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Em Barra Longa, fazendeiros estimam perda de 2 mil cabeças de gado com tsunami de rejeitos

Enquanto o prejuízo natural na parte alta do Rio Gualaxo do Norte, em Mariana, foi predominante depois do rompimento da barragem da empresa Samarco, os danos mais abaixo, em Barra Longa, foram maiores para criadores de gado, agricultores e para o modo de vida tradicional das populações. Já desmatado por mais de 300 anos de ocupação na região, o Vale do Rio do Carmo, no município de Barra Longa, perdeu 95,65 hectares (ha) de cobertura florestal depois de receber o tsunami de rejeitos. A extensão de vegetação nativa é mais de duas vezes menor que os 216,16ha de mata atlântica perdidos em torno do Gualaxo. Contudo, as áreas de fazendas, estradas e construções atingidas nas margens, matas ciliares e baixios foi três vezes superior, chegando a 530ha. Os dados representam uma projeção da calha principal dos dois mananciais sobre o mapeamento florestal de satélites feitos pela organização não governamental Global Forest Watch.

A reportagem é de Mateus Parreiras, publicada por O Estado de Minas, 23-11-2015.

O impacto entre os produtores rurais foi grande. Os maiores criadores estimam que chegue a 2 mil o número de cabeças perdidas, entre gado de corte e de leite. A quantidade representa 10,3% das 19.269 cabeças de gado que constam registradas na área pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) no ano passado. Com a redução do rebanho, os açougues enfrentam especulações e o preço da arroba do boi tem subido de R$ 120 para até R$ 150.

De acordo com o pecuarista Mucci Daniel Kfouri, de 33 anos, dono de açougue em Barra Longa, a lama matou menos do que os atoleiros que ficaram depois . Isso por que o terreno do município é muito montanhoso e o gado pastava nas baixadas dos rios do Carmo e Gualaxo do Norte, matando a sede nessas águas. “Perdemos as baixadas e com isso não temos pastagens, não temos mais água para o gado beber. Os bois vão tomar água no rio e atolam no lamaçal, morrem. Nos morros, a gente deixa o gado, vem a chuva, e os animais acabam caindo no brejo ou no barranco”, conta. Ainda de acordo com o pecuarista, que perdeu mais de 10 cabeças, os atoleiros seguem matando. “Se não retirar a criação da lama em um dia, pode até deixar lá. Eles pegam doença e morrem dias depois”, afirma.

Vida aquática inviabilizada

Os peixes que também eram encontrados nos rios, e que costumavam se concentrar no ponto onde o Gualaxo deságua no Rio do Carmo, também desapareceram em meio aos restos de minério. De acordo com o engenheiro ambiental da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) Luiz Perez, voluntário do Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental (Gaia) Samarco/Rio Doce, que tentar reduzir os impactos da tragédia ambiental, na água dos rios Gualaxo do Norte e do Carmo não há condições de vida para a maioria dos animais aquáticos.

O grupo já conta com mais de 5.500 membros, entre voluntários, especialistas e pessoas que gerenciam um fundo a ser criado para custear os estudos. Por conta própria, Luiz Peres tem coletado amostras da água que ainda corre pelos cursos d’água. Os recipientes de líquido turvo já foram colhidos no Carmo, em Barra Longa, e no Gualaxo do Norte. “O cheiro de ferrugem é impressionante. Vida em um ambiente inóspito como se tornaram essas águas, só se forem bactérias anaeróbicas (que não precisam de ar para sobreviver). Peixes não conseguem respirar em um ambiente desses. Se não migraram, morreram”, atesta.

Avaliando a dinâmica da enxurrada de rejeitos minerários, o especialista conta que a energia da massa de sólidos que desceu era tão grande que conseguiu subir por afluentes que encontrava, sem perder força para chegar ao Espírito Santo, superando mais de 900 quilômetros. “A massa de lama descia pelo Gualaxo do Norte e, ao entrar no Carmo, aqui em Barra Longa, se esparramou na direção da cabeceira e da foz, subindo muitos quilômetros corrente acima, até perder energia”, conta. Por outro lado, o engenheiro da Sabesp vê como positivo o fato de o rio continuar a fluir. “Se a lama tivesse estacionado e o rio parasse de correr, seria uma catástrofe ainda maior, muito mais difícil e custosa de se recuperar. Com o rio correndo, a recuperação se acelera, mas não há qualquer condição de estimar um prazo, pois a lama da margem pode voltar para a calha com as chuvas”, disse.

Barro afetou até o cabloclo d'água

Depois de matar peixes e espécimes da fauna nativa, dizimar matas e agricultura, os estragos causados pelo estouro da Barragem do Fundão afetaram também o modo de vida tradicional de comunidades de Mariana e Barra Longa. Neste último município, uma lenda de 200 anos que tem como palco o Rio Gualaxo do Norte também foi duramente atingida pelos rejeitos de minério. É nas águas hoje barrentas que ficava a chamada “Ilha do Caboclo d’Água”, figura que ganhou até estátua no portal de entrada da cidade. Essa porção de terra, pedras e moitas de bambu era o ponto onde, geração após geração, os lavradores de Barra Longa contavam ter avistado a criatura que faz parte do folclore caboclo, vivendo em rios, virando barcos de navegantes e alimentando-se de criações. Muitos habitantes da comunidade contam ter visto rastros e até ter se encontrado cara a cara com o ser misterioso. Contudo, a passagem da lama simplesmente desintegrou a ilha e encobriu completamente as pedras onde testemunhas garantem ter presenciado ataques a potros e bezerros.

Um dos criadores que contam ter “encarado” o caboclo é o pecuarista e dono de açougue Mucci Daniel Kfouri. Ele relata que o fato ocorreu há quatro anos, quando procurava por bezerros desaparecidos na beira do rio. “Tinha sumido um bezerro e fiquei desconfiado que alguém tivesse me roubado. Daí a uns meses, sumiram dois e dei queixa na polícia, mas me mandaram procurar, dizendo que tinha de ter provas do roubo”, conta. Em meio às primeiras buscas, Mucci conta ter achado um dos animais morto, com a cabeça furada, sem o cérebro, e com as entranhas aparentemente “chupadas”.

O encontro com a criatura das águas do Gualaxo teria sido em seguida. “Vi o bicho (caboclo d’água) em cima de uma pedra do rio, comendo o outro bezerro. Parecia ter um metro e vinte, a boca grande e cheia de dentes, muito cabeludo, mas com os braços com um tipo de escamas, como se fosse um réptil. O olho era parado igual ao de um peixe”, lembra. A primeira reação, conta, foi atirar pedras no monstro. “Ele deu um urro para mim e mergulhou na água. Daí, veio com a mão de dentro da água e puxou o bezerro para o fundo. Depois disso, mais pessoas têm visto”, garante ele. O pecuarista acredita que, apesar de ter perdido sua ilha para a lama, o caboclo tenha sobrevivido. “É um bicho muito forte e esperto. Acho que ele nadou para o Rio do Carmo e foi subindo a correnteza até a Cachoeira do Salto, onde a lama não chegou. Vimos até umas pegadas dele por lá. A gente trata dele aqui. deixamos bezerros mortos para ele comer e aparecem depois com mordidas muito grandes para ser de cães e até de onças”, disse. Sinal de que o caboclo vai sobreviver ao desastre, senão nas margens enlameadas, na tradição oral dos moradores.

Enquanto isso...
... Presidente pede desculpas a atingidos

Depois de 17 dias do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, o presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, pediu ontem desculpas a todos os atingidos pela tragédia que devastou povoados e encheu de lama o Rio Doce, até a chegada ao mar, no Espírito Santo. Em entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, ele se desculpou com as pessoas que foram afetadas, os que perderam casas e familiares, ribeirinhos, pescadores, comunidades que têm os rios como fonte de sustento e com as população de Minas Gerais e do Espírito Santo, assim como com os funcionários da mineradora. Vescovi reconheceu ainda que o plano de alerta não funcionou na hora da catástrofe, disse que a perda de vidas “não é admissível” e informou que, após o desastre, foram instalados botões de alerta, na sala de monitoramento, para aviso imediato às comunidades e funcionários em caso de acidente com alguma das outras duas barragens do complexo (Germano e Santarém).

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