‘Furacão Delcídio’ volta a mergulhar Governo Dilma no centro da crise

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26 Novembro 2015

Prisão de líder do Governo no Senado embaralha mais uma vez o tabuleiro político.

A reportagem é de Rodolfo BorgesAfonso Benites, publicada por El País, 25-11-2015. 

Não há analista político no Brasil que se arrisque hoje a fazer previsões de mais de uma semana sobre os rumos da crise em Brasília. Os mais ousados podem até ensaiar análises de maior fôlego, de um mês ou até um semestre, mas sempre com a mesma ressalva: tudo pode mudar por conta da Operação Lava Jato. Nesta quarta-feira, a operação que surgiu de uma investigação sobre lavagem de dinheiro embaralhou o tabuleiro político do país mais uma vez, com a prisão do líder do Governo Dilma Rousseff no Senado, Delcídio do Amaral (PT), e do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. O Governo da presidenta Dilma Rousseff, que desfrutava de um certo alívio com as pressões pelo impeachment arrefecendo até pelo menos o ano que vem, voltou a mergulhar na crise e pode ter ainda menos chances de aprovar qualquer medida no Parlamento neste ano.

O Senado era considerado uma ilha de tranquilidade para o PT, ao contrário da Câmara, onde a base governista é bastante frágil. Até o furacão Delcídio. A prisão do líder do Governo na Casa inaugurou as detenções da Lava Jato no âmbito da Procuradoria Geral da República, de onde o procurador-geral Rodrigo Janot comanda as ações. Desde a divulgação da "lista do Janot", esse é o primeiro grande evento da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). Marca uma nova fase e ameniza o receio daqueles que imaginavam que, fora da Curitiba do juiz Sérgio Moro, a operação não seguiria com o mesmo ímpeto.

De acordo com o regimento interno do Senado, a votação em que os senadores decidirão se acatam ou não a decisão do STF de prender Delcídio por interferência nas investigações da Lava Jato é secreta. Mas os governistas foram derrotados e a votação será nominal, mas não havia ocorrido até a publicação desta reportagem.

A prisão do senador volta a colocar o Governo Dilma Rousseff e principalmente o PT no centro da Operação Lava Jato. O caso de fundo que levou o senador petista à prisão é a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, fechada durante o Governo Lula e enquanto a então ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff presidia o Conselho de Administração da Petrobras. O senador Humberto Costa (PT) admitiu que o Palácio do Planalto "está preocupado" com a questão, mas disse que "nós temos aí assuntos muito importantes que estão pautados e não queremos que essa pauta seja interrompida por esse fato".

O PT divulgou nota para dizer que "nenhuma das tratativas atribuídas ao senador têm qualquer relação com sua atividade partidária, seja como parlamentar ou como simples filiado"; "por isso mesmo, o PT não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade", segue a mensagem. Já a presidenta Dilma não comentou o assunto, e o Palácio do Planalto se limitou a informar em nota que a escolha do novo líder no Senado será feita na próxima semana. Dilma se preparava para um dia de reuniões tranquilas quando se deparou com a notícia-bomba de que seu principal representante no Senado tinha acabado de ser preso no hotel em que mora em Brasília, o Golden Tulip. Foi o sinal de que, apesar da calmaria prevista para os próximos dias, com o arrefecimento do pedido de impeachment e o foco quase exclusivo em Eduardo Cunha, tinha ido para o espaço.

As audiências que seriam abertas à imprensa, como uma prevista com a seleção brasileira de handebol feminino, se fecharam. Entre membros do Governo, a justificativa em tom de brincadeira era que ela havia acabado de se deparar com uma nova doença, a gripe Delcidis, e, por essa razão, não queria dar declarações públicas. Assim, ao invés de se preparar para a viagem a Paris, onde participará da COP-21, na próxima semana, e uma visita de Estado ao Japão, a presidenta teve de apagar o incêndio que acometeu o Legislativo.

Reuniu-se com quatro vice-líderes, ministros e conselheiros políticos para analisar as responsabilidades do caso.

Com a prisão de Delcídio e a Lava Jato avançando sob o núcleo político a cada dia, a crise só tende a se amplificar, ainda mais levando em conta que há outros dez senadores investigados pela Polícia Federal pelo mesmo escândalo. Para a consultoria Eursia, as prisões de Delcídio, Esteves e do pecuarista José Carlos Bumlai, próximo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sugerem que os investigadores estão focando seus esforços em torno da Petrobras.

Segundo os analistas da consultoria, essas prisões devem levar a novas informações, agravando as consequências da Operação Lava Jato para a estatal. Consequentemente, é de se esperar o prolongamento das indefinições políticas e surpresas para o Governo a partir das investigações — talvez essa seja a única certeza da política brasileira para o próximo ano.