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08 Janeiro 2016

À medida em que o poder presidencial foi corroído pela sucessão de erros cometidos no front politico e econômico, e que a imprensa passou a dar espaço a qualquer iniciativa pro-impeachment, o país tornou-se refém das corporações públicas.

Hoje em dia, é comum um Procurador do Tribunal de Contas da União questionar uma Medida Provisória da Presidente da República e receber espaço no Jornal Nacional. Ou um delegado federal afrontar o Ministro da Justiça e este, democraticamente, dar-lhe a honra de um bate-boca público – em vez de enquadrá-lo. Ou um procurador qualquer abrir uma representação qualquer contra qualquer autoridade baseado em um factoide qualquer de jornais.

O comentário é de Luis Nassif, jornalista, publicado por Jornal GGN, 08-01-2016.

Tudo isso é fruto de um vácuo de poder poucas vezes visto no país.

É nesse quadro de falta total de comando, de diluição da hierarquia que a corporação Banco Central transformou o país em um campo de teste.

No início do ano passado, dos laboratórios do BC saíam estudos garantindo que, no Brasil, a curva de Phillips (que estuda a relação desemprego x inflação) vinha acompanhada de um suculento suco de jabuticaba. Ao contrário dos estudos em países centrais, por aqui seria necessária apenas uma pequena dose de desemprego para domar a inflação.

Em fevereiro, em uma entrevista coletiva a presidente garantiu que o pior já tinha passado. Há dúvidas sobre quem incutiu nela essa fantasia: se o então Ministro da Fazenda Joaquim Levy ou o presidente do Banco Central Alexandre Tombini.

Um ano depois, dos laboratórios do BC sai a constatação de que em 2015 e 2016 a demanda interna brasileira poderá sofrer uma queda de dez pontos percentuais – a maior da história. E cadê a curva de Phillips? O nível de atividade desabou, a produção industrial caiu mais de 10% em um ano, o PIB poderá cair 6 pontos em dois anos e a inflação não cedeu.

Simples, assim. Uma avaliação incorreta que produziu uma devastação na economia. Mas para o BC não produziu nenhum efeito. Nem sequer uma nesga de desconfiança da presidente da República acerca do laboratório de experiências do banco.

Uma análise da última ata do COPOM (Comitê de Política Monetária) dá uma boa pista da maneira como o BC convalida suas políticas.

Todas as previsões para o PIB despencaram. Para 2015, caíram de -2,7% para -3,6%. Para 2016, as projeções batem em -1,9%. Ora, o principal canal de transmissão da política monetária é o crédito. E a principal resultante do canal crédito é a queda das vendas, dos estoques, do emprego e do nível de atividade.

Se tudo isso ocorreu e a inflação não caiu, qualquer análise minimamente racional entenderá que a inflação não está sendo alimentada pela demanda. Ou não?

Aí surgem as teorias estrambólicas.

As análises sobre a composição da inflação são claras. A primeira onda é o realinhamento de preços defasados e dos insumos (câmbio, tarifas de luz e energia). A segunda, o realinhamento de preços finais, incorporando a alta dos insumos. É o que explica a persistência da inflação neste início de ano.

Como não há demanda que sancione esses aumentos, na medida em que essas altas de preços forem saindo da contagem anual, a inflação tenderá a refluir. Ou seja, não exigirá nenhuma proatividade do BC. O que tinha que ser feito já foi, com doses excessivas.

Com a economia despencando, a prioridade maior será segurar a queda do nível de atividade. Se prosseguir a queda, não sobra ninguém para contar história. Nem o Tombini.

Mas se admitir, na conjuntura atual, que o combate à inflação não depende mais de nenhuma ação adicional do BC, a corporação se enfraquece. Toca, então, a buscar explicações para a queda do nível de atividade que reloquem a inflação no centro das preocupações.

Consultando-se as atas do Copom, se verá as seguintes explicações para a maior recessão da história recente do país:

1. Os investimentos despencaram porque a inflação impede empresas e famílias de planejar os gastos. A não ser em obras públicas, os investimentos despencaram porque não há demanda. É óbvio.

2. Segundo esse tecnicismo vazio, a inflação resiste porque não se obteve superávit fiscal cortando despesas, e não porque o câmbio se desvalorizou em 40%, houve aumento nos preços dos combustíveis, dos importados, da energia elétrica. Aliás, se algum gênio conseguir comprovar que o não atingimento da meta fiscal por frustração de receita – devido à queda do nível de atividade – é inflacionário, levará o Nobel.

Para justificar o injustificável – a elevação dos juros, mesmo em um quadro de economia arruinada – o BC recorre ao monumental “suponhamos que”.

O BC invoca as projeções de inflação do mercado para convalidar a alta da Selic. Mas quando o mercado projeta queda da demanda, ele rebate com o “suponhamos que”.

O que diz a ata do Copom:

1. Depois de um período necessário de ajustes, que se mostra mais intenso e mais longo que o antecipado, o ritmo de atividade tende a se intensificar, à medida que a confiança de firmas e famílias se fortaleça. Ou seja, “suponhamos que” a confiança das firmas e famílias se fortaleça.

2. No que se refere ao componente externo da demanda agregada, o cenário de crescimento global, mesmo moderado, combinado com a depreciação do real, age no sentido de torná-lo mais favorável ao reequilíbrio das contas externas e ao crescimento da economia brasileira. Ou seja, “suponhamos que”, mesmo com a redução do crescimento da China, com o pé no freio da Europa e com a queda do comércio mundial, as exportações brasileiras continuem crescendo.

3. No médio prazo, mudanças importantes devem ocorrer na composição da demanda e da oferta agregada. O consumo tende a crescer em ritmo moderado e os investimentos tendem a ganhar impulso. O “suponhamos que”, desta vez, não veio acompanhado de nenhuma hipótese. É só fé em Deus.

Por conta desse conjunto de “suponhamos que”, novo aumento da Selic.

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