Quem tem medo do irmão Francisco? Artigo de Alessandro Barbero

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18 Dezembro 2015

Os primeiros freis estavam duramente divididos sobre quem era realmente o fundador e, consequentemente, sobre qual Francisco devia ser representado nos afrescos da basílica de Assis. Como era possível representar aquele homem atormentado e o seu projeto de absoluta pobreza, sem embaraçar aquilo em que a Ordem tinha se tornado?

A opinião é do historiador italiano Alessandro Barbero, professor da Universidade do Piemonte Oriental, em artigo publicado no jornal La Stampa, 15-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em 1220, seis anos antes de morrer, Francisco de Assis abandonou a direção da Ordem Franciscana, em polêmica muito dura com uma organização que escapava da sua mão e que não se assemelhava mais, senão como uma caricatura, ao movimento que ele tinha sonhado em fundar.

O pequeno grupo de companheiros tinha crescido para além de todas as previsões; a pobreza tinha se tornado um símbolo e não uma prática de vida, os freis viviam em espaçosos conventos, em vez de dormir na estrada, ninguém mais falava sobre ganhar a vida trabalhando, sandálias confortáveis tinham substituído os pés descalços dos Apóstolos.

Pior: o sucesso do movimento tinha lotado as comunidades franciscanas de pessoas influentes e ambiciosas, escanteando para as margens os pobres e os ignorantes. Francisco desconfiava daqueles que estudavam, convencido de que a doutrina torna a pessoa presunçosa e não é compatível com a pobreza – muito menos em um mundo onde um livro custava o equivalente a milhares de euro.

Ele era um leigo e sonhava com um movimento de leigos; e, quando uma velha mulher, mãe de um dos freis, veio lhe pedir uma ajuda, ele ordenou a vender o único Evangelho que possuíam: Deus, garantiu ele aos freis estupefatos, ficará muito mais contente ao ver que ajudamos "a nossa mãe" do que ao nos ver lendo o Evangelho.

Mas grande parte dos freis já usava a lúcida tonsura que indicava a pertença ao clero e a separação da plebe analfabeta. Por isso, Francisco renunciou e, nos seis anos que lhe restavam, combater uma cansativa batalha, aceitando os compromissos da Regula bullata – a única versão do seu programa que obteve uma aprovação escrita pelo papa – e, depois, redigindo um testamento que repropunha regras mais severas e obrigava os freis a observá-las sem introduzir nelas qualquer mudança.

Apenas quatro anos depois da morte, o corpo do santo havia sido transladado com grande pompa para a nova basílica de Assis, e o papa providenciava anular o seu testamento, declarando que os freis não eram obrigados a observá-lo.

A biografia reescrita

Chiara Frugoni, que há muitos anos vive na intimidade de Francisco e perscrutou cada centímetro dos afrescos de Assis, acaba de publicar pela editora Einaudi um livro extraordinário (Quale Francesco? Il messaggio nascosto negli affreschi della Basilica superiore ad Assisi [Qual Francisco? A mensagem escondida nos afrescos da Basílica superior em Assis], 608 páginas, 222 a cores), em que parte de uma pergunta muito simples: por que as paredes da basílica superior, destinada às reuniões dos freis, foram afrescadas apenas meio século depois, por Cimabue e depois por Giotto? Por que, em um mundo onde cada superfície de muro, se apenas houvesse os meios, era coberta com afrescos, aquelas paredes permaneceram nuas por tanto tempo?

A resposta é que os freis estavam duramente divididos sobre quem era realmente o fundador e, consequentemente, sobre qual Francisco devia ser representado. Como era possível representar aquele homem atormentado e o seu projeto de absoluta pobreza, sem embaraçar aquilo em que a Ordem tinha se tornado?

Mas não era possível nem mesmo censurá-lo, porque ainda havia muitos freis que recordavam o movimento das origens e o sentiam a sua falta no seu coração. Naqueles anos, aqueles que receberam o encargo de escrever a Vida do santo experimentaram plenamente a contradição: como Tomás de Celano, continuamente solicitado a modificar e a reescrever e acrescentar, tanto que, no fim, desabafou: "Não podemos produzir coisas novas todos os dias, nem mudar em redondo aquilo que é quadrado". Por isso, as paredes da basílica superior permaneceram despojadas.

Alter ego de Cristo

A virada decisiva, como demonstrou Chiara Frugoni no passado, ocorreu com o generalato de Boaventura de Bagnoregio, que, na Legenda Maior, ditou a versão definitiva da vida de Francisco, transformando o fundador em um alter ego de Cristo: mais divino do que humano, como demonstravam os estigmas e, portanto, por definição, inimitável.

Em boa medida, o Capítulo Geral ordenou a destruição das Vidas anteriores; só muito poucos manuscritos sobreviveram a essa medida stalinista, para serem redescobertos entre os séculos XIX e XX.

Agora, a estudiosa foi mais longe: Boaventura não propôs apenas uma nova imagem de Francisco, mas também uma nova interpretação da Ordem Franciscana e do seu destino providencial.

Utilizando os escritos proféticos de Joaquim de Fiore, o ministro geral explicou que Francisco havia sido um precursor: ele, sim, havia realizado uma vida inspirada no Evangelho, mas os tempos não estavam maduros para que o mundo o seguisse. Esses tempos chegariam, mas só Deus sabia quando; enquanto isso, os freis tinham que se preparar, estudar e rezar, sem esperar implementar logo, prematuramente, o desígnio divino prefigurado por Francisco.

Sem traí-lo totalmente

Somente quando essa interpretação se impôs é que foi possível encomendar os afrescos para a basílica superior e inserir neles uma infinidade de detalhes eloquentes, dos quais todos os dignitários da Ordem, na época, captariam o significado, e que para nós, hoje, escapariam completamente, se não houvesse Chiara Frugoni para nos assinalá-los.

Tornou-se possível representar Francisco sem traí-lo totalmente, de pés descalços e com a barba dos leigos, e em torno dele os freis calçados e raspados, em saios amplos e cômodos, e às vezes até com um livro nas mãos: sem escândalo, porque Francisco, como o Anjo do Apocalipse, profetizara um futuro que ainda não tinha se cumprido.

Boaventura tinha descoberto uma verdade que, muitos séculos depois, seria redescoberta pelos dirigentes da União Soviética: é mais fácil anunciar às pessoas que o paraíso está previsto para um futuro não muito longe, em vez de declará-lo já realizado aqui e agora.

Com esse livro, Chiara Frugoni não apenas escreveu uma página nova na história da Ordem Franciscana, mas também ampliou a nossa compreensão do pensamento e da mentalidade medievais.

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