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A grande promessa de Paris fragilizada por sórdidas questões econômicas

Em comparação com o que poderia ter sido, trata-se de um milagre. Em comparação com o que deveria ter sido, trata-se de um desastre.

A análise é de George Monbiot, publicada por Rebelión, 17-12-2015. A tradução é do Cepat.

No estreito marco a partir do qual ocorreram as conversações a respeito do clima, das Nações Unidas, em Paris, o documento obtido é um grande êxito. O alívio das delegações e as felicitações que elas mesmas se fizeram, ao saudar o texto final, reconhecem o fracasso de Copenhague, há seis anos, quando as conversações superaram todos os tempos previstos, antes do fiasco final. O acordo de Paris ainda está aguardando a aprovação formal, mas o limite de 1,5ºC de aquecimento global ao qual se aspirava, após esta exigência ter sido rejeitada durante tantos anos, pode ser visto – sempre dentro deste marco – como uma retumbante vitória. Neste sentido e em outros, o texto final tem mais força do que muitos pensavam.

A partir de fora desse marco, o texto tem outra aparência. Eu duvido que qualquer um dos negociadores acredite que como resultado das conversações o aquecimento global não superará os 1,5º C. Assim como reconhece o preâmbulo do acordo e tendo em vista a debilidade das promessas que os governos levaram a Paris, até mesmo o limite de 2ºC é tremendamente ambicioso. Ainda que alguns países tenham negociado com boa fé, é provável que os resultados reais nos conduzam a uma crise climática perigosa para todos, e letal para muitos. Nossos governos falam em não penalizar com uma dívida as gerações futuras, no entanto, acordaram justamente em penalizar nossos sucessores com uma herança muito mais perigosa: o dióxido de carbono procedente da contínua queima de combustíveis fósseis e, a longo prazo, o impacto que isto produzirá no clima do planeta Terra.

Com um aquecimento de 2ºC, grandes áreas do mundo serão menos habitáveis. É provável que os habitantes dessas regiões enfrentem fenômenos extremos: graves secas em alguns lugares, graves inundações em outros, tormentas mais intensas e, possivelmente, graves diminuições na provisão de alimentos. Numerosas ilhas e regiões da costa marítima de muitas partes do mundo correm o perigo de desaparecer debaixo da água.

Uma combinação de acidificação da água do mar, morte de colônias de corais e derretimento do gelo do ártico fariam colapsar as cadeias tróficas marinhas. Na terra, as matas tropicais retrocederiam, os rios secariam e aumentaria a desertificação. A extinção em massa poderá ser a marca registrada de nossa época. Assim como foi definido pelos delegados com seus aplausos, este é o aspecto que terá êxito.

E, inclusive em seus próprios termos, que aspecto teria o fracasso? Bom, o fracasso também é possível. Os primeiros rascunhos especificaram datas e porcentagens, o texto final fala em “alcançar o pico de emissão de gases de efeito estufa, tão logo for possível”. Isto pode significar tanto qualquer coisa como nada.

Para sermos justos, o fracasso não pertence às conversações de Paris, mas, sim, à totalidade do processo. Um aquecimento máximo de 1,5ºC, hoje em dia uma aspiração e um objetivo improváveis, era absolutamente realizável em 1995, quando ocorreu, em Berlim, a primeira conferência do clima das Nações Unidas. Passaram-se 20 anos de indecisões provocadas pela ação – direta, encoberta e muitas vezes sinistramente descarada – por parte do lobby das corporações dos combustíveis fósseis, junto à escassa disposição dos governos em explicar para seus eleitores que o pensamento a curto prazo – ou oportunista – possui consequências a longo prazo. Tudo isto fez com que a janela de oportunidade agora esteja quase fechada. As conversações de Paris foram as melhores que houve até agora. Em si mesmo, isto é uma terrível acusação.

Por mais progressista que possa ser o resultado da COP21, em comparação a tudo que veio antes, fica para nós um acordo – comicamente – torto. Enquanto a maior parte das negociações relacionadas a outras situações no mundo procura resolver os dois extremos do problema, a negociação das Nações Unidas referente à questão climática se centrou exclusivamente no consumo dos combustíveis fósseis, mas ignorou sua produção.

Em Paris, os delegados combinaram somente a diminuição da demanda destes combustíveis, sendo que cada um dos países produtores procura maximizar seu fornecimento. Inclusive, o governo do Reino Unido se impôs uma obrigação legal – com a Lei de Infraestruturas de 2015 – para “maximizar a reativação econômica” do setor produtor de petróleo e gás do Reino Unido. A extração de combustíveis fósseis é um fato forte. Porém, o acordo de Paris está cheio de fatos fracos: promessas que podem ser esquecidas ou esvaziadas. Enquanto os governos não se comprometerem a deixar os combustíveis fósseis onde estão - ou seja, debaixo da terra -, continuarão fragilizando o acordo ao qual acabam de chegar.

Com Barack Obama, na Casa Branca, e um governo que tudo controla supervisionando as negociações em Paris, o acordo é tudo o de bom que é possível conseguir nestes tempos. Nenhum dos possíveis sucessores do presidente dos Estados Unidos demonstrará tanto compromisso. Em países como o Reino Unido, as grandes promessas no estrangeiro são fragilizadas pelas sórdidas reduções de gastos em casa. Qualquer coisa que aconteça a partir de agora não será vista com bons olhos pelas próximas gerações.

Portanto, sim, deixemos que os delegados se felicitem entre si por um acordo que é melhor do que aquilo que se poderia esperar. E deixemos-lhes que o suavizem com um pedido de desculpas a todos aqueles que serão traídos por ele.

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