COP21 marca 2015 como um ano de transição

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09 Dezembro 2015

"Contração e expansão, afinal, formam o sábio padrão pelo qual a vida aprendeu a evoluir na natureza. Transitar para um novo modelo de desenvolvimento mundial não poderia ser menos complexo que essa dinâmica", comenta Ana Carolina Amaral, jornalista, mestra em Ciências Holísticas pelo Schumacher College (UK) e moderadora da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, em artigo publicado por Envolverde, 04-12-2015. 

Eis o artigo.

Vivemos no futuro. Em um tempo para o qual havíamos projetado o cumprimento dos Objetivos do Milênio, com metas básicas de saúde, educação e igualdade. O prazo venceu em 2015 e não é à toa que, bem cumprida ou não, essa agenda foi renovada para orientar as próximas décadas sob um novo título: Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. 2015 também é o ano de vencimento do Protocolo de Quioto e, conforme as expectativas de ambos observadores e negociadores, o ano de nascimento de um acordo climático sério que possa ser assinado agora em Paris.

No Brasil, 2015 fica marcado por escândalos de corrupção e guinadas de pautas “polêmico-conservadoras” no Congresso Nacional. No entanto, nem a corrupção, nem o conservadorismo são recém-chegados neste país. A novidade está no grau de exposição. Nunca antes na História da civilização ocidental, gays e mulheres tiveram tanto poder – econômico e político – para fazer sua voz ecoar e incomodar o pensamento conservador a ponto de decisões sobre casamento gay e aborto ganharem a atenção nacional. Também há novidade na luz a que vieram os esquemas, mostrando como se entremeia o poder entre governo e empresas. É a primeira vez que também foram para a cadeia os corruptores – algumas das grandes empresas que gostavam se dizer “motores do país”, embora não nos mostrassem para onde nos movem. Escândalos são importantes para colocar luz nas feridas escondidas.

Enquanto no Brasil o poder petroleiro foi enfraquecido pelas denúncias que ligaram a Petrobras ao esquema que corrompe vários setores da economia brasileira; no mundo anglo-saxão, já em março, descobriu-se que a petroleira britânica BP estava por trás do dinheiro de campanha que elegeu o senador americano Jim Inhofe, porta-voz do “ceticismo” sobre as mudanças climáticas. A relação entre o político cético e a petroleira, autoexplicativa, põe um ponto de exclamação como fim de conversa sobre os céticos do Clima.

Já os Estados Unidos, que não assinaram o Protocolo de Quioto, anunciaram agora via presidente Obama que as mudanças climáticas são a maior ameaça ao planeta. Em seu discurso na COP-21, defendeu a precificação do carbono – “put a price on it!”. Uma fala ousada, ainda que com a ressalva de que o Congresso americano não concordaria. Nas contribuições voluntárias (INDC) de cada país, os Estados Unidos prometem reduzir 32% das emissões de gases-estufa até 2030 (ano base 2005). Todos podem relativizar a decisão como quiserem, mas ninguém poderia esperá-la. Muito menos que ela seria tomada em conjunto com a China, hoje o país que mais emite gases-estufa no planeta. E para quem quiser ir reclamar com o Papa, vale consultar a Encíclica Papal lançada este ano, inteiramente dedicada ao contexto climático. Sabiamente, o Papa Francisco vincula as mudanças do Clima ao desafio do combate à pobreza e chama atenção para a maior vulnerabilidade das camadas mais pobres da população.

Felizmente, não se dá conta de resumir aqui as milhares de ações espalhadas por um mundo muito maior do que as megacidades, os anúncios de líderes ou as notícias nos jornais. Os movimentos que procuram um estilo de vida mais equilibrado, amoroso e harmônico com a Vida mais-que-humana ao nosso redor só se expande: são ecovilas, comunidades, escolas e até cidades inteiras. Na pequena Totnes, na Inglaterra, um permacultor propôs há nove anos que a cidade assumisse uma transição para se tornar mais resiliente. Hoje mais de 8000 cidades no mundo copiam o modelo do Transition Towns.

Ainda a Inglaterra – esse país que começou a Revolução Industrial no século XVIII e agora abriga celeiros da sustentabilidade -, também hospedou o início do Carbon Disclosure Project (CDP). A iniciativa apostou em um jeito eficiente de tirar dinheiro das fontes fósseis e colocar nas renováveis: alertando os investidores sobre os riscos das mudanças climáticas e os orientando a cuidar melhor da segurança das suas aplicações. A estratégia foi tão bem sucedida que neste ano a ONU resolveu adotá-la, num diálogo inédito com investidores. Um funcionário do CDP foi indicado para trabalhar na nova empreitada das Nações Unidas. O movimento cresceu e virou campanha de várias instituições, que aqui na COP-21 anunciaram a aderência de mais de 500 organizações à proposta de migrar seus investimentos de fósseis para renováveis nos próximos anos. Juntas elas representam 3,4 trilhões de dólares em ativos da economia mundial. Histórias como essa – um tabu há menos de três anos – provam que as iniciativas locais e globais se influenciam mutuamente: a inovação local ganha atenção global e daí inspira outros lugares a reproduzirem a iniciativa.

Contração e expansão, afinal, formam o sábio padrão pelo qual a vida aprendeu a evoluir na natureza. Transitar para um novo modelo de desenvolvimento mundial não poderia ser menos complexo que essa dinâmica. Por não ser linear a absolutamente coerente, esse processo exige a clareza para enxergar, entre luzes e sombras e entre contrações e expansões, o que brilha novo e abre outro caminho. Pelo ano que tivemos, a COP-21 já é um marco e finca nova direção. 

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