O Papa me disse: “Deus perdoa com uma carícia e não com um decreto”

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11 Janeiro 2016

No dia 13 de março de 2015, enquanto escutava a homilia da liturgia penitencial, na qual o Papa Francisco anunciou o Ano Santo extraordinário, pensei: seria  bom fazer-lhe algumas perguntas centradas no temas da misericórdia e do perdão, para aprofundar o que estas palavras significaram para ele, como homem e como padre.

Sem a preocupação de obter qualquer frase de efeito que repercutisse no debate midiático em torno do sínodo sobre a família, muitas vezes reduzido a um derby entre posições opostas, eu nutria a ideia de uma entrevista que fizesse emergir o coração de Franciso, o seu olhar. Um texto que deixasse as portas abertas, num tempo, como o Ano Jubilar, durante o qual a Igreja pretende mostrar, de modo particular, e ainda mais significativo, o seu rosto de misericórdia.

A reportagem é de Andrea Tornielli, autor do livro “O nome de Deus é Misericórdia” (Nota da IHU On-Line: a ser publicado nesta quarta-feira, dia 12, também no Brasil, pela Editora Planeta), publicada por Vatican Insider, 10-01-2016. A tradução é de IHU On-Line.

O Papa aceitou a proposta. Este livro, “O nome de Deus é Misericórdia”, é o fruto de um colóquio iniciado na sala da Casa Santa Marta, no Vaticano, numa tarde quentíssima do mês de julho do ano passado, poucos dias depois do retorno da viagem ao Equador, Bolívia e Paraguai.

Pouco antes, enviara um elenco de argumentos e perguntas que pretendia abordar. Apresentei-me munido de três gravadores: dois digitais e um os velhos microcassetes. Pois me acontecera, em dezembro de 2013, no fim do colóquio publicado no jornal La Stampa, de apertar um botão errado e perder uma parte do áudio (ainda bem que já então levara um segundo aparelho).

Francisco me esperava, tendo diante de si, na mesa, uma concordância da Bíblia e das citações dos Padres da Igreja. Imediatamente convidou-me a tirar o casaco para que eu me sentisse mais à vontade devido ao calor.

Tendo percebido que não levara um caderno ou bloco de notas, mas somente uma pequena caderneta onde anotara as perguntas, o Papa se levantou e foi buscar um bloco de folhas brancas.

Conversamos longamente. Ele respondeu a todas as perguntas. Falou narrando experiências ligadas à sua experiência de padre e de bispo, contando, por exemplo, que o marido de uma sua sobrinha, divorciado recasado, na época aguardando a declaração da nulidade do primeiro casamento,  falava todas as semanas com o padre, no confessionário, sempre já lhe dizendo antecipadamente: “Sei que o senhor não me pode absolver”.

Narrou também a dor que sentiu no momento da morte do padre Carlos Duarte Ibarra, o confessor encontrado casualmente na paróquia no dia 21 de setembro de 1953, dia da festa de São Mateus. Jorge Mario Bergoglio tinha 17 anos, e foi naquele encontro que se sentiu surpreendido por Deus, decidindo abraçar a vocação religiosa e o sacerdócio. Na tarde do funeral do padre Duarte, um ano depois daquele encontro, o futuro Papa “chorara muito, escondido no meu quarto”, “porque perdera uma pessoa que me fazia sentir a misericórdia de Deus”.

Particularmente me tocaram as poucas palavras com que respondeu à pergunta sobre a sua famosa frase “Quem sou eu para julgar?”, proferida no vôo de retorno do Rio de Janeiro, em julho de 2013, a propósito dos gays. O Papa sublinhou a importância de sempre falar de “pessoas homossexuais”, porque “em primeiro lugar está a pessoa, na sua inteireza e dignidade. E a pessoa não é definida somente pela sua tendência sexual”.

Igualmente é significativa a distinção entre pecador e corrupto, que não diz respeito primeiramente à quantidade ou à gravidade das ações cometidas, mas ao fato que o primeiro humildemente reconhecer o que é e continuamente pedir perdão para poder se levantar novamente, enquanto que o segundo “é elevado a um sistema, torna-se um hábito mental, um modo de viver”.

Ou ainda as palavras com os quais o Papa Bergoglio fala dos seus encontros com os encarcerados, e como ele não se sente melhor do que eles: “Toda a vez entro na porta de um cárcere para uma visita, me vem este pensamento: por que eles e não eu?”

Nas respostas, Francisco falou várias vezes da importância de sentir-se pequeno, necessitado de ajuda, pecadores.

Espero que o entrevistado não leve a mal se revelo, neste momento, um fato. Estávamos falando da dificuldade de reconhecer-se pecador e, na primeira versão que preparara, Francisco afirmava: “A medicina existe, a cura existe, basta somente que demos um pequeno passo em direção a Deus”.

Depois de ter relido o texto, me chamou, e pediu que acrescentasse: “... ou tenhamos ao menos o desejo de nos movermos, de dar um pequeno passo em direção a Deus”, uma expressão que eu havia, distraidamente, deixado de lado.

Neste acréscimo, ou melhor, neste texto corretamente corrigido, revela-se o coração do pastor que busca se assemelhar ao coração de Deus e não deixa nada de lado para atingir o pecador. Não deixa de lado o mínimo detalhe, na busca de poder dar o perdão. Deus, explica Francisco no livro, nos espera de braços abertos. Basta que se dê um passo na sua direção como o Filho Pródigo da parábola evangélica. Mas se não temos a força de fazer pelo menos este gesto, basta então o simples desejo de fazê-lo. É já um início suficiente, para que a graça possa operar e a misericórdia seja dada, segundo a experiência de uma Igreja que não se concebe como uma alfândega, mas que busca sempre um caminho para perdoar.

Numa das homilias de Santa Marta, Francisco disse: “Quantos de nós não mereceríamos uma condenação! E que seria  justa. Mas Ele perdoa”. Como? “Com a misericórdia que não cancela o pecado: é somente o perdão de Deus que o cancela, enquanto a misericórdia vai além”. É “como o céu: nós olhamos o céu, tantas estrelas, mas vem o sol da manhã, com tanta luz, as estrelas não mais são vistas. Assim é a misericórdia de Deus: uma grande luz de amor, de ternura, porque Deus perdoa não com um decreto, mas com uma carícia”.

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