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Por: André | 16 Janeiro 2016

As recentes descobertas sobre a flora intestinal oferecem um universo com perspectivas vertiginosas. Talvez uma chave para compreender melhor, no futuro, o funcionamento do estresse, da obesidade, da imunidade, do diabetes...

A reportagem é de Sophie Bartczak e publicada por La Vie, 12-11-2015. A tradução é de André Langer.

Abandone a imagem vergonhosa do abdômen que serve apenas para digerir. Coloque em seu lugar o abdômen superstar. Agora, os intestinos são entronizados nas revistas e programas de TV do horário nobre. No ano passado, o documentário da TV Arte Le ventre, notre deuxième cerveau (O abdômen, nosso segundo cérebro) granjeou o fascínio do grande público ao revelar as nossas realidades intestinais, mas Le charme discret de l’intestin (O discreto charme do intestino), de Giulia Enders, é o verdadeiro fenômeno de livraria nesses últimos meses.

De fato, desde a descoberta da riqueza da microbiota (o conjunto de pequenos animais que povoam os nossos intestinos) e da complexidade do sistema nervoso intestinal (nosso segundo cérebro), ele agitou os laboratórios do mundo inteiro.

O desafio das pesquisas sobre a microbiota seria pelo menos tão promissor quanto os estudos sobre as células-tronco ou a descoberta do genoma humano para os cientistas. As pesquisas neste campo estão apenas em seus balbucios, e são necessários ainda décadas de pesquisas antes de descrever e compreender este complexo ecossistema. Mas, já agora as perspectivas terapêuticas já estariam em condições de oferecer respostas para patologias tão variadas como a obesidade, a diabetes, as doenças crônicas e auto-imunes, as alergias, mas também as doenças neurológicas como o Mal de Parkinson ou ainda o autismo, a depressão, a ansiedade e inclusive problemas do comportamento alimentar.

Um segundo cérebro em nossas entranhas

“Com seus 200 milhões de neurônios e seus dois bilhões de células gliais, o sistema nervoso entérico representa o equivalente ao cérebro de um animal de estimação”, explica Michel Neunlist, diretor de pesquisa do Inserm. Certamente, estamos longe dos 80 bilhões a 100 bilhões de neurônios do nosso cérebro e de outros órgãos do corpo, como o coração, que comporta também células nervosas autônomas, mas nenhum nas proporções tão importantes nem com uma organização tão próxima do cérebro.

Neurônios do intestino e do cérebro compartilham, por outro lado, a mesma origem embriológica, e encontramos as mesmas famílias de neurônios sensoriais, motores e intermediários. Se os dois cérebros se comunicam entre si permanentemente via sistema sanguíneo e o nervo pneumogástrico, eles são muito independentes e o sistema nervoso entérico tem sua autonomia, uma linguagem e uma inteligência que lhe são próprias. Seus milhões de neurônios, que vão do estômago até o reto, comunicam-se entre si exatamente como fazem no cérebro e fabricam as mesmas moléculas químicas, os neurotransmissores, para se comunicar. Acetilcolina, noradrenalina, dopamina ou ainda serotonina são ainda sintetizadas tanto pelo cérebro como pelo intestino. Cerca de 95% da serotonina, o hormônio do bem estar, conhecida por ser antidepressiva, é, por outro lado, fabricada não pelo cérebro, mas em nossos intestinos!

A microbiota, um continente a ser explorado

Mas o verdadeiro continente a ser explorado reside, sem sombra de dúvida, nos 100 trilhões de bactérias alojadas em nossos intestinos. Dez vezes mais que o nosso próprio número de células. O que basta para questionar a nossa definição de ser humano, de eu e de não-eu.

Nos últimos 10 anos, a microbiota – novo nome para designar a flora intestinal – imprime a velocidade ao eldorado para os pesquisadores. A tal ponto que ele está sendo considerado como um órgão de pleno direito, porque sem ele não conseguiríamos realmente viver, ou pelo menos dificilmente.

Este planeta em miniatura, fruto de um milhão de anos de coevolução com os primeiros homens, conta com mil espécies diferentes, cada uma com suas particularidades, suas funções, seu habitat, suas interações e sua produção de metabólitos. Melhor que um zoológico! E ao contrário do que durante muito tempo nós pensamos, esses microorganismos são, na maior parte do tempo, nossos amigos. Em troca de casa e comida, cada grande grupo de bactérias tem sua função específica.

Dessa maneira, algumas se ocupam de decompor as fibras e de transformá-las em energia para as células do intestino (os enterócitos), através da fabricação de ácidos graxos de cadeia curta, ao passo que outras produzem vitaminas essenciais (B e K), favorecem o desenvolvimento da mucosa intestinal, eliminando as toxinas e os vestígios de medicamentos ou estimulam o nosso sistema imunológico.

A nossa imunidade começa no abdômen

“Grande parte da imunidade acontece nos intestinos, mas é somente nos últimos cinco ou 10 anos que nós realmente nos interessamos pelo impacto das bactérias intestinais na imunidade”, explica Gérard Eberl, imunologista do Instituto Pasteur de Paris. Enquanto o nosso sistema imunológico foi considerado durante muito tempo como o grande destruidor de micróbios, os bilhões de intrusos que povoam os nossos intestinos não parecem desequilibrá-lo, mesmo se ele permanece vigilante ao concentrar 80% das suas tropas no intestino.

“Nós observamos um intercâmbio permanente entre os micróbios e as nossas células imunológicas, explica o pesquisador. Esses últimos produzem diariamente muitos gramas de anticorpos contra os micróbios do intestino, porque essa é uma zona de passagem importante e uma imensa interface com o mundo exterior. Entretanto, o objetivo não é necessariamente destruir os micróbios, mas identificá-los para controlá-los em caso de transbordamento se eles saem da zona intestinal”. Um diálogo sutil se estabelece permanentemente entre esses dois universos em simbiose.

Em primeiro lugar, o sistema imunológico regula as populações bacterianas. Mas a equação funciona também em outros sentidos! Porque o intestino também é o campo de treinamento das células imunológicas. Ali elas aprendem a exercer sua reação com o intruso: nem muito (alergias, doenças auto-imunes), nem muito pouco (infecções). Algumas bactérias nos protegem contra os micróbios patógenos simplesmente ocupando o terreno: continuem o seu caminho, o lugar já está ocupado! Outras, com armas sofisticadas dignas de Star Wars, atacam as recém-chegadas consideradas como uma ameaça. Enfim, algumas bactérias poderiam também impedir o nosso sistema imunológico de atacar as nossas próprias células. Vírus e bactérias podem também encarnar os papéis ora do Dr Jecyll, ora do Mr Hyde, conforme o contexto. “Na verdade, há poucos micróbios patógenos, explica Gérard Eberl. Alguns podem até exercer um papel protetor. A começar pelos vírus responsáveis pelas doenças infantis, como a varicela, que mais tarde forjam e estimulam a nossa imunidade”.

A famosa bactéria Helicobacter pylori é outro exemplo elucidativo. Presente no estômago da metade da população há mais de 50 mil anos, ela é incriminada em úlceras e cânceres do estômago e recomendamos sua erradicação com tratamentos antibióticos pesados. Mas novos estudos mostram que sua presença protege também da asma e eczema e reduz pela metade os riscos de morte por causa de um câncer do pulmão ou de um AVC (acidente vascular cerebral).

Seu efeito – positivo ou negativo – vai depender também de outros fatores agressivos à mucosa do estômago (estresse, tabaco, álcool, café, analgésicos...). “Na verdade, o risco zero não existe; é tudo uma questão de equilíbrio, conclui Gérard Eberl. Em nosso país, que conta com mais higiene, vacinas e antibióticos, as pessoas certamente adoecem menos de infecções, mas o sistema imunológico se desregula mais facilmente e causa mais alergias e inflamações crônicas”.

Prevenir a diabetes e o excesso de peso

Nos últimos 10 anos, multiplicam-se os estudos sobre o impacto da nossa flora intestinal sobre as doenças metabólicas como a obesidade ou a diabetes. Surpreendentes experiências mostraram que ao transplantar a microbiota de um rato obeso para um rato anoxérico (desprovido da microbiota intestinal), esse por sua vez torna-se obeso e desenvolve patologias associadas (resistência à insulina, acumulação de gordura no fígado...). A causa? Uma microbiota mais pobre entre as pessoas com excesso de peso. Mas também a passagem no sangue de compostos vindos de bactérias que interagem com o tecido adiposo.

Também foram identificadas as bactérias que favorecem o ganho de peso, mas sobretudo uma outra que poderia, ao contrário, limitar os quilos, a diabetes tipo 2 e as lesões hepáticas. Akkermansia muciniphila é o nome desta nova estrela dos microbiologistas. Seu efeito anti-obesidade foi descoberto acidentalmente no laboratório de Patrice Cani, pesquisador em fisiologia na Universidade Católica de Louvain na Bélgica. Esta bactéria constitui normalmente de 3% a 5% da nossa flora total, exceto em casos de disbiose (desequilíbrio da flora). Ela representa uma bela esperança de saúde e já está sendo objeto de pesquisas aprofundadas. Podemos, com efeito, favorecer seu desenvolvimento com prebióticos, e considera-se também a possibilidade de implantá-la em pessoas obesas que dela têm falta a fim de inverter a curva de seu peso, inclusive em pacientes diabéticos.

Entretanto, os pesquisadores advertem: a obesidade nos seres humanos é bem mais complexa que em um rato! “Eu não penso que vamos encontrar a panacéia na luta contra a obesidade, mas para a diabetes tipo 2 ou patologias cardíacas poderia proporcionar uma regulação do metabolismo para a restauração da microbiota”, precisa Patrice Cani. Por outro lado, esses ensaios de transplante de microbiota funcionam desde que se tenha um regime equilibrado rico em fibras e pobre em gorduras saturadas. Sem esquecer as atividades físicas: o efeito do esporte sobre a microbiota está demonstrado.

Surpreendentes correlações

“Na esfera científica, não há nenhuma dúvida de que as pessoas resistentes a alguns problemas digestivos sofrem também muitas vezes de determinados problemas nervosos intestinais”, resume Giulia Enders em seu livro O discreto charme do intestino. De fato, muitos médicos estabeleceram essa relação entre o nosso intestino e o nosso cérebro, e os trabalhos nessa área estão aumentando.

Até esse momento, os estudos foram realizados em sua grande maioria em animais, mas os primeiros resultados são impressionantes. “No momento, as relações mais convincentes dizem respeito ao estresse e à ansiedade”, comenta Valérie Daugé, diretora de pesquisa do CNRS no Inra de Jouy-en-Josas. Observamos que os ratos anoréxicos (sem microbiota) são mais ansiosos, menos sociais e mais estressados que os ratos com microbiota normal. Sua taxa de corticosterona, o hormônio do estresse, é duas vezes mais elevada e poderia ser reduzida com a ingestão de alguns probióticos com ação desestressante ou antipressiva. E quando se implementa uma microbiota normal nesses ratos, seu comportamento ansioso ou associal desaparece. “Em seres humanos os estudos estão apenas começando, mas pistas interessantes em psiquiatria aparecem”, diz a pesquisadora. “Algumas pesquisas em pacientes depressivos mostram especialmente uma relação marcada com um desequilíbrio da flora intestinal”.

Outros problemas mentais podem estar relacionados com o estado de nossos intestinos, a começar pelo autismo, patologia marcada por disfunções intestinais e uma flora intestinal anormal. Melhorias do comportamento puderam ser obtidas em ratos com probióticos. A esquizofrenia, os problemas bipolares, Alzheimer ou ainda o Mal de Parkinson também podem estar relacionados com o nosso intestino. “É muito provável que o Mal de Parkinson comece no sistema digestivo”, explica Michel Neunlist, do Inserm.

“Algumas formas da doença apresentam, na verdade, um desequilíbrio importante da flora intestinal. Lesões dos neurônios do intestino podem preceder os problemas motores em cinco ou 10 anos antes da doença e sua detecção precoce através de uma simples biopsia poderia permitir sua prevenção ou retardá-la. Recentemente, um pesquisador do Inserm de Rouen, Sergueï Fetissov, também descobriu uma impressionante ligação entre algumas bactérias e problemas da alimentação, como a anorexia ou a bulimia.

Essas descobertas sobre a microbiota revolucionam a nossa visão compartimentada da saúde e exigem mais transdisciplinaridade, a fim de devolver ao ser humano uma globalidade corpo-mente. Parece que o pequeno povo que nós abrigamos ainda tem muitas coisas a nos ensinar!

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