Para Francisco, o Concílio é uma atualização radical e corajosa. Entrevista com Massimo Faggioli

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09 Dezembro 2015

"Não há dúvida de que o Vaticano II mudou nesses 50 anos o nosso modo de fazer teologia. Agora, graças especialmente ao Papa Francisco, passou-se para uma recepção do Concílio por parte da instituição Igreja, a partir do próprio papado." O historiador Massimo Faggioli oferece uma leitura desse meio século desde o encerramento do Vaticano II. Sem ignorar as perspectivas abertas pelo pontificado de Francisco: "Bergoglio certamente é mais para conciliar do que a maioria dos seus coirmãos bispos".

A reportagem é de Vincenzo Corrado, publicada no sítio da agência Servizio Informazione Religiosa (SIR), 07-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No dia 8 de dezembro de 1965, depois de quatro sessões de trabalho, foi encerrado o Concílio Ecumênico Vaticano II. A importante cúpula ocorreu de 1962 a 1965 sob os pontificados de João XXIII e Paulo VI. Foram promulgadas quatro constituições, três declarações e nove decretos. O Vaticano II marcou uma reviravolta importante na história da Igreja.

Mas, depois de 50 anos, em que ponto está a sua recepção no mundo? Perguntamos isso a Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo e diretor do Instituto para o Catolicismo e a Cidadania na University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul (EUA).

Autor de inúmeros estudos sobre o Concílio, o historiador – dos Estados Unidos, onde vive e ensina – nos oferece uma leitura sobre o debate atual e sobre as perspectivas abertas pelo Papa Francisco.

Eis a entrevista.

Professor, 50 anos são um tempo suficiente para uma avaliação serena e coerente do Vaticano II?

Certamente são um marco importante, mas, para algumas coisas, o Concílio de Trento levou um século para ser aplicado. Para o Vaticano II, é ainda mais complexo, porque não se trata apenas de aplicá-lo de cima, mas de uma "recepção" de baixo, em uma Igreja Católica que já é verdadeiramente global. Não há dúvida de que o Vaticano II mudou nesses 50 anos o nosso modo de fazer teologia. Agora, graças especialmente ao Papa Francisco, passou-se para uma recepção do Concílio por parte da instituição Igreja, a partir do próprio papado.

Desde a abertura em 1962, o papel do Concílio foi objeto de um debate que atravessou várias fases. Pode nos ajudar a sintetizar e reconstruir as várias interpretações?

Há várias interpretações do Concílio, mas é importante notar que todo o catolicismo é conciliar, exceto aquelas alas cismáticas que seguiram Lefebvre na Fraternidade São Pio X – mas é uma parte infinitesimal em comparação com o catolicismo global. Entre o fim do Concílio em 1965 e meados dos anos 1970, houve a fase de comentários e de aplicação a partir de cima do Concílio. Seguiu-se o pontificado de João Paulo II, que representa um passo à frente para algumas questões (ecumenismo e diálogo inter-religioso), mas um passo para trás para as dinâmicas internas da Igreja.

O pontificado de Wojtyla se caracteriza também pelo Sínodo de 1985, sobre a interpretação do Concílio. Com a morte de João Paulo II, tem-se também o fim de um pontificado que sempre defendeu a legitimidade do Concílio e de uma interpretação aumentada dele.

Com Bento XVI, tem-se uma atitude um pouco diferente, de diferenciação e de juízo teológico entre as diversas hermenêuticas. E vindo isso de um papa teólogo, o efeito foi de polarizar a Igreja em torno do papel do Vaticano II.

A esse respeito, como não lembrar do discurso de Bento XVI à Cúria Romana no dia 22 de dezembro de 2005, sobre as duas hermenêuticas: "hermenêutica da continuidade e da reforma" oposta à "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura". Onde se coloca o debate atual, levando em conta também o impulso do Papa Francisco, primeiro papa que não participou do Concílio?

"Continuidade versus descontinuidade" é um dos mantras que foi usado como um cassetete, especialmente por parte daqueles que não leram ou não entenderam esse discurso de Bento XVI, que é um assunto que requer um ótimo nível de conhecimento do debate e das fontes.

Francisco trouxe a questão do Vaticano II do nível do debate sobre as hermenêuticas ao nível da necessidade de aplicar o Concílio. Por um lado, Francisco cita o Vaticano II de modo cauteloso e atento, mas sempre o cita quando se trata de documentos e de momentos-chave do pontificado. Por outro lado, o discurso das duas hermenêuticas não se aplica a Francisco, porque, para Francisco, assim como para João XXIII, o Vaticano II não é tanto "reforma", mas sim uma "atualização" mais radical e corajosa.

Em que ponto está a recepção do Concílio no catolicismo global?

A Igreja de hoje é definitivamente conciliar no sentido de que não existem alternativas às grandes intuições teológicas do Concílio (eclesiologia, teologia moral, teologia bíblica etc.). Mas existem novas questões que requerem não só uma aplicação plena do Concílio, mas também um debate novo e soluções novas, porque o Concílio, há 50 anos, não podia debatê-las. São os desafios da biopolítica, mas também os desafios de um catolicismo que não está mais a salvo da cultura europeia filha da Idade Média e do Humanismo. No Sínodo dos bispos, convocada pelo Papa Francisco, viu-se como é complexo gerir um catolicismo universal em que há origens culturais muito diferentes. O Concílio Vaticano II não dá todas as respostas, mas certamente é impensável encontrá-las voltando atrás, ao período pré-conciliar.

Ao longo dos anos, muitas vezes se falou de um Vaticano III. O que você pensa a respeito, levando também em conta o percurso sinodal desejado pelo Papa Francisco?

A questão sobre o "quando" de um Vaticano III certamente está em aberto, mas está especialmente em aberto a questão do "como". Há mais de cinco mil bispos na Igreja hoje e é impensável um Vaticano III organizado como o Vaticano II. Ao contrário, é concebível o retorno a um nível conciliar continental e regional, como nos tempos antigos: é preciso coragem e criatividade para o futuro institucional do catolicismo. A Igreja Católica nunca foi tão grande e difusa por todo o mundo.

Quanto a Igreja de Francisco vive do espírito conciliar?

Francisco recebeu o Vaticano II plenamente, em fidelidade, mas também com grande liberdade, seja como padre, seja como bispo e como papa. Nunca se encontra em Francisco o medo do "espírito do Vaticano II" nem a nostalgia da época pré-conciliar. É diferente a atitude com que muitos bispos ainda veem o Vaticano II (especialmente aqui nos Estados Unidos): medo e falta de confiança na própria ideia de mudança daquilo que se pode e se deve mudar. Francisco certamente é mais conciliar do que a maioria dos seus coirmãos bispos. É um dos desafios do pontificado.

Estamos no Ano Santo da Misericórdia. Voltam à mente as palavras de João XXIII na abertura do Concílio: a Igreja "prefere usar o remédio da misericórdia"...

De fato, e não é só uma questão de datas (conclusão do Concílio: 8 de dezembro de 1965 – abertura do Jubileu: 8 de dezembro de 2015). Não por acaso, aquele discurso de João XXIII do dia 11 de outubro de 1962 ocupa um papel central no documento do Papa Francisco que convoca o Jubileu. O pontificado de Francisco traça claramente um arco com João XXIII e é uma confirmação e uma retomada da mudança de paradigma inaugurada por João XXIII e pelo Vaticano II.

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