidade, que, no seu desenvolvimento, revelou o sentido de toda a doutrina plausível. Este encontro com a própria "verdade" é a base de suas ideias políticas. Entre as suas posições, apareceu a seguinte formulação, que, sem dúvida, marcaria o curso de sua vida: são as maiorias que devem ter acesso ao poder político, pois só assim é possível – e isto pela sua formação sacerdotal – nos aproximarmos da ideia cristã de justiça e libertação.

A questão se resumia a isto: como tomar o poder para a maioria? Para responder, ele encontrou apenas duas maneiras. Em 1965, pouco antes de entrar para o ELN, expressou o problema da seguinte forma: “Você tem que perguntar à oligarquia como ela vai entregar o poder. Se o entregarão de forma pacífica, acredito que o tomaremos de forma pacífica. Mas, se só o entregarão com violência, então o tomaremos de forma violenta”. Suas palavras são mais do que dizeres frente à eleição e missão que estava à mão. Hoje, cinquenta anos depois de sua experiência junto à primeira guerrilha do ELN, sua mensagem se escuta de forma incisiva e determinante.

Nos atuais diálogos de paz, fazemos a mesma pergunta aos governantes deste país. Se, depois de anos de violência, vão entregar o poder às maiorias por vias pacíficas, tenham a absoluta certeza de que sabemos corresponder a esta vontade. Mas, enquanto continuarem estreitando as opções que permitem o progresso de um país com justiça social e democracia autêntica, basta dizer que o caminho para a paz continuará a apresentar obstáculos.

É nosso desejo para este 2016 fazer progressos na paz da Colômbia. Estamos convencidos de que, se isso representa mudanças, os esforços não serão em vão. Como gestos desta disposição, não queremos terminar estas linhas sem manifestar o que se segue, no que diz respeito ao aniversário do quinquagésimo aniversário da morte em combate de Camilo. Em primeiro lugar, pedimos que seus restos mortais, cuja localização é desconhecida desde o dia da sua morte, sejam entregues e que seja feito, em nome de sua dignidade, um enterro apropriado.

Em segundo lugar, encorajamos a Igreja Católica, neste Ano da Misericórdia, como definiu o papa Francisco, a reconhecer em Camilo a realização mais sincera do compromisso social da Igreja para com os pobres, dando-lhe novamente o seu lugar como sacerdote. Este é um clamor de todo cristão comprometido.

Cinquenta anos com Camilo

 

“Camilo Torres, então, não partiu de uma doutrina para aplica-la à vida, mas da própria realidade, que, no seu desenvolvimento, revelou o sentido de toda a doutrina plausível. Este encontro com a própria “verdade” é a base de suas ideias políticas”. O artigo foi publicado pelo Editorial da Revista Insurrección e reproduzido por Rebelión, 12-01-2016.

 

Eis o artigo.

 

Começa o quinquagésimo ano da morte em combate de Camilo Torres Restrepo e de diferentes ângulos da sociedade avançam os preparativos para comemorar sua vida e obra. No Exército de Libertação Nacional consideramos insuficiente fingir um “retorno” à sua figura e ideologia; ele não apenas nos situaria em um plano puramente ideológico e memorial, mas seria uma intenção esquiva, porque evita o que é fundamental para nós: a sua permanência.

 

De Camilo tomaram a vida, mas sua missão não foi finalizada. O olhar atual deste acontecimento supõe um movimento para além do momento de sua partida física, para nos colocarmos na realidade da sua decisão e prática continuada. Camilo Torres se afirma na realidade de seu pensamento, sendo este, seu “pensar”, sempre inseparável da ação empreendida. Mas, com isso, não estamos nos referindo a uma comunhão convencional entre pensamento e ação.

 

Camilo é definido principalmente em ação. Imaginar sua ideologia fora dela é impossível. Talvez isso fosse admissível se tivesse sido apenas um acadêmico, cuja altura teórica se distanciasse do engajamento ativo. No entanto, não foi essa, ao menos, sua intenção. Dito de outra forma: não é possível dizer algo sobre Camilo Torres, se evitarmos a referência à ação que se desenrola como definitiva e dá dimensão à sua obra; isto é, se omitimos a tomada de decisão que o levou até as últimas consequências. O reconhecimento desta preeminência é o que permite explicar a sobreposição de seu ser guerrilheiro a seu ser sacerdote; pois embora não tenha existido nele uma renúncia voluntária desta última, houve sim uma escolha vital.

 

Camilo Torres, então, não partiu de uma doutrina para aplica-la à vida, mas da própria realidade, que, no seu desenvolvimento, revelou o sentido de toda a doutrina plausível. Este encontro com a própria "verdade" é a base de suas ideias políticas. Entre as suas posições, apareceu a seguinte formulação, que, sem dúvida, marcaria o curso de sua vida: são as maiorias que devem ter acesso ao poder político, pois só assim é possível – e isto pela sua formação sacerdotal – nos aproximarmos da ideia cristã de justiça e libertação.

 

A questão se resumia a isto: como tomar o poder para a maioria? Para responder, ele encontrou apenas duas maneiras. Em 1965, pouco antes de entrar para o ELN, expressou o problema da seguinte forma: “Você tem que perguntar a oligarquia como ela vai entregar o poder. Se o entregarão de forma pacífica, acredito que o tomaremos de forma pacífica. Mas, se só o entregarão com violência, então o tomaremos de forma violenta”. Suas palavras são mais do que dizeres frente à eleição e missão que estava à mão. Hoje, cinquenta anos depois de sua experiência junto à primeira guerrilha do ELN, sua mensagem se escuta de forma incisiva e determinante.

 

Nos atuais diálogos de paz, fazemos a mesma pergunta aos governantes deste país. Se, depois de anos de violência, vão entregar o poder às maiorias por vias pacíficas, tenham a absoluta certeza de que sabemos corresponder a esta vontade. Mas, enquanto continuarem estreitando as opções que permitem o progresso de um país com justiça social e democracia autêntica, basta dizer que o caminho para a paz continuará a apresentar obstáculos.

 

É nosso desejo para este 2016 fazer progressos na paz da Colômbia. Estamos convencidos de que, se isso representa mudanças, os esforços não serão em vão. Como gestos desta disposição, não queremos terminar estas linhas sem manifestar o que se segue, no que diz respeito ao aniversário do quinquagésimo aniversário da morte em combate de Camilo. Em primeiro lugar, pedimos que seus restos mortais, cuja localização é desconhecida desde o dia da sua morte, sejam entregues e que seja feito, em nome de sua dignidade, um enterro apropriado.

 

Em segundo lugar, encorajamos a Igreja Católica, neste Ano da Misericórdia, como definiu o papa Francisco, a reconhecer em Camilo a realização mais sincera do compromisso social da Igreja para com os pobres, dando-lhe novamente o seu lugar como sacerdote. Este é um clamor de todo cristão comprometido.

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