Cadê a comoção com o ataque terrorista contra os 5 jovens pretos no Rio de Janeiro?

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Por: Cesar Sanson | 04 Dezembro 2015

Não estamos querendo com essas indagações, afirmar que uma dor é maior que outra, mas sinalizar e diagnosticar o racismo e o processo de criminalização dos jovens negros, pobres e moradores de favelas e de bairros de periferia. O comentário é de Fransérgio Goulart em artigo publicado por Brasil de Fato, 01-12-2015.

Eis o artigo.

Logo quando aconteceu o atentado terrorista na França, a população carioca e a brasileira em redes sociais vieram logo manifestar toda a solidariedade aos mortos e suas famílias. Por que no caso dos 5 jovens mortos pelo atentado terrorista do grupo denominado PM (Polícia Militar) não aconteceu o mesmo? 

Por que com os mortos da França a grande mídia não levantou a ficha de antecedentes criminais dos mortos? E já no atentando terrorista do RJ, a primeira pergunta feita foi qual o antecedente criminal dos 5 jovens pretos moradores de favelas?

Não estamos querendo com essas indagações, afirmar que uma dor é maior que outra, mas sinalizar e diagnosticar o racismo e o processo de criminalização dos jovens negros, pobres e moradores de favelas e de bairros de periferia.

O atentado terrorista realizado pelo ESTADO (PM) contra os 05 jovens negros: Wilton Esteves Domingos Júnior, 20 anos; Wesley Castro Rodrigues, 25 anos; Cleiton Correa de Souza,18 anos; Carlos Eduardo da Silva de Souza, 16 anos e Roberto de Souza Penha, 16 anos é mais uma prova cabal do RACISMO INSTITUCIONAL vigente e histórico das polícias brasileiras.

E não podemos aceitar de jeito algum o discurso do governador Pezão e do Secretário de Segurança Pública Mariano Beltrame que trata-se de mais um ato isolado e de caráter e conduta do indivíduo policial. E também não aceitamos o discurso que formação é o caminho para resolver esse genocídio. As questões são muito mais profundas.

A polícia já é muito bem formada para acabar com nossas vidas e corpos negros favelados, é só vermos a história da própria polícia e essa lista recente que faz parte do relatório do impacto da militarização na vida dos jovens negros do Fórum de Juventudes RJ, e entendermos o processo do racismo e da militarização que recebemos cotidianamente: Carlos Magno levou um tiro de fuzil na nuca, Paulo Roberto foi espancado até morrer, João não se lembra mais quantas vezes levou tapa na cara de policial. Claudia Ferreira foi baleada, seu corpo foi removido do local do crime no porta-malas de uma viatura policial e no trajeto ficou pendurado no para-choque por um pedaço de sua roupa, sendo arrastado por quase 300 metros.

Carolina estava indo pra escola quando sua casa foi invadida por policiais, que a xingaram e deram um chute nas suas costas, deixando na sua blusa de uniforme a marca da sola do coturno da PMERJ. Daniel e Felipe foram obrigados a entrarem numa viatura, que após dar voltas por toda a favela com eles, os levou pra uma quadra onde eles foram obrigados a se arrastar pelo chão com canos de fuzis encostados nas suas costas, fazendo pressão sobre a pele pra eles rastejarem como cobras. Mariana todos os dias desvia seu caminho na volta pra casa com medo de ser estuprada pelos agentes da UPP da favela onde mora. Zélia não fez mais festas em casa depois que sua neta recém-nascida foi atingida por spray de pimenta no rosto no dia que os policiais de plantão invadiram seu churrasco de dia das mães.

Julia e outras crianças da mesma rua têm medo do barulho do helicóptero blindado do BOPE que sobrevoa baixo e faz ventar no telhado das suas casas. Vinicius foi perseguido por meses porque pintou o cabelo no salão do amigo e passou a máquina fazendo desenhos. Marcos foi parado e revistado por soldados do exército dezessete vezes no mesmo dia na favela onde mora – os mesmos soldados que nessas revistas examinaram fralda de bebê de colo.

A presença militarizada do Estado é atualizada todos os dias em cada xingamento racista e/ou machista, em cada casa invadida com chave mestra, em cada laje feita de esconderijo sem autorização, em cada equipamento de comunicador comunitário apreendido por um policial ou por um soldado. A militarização dos espaços de favelas é alimentada pela lógica bélica que constrói a ideia de que os moradores de favelas, especialmente os jovens negros, são inimigos que precisam ser eliminados.

É essa mesma lógica que pauta toda a racionalidade estatal que elabora as políticas públicas direcionadas pra esses espaços de favelas e periferias e pauta também as subjetividades das pessoas que não moram nas favelas e que demandam mais e mais policiamento, que investem em equipamentos de segurança privada e que legitimam as ações genocidas dos agentes de Estado. O processo de militarização das favelas e das periferias do Rio de Janeiro é uma das peças principais do funcionamento de uma engrenagem governamental de controle de corpos dos jovens negros (as).

Mas diante de mais um Atentado Terrorista do Estado (PM), o Fórum de Juventudes RJ vem gritar e dizer: esses corpos negros caídos no chão não podem ser naturalizados e entendido pela sociedade como algo normal. Criar uma grande arena pública para debate e ações com a sociedade brasileira sobre o racismo e a militarização de nossas vidas é fundamental.

Nossa sociedade brasileira e carioca está doente, e essa doença é chamada RACISMO. Podemos a partir de um processo da desmilitarização do sistema de segurança pública e da descriminalização das drogas minorar esses atentados terroristas do Estado realizado através de suas polícias, mas isso só vai ser possível se colocarmos o Racismo e a questão de Classes como eixos estruturantes dessas discussões e entender o protagonismo da juventudes negras, pobres e faveladas nessa construção.

Estamos na luta sempre nas ruas e não em gabinetes. Nossos mortos não serão esquecidos, e racistas não passarão !!!

E convidamos a todos e todas para estarmos no ato contra o Genocídio da Juventude Preta no dia 03 de dezembro às 17 horas no Parque de Madureira.

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