Jovens, entre os subúrbios e o radicalismo. Entrevista com Farhad Khosrokhavar

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24 Novembro 2015

São mais de 20 anos que o sociólogo Farhad Khosrokhavar, intelectual iraniano que chegou em Paris nos anos 1970, analisa as formas de radicalização político- religiosa que levam jovens franceses, mas também do resto da Europa, aos braços das organizações jihadistas.

A reportagem é de Guido Caldiron, publicada no jornal Il Manifesto, 22-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ex-colaborador de Alain Touraine, ele herdou dele a liderança do Centro de Análise e de Intervenção Sociológica de Paris. Professor da École des Hautes Études, Khosrokhavar chegou a estudar os protagonistas da jihad "made in France", da qual ele é considerado um dos maiores especialistas, depois de ter enfrentado aquilo que ele mesmo definiu como a "religiosidade mortífera" que surgiu no espaço de sentido islâmico através das figuras dos mártires revolucionários do Irã de Khomeini.

É autor de dezenas de livros, incluindo L’Islam dans les prisons (Balland, 2004), Radicalisation (Maison des Sciences de l’Homme, 2014) e Le jihadisme (Plon, 2015).

Eis a entrevista.

A partir das biografias dos responsáveis pelos massacres de Paris, pode-se traçar um perfil daqueles que se aproximam dos grupos jihadistas na Europa e dos motivos que subjazem a essa escolha?

Pode-se dizer que existe uma primeira categoria composta por jovens que vivem em uma condição de exclusão social ou de marginalização e que interiorizaram um forte ódio pela sociedade, acabando por se perceberem como vítimas. Eles consideram que não têm um futuro dentro do modelo social dominante, a tríade "trabalho, família, plena integração". Para eles, a adesão ao Islã radical é um modo para sacralizar o seu ódio e para legitimar e justificar a própria agressividade.

Entre eles, emergem características comuns: vidas marginais nas banlieue, prisões e períodos de detenção, e é justamente na prisão que muitas vezes eles entram em contato com autodenominados pregadores que os aproximam de uma versão integralista da religião muçulmana, viagens de iniciação, primeiro ao Afeganistão, Paquistão ou ao Iêmen e, nos últimos anos, especialmente para a Síria e, por fim, uma vontade de ruptura com a sociedade em que cresceram, que se realiza em nome da Guerra Santa. Por exemplo, esse é o perfil dos autores, particularmente jovens, dos massacres do dia 13 de novembro, assim como de todos os atentados jihadistas cometidos na França nos últimos 15 anos. Esse primeiro grupo de jovens provenientes das cité periféricas ou dos bairros populares, da França assim como da Bélgica, já constituem uma espécie de exército de reserva jihadista na Europa.

Mas no Velho Continente surgiu também um segundo grupo de terroristas aspirantes. De quem se trata?

São jovens que pertencem a famílias da classe média e que não sentem ódio contra a sociedade, que vivem em bairros bons e que não têm antecedentes criminais. Muitas vezes, trata-se de convertidos, pessoas não provenientes de famílias ou ambientes muçulmanos, animados mais pelo desejo de sustentar os seus novos irmãos na fé e por uma espécie de romantismo ingênuo. O seu progressivo envolvimento nos ambientes jihadistas corresponde a uma espécie de prova, um rito de passagem para a idade adulta para pós-adolescentes. Entre eles, ainda não emergiu figuras de destaque envolvidas nos atentados cometidso na Europa, mas alguns já partiram para combater na Síria.

Se esses são os sujeitos aos quais se dirige a propaganda jihadista, em que termos pode-se descrever o seu processo de radicalização?

Como eu dizia, para os jovens das classes populares, o principal motor é representado pela transposição do seu ódio para a sociedade em uma religiosidade fanática, que lhe oferece a sensação de existir, finalmente, e de inverter os papéis que eles consideram como impostos: de pessoas insignificantes, transformam-se em heróis; de imputados e condenados pela Justiça, tornam-se os juízes inflexíveis de uma sociedade que consideram herética e ímpia; de indivíduos que inspiram o desprezo, a seres violentos que dão medo; de desconhecidos, a personagens de que a TV e os jornais falam.

Para esses casos, fala-se de uma percepção de si ligada a um senso de inadequação e da vontade de romper com a sociedade inteira. Quanto aos jovens provenientes das classes médias, a influência das redes sociais e os vídeos de propaganda postados pelos grupos extremistas e por alguns jovens já doutrinados em termos radicais podem ser determinantes para a aproximação aos jihadistas. Junto a eles, muitas vezes parece emergir uma vontade de ruptura com um mundo familiar percebido como individualista.

Nas suas escolhas, entrevê-se uma rejeição da cultura herdeira do 1968, que foi absorvida de várias maneiras pelos pais: eles preferem o casamento tradicional segundo as regras religiosa à coabitação, a guerra ao amor, forjam uma identidade aderindo a grupos ou a "estados "hiper-repressivos, a Al-Qaeda, primeiro, e o Daesh, depois. Desse ponto de vista, as novas formas de radicalização de uma parte dos jovens europeus também descrevem a desinstitucionalização da vida social e a crescente dificuldade interior de jovens cuja adolescência parece se prolongar infinitamente. A submissão a Deus, autoridade transcendental, pode superar, junto aos mais frágeis, a diluição da autoridade parental e social a que assistimos.

O sociólogo Alain Touraine, com o qual você trabalhou por muito tempo, afirma que o jihadismo representa o antimovimento social por excelência, o oposto exato de um projeto de transformação da sociedade. Você concorda?

Se entendermos por antimovimento social um fenômeno radicalmente antidemocrático, fundado em uma ideologia extremista e totalitária que se baseia em uma relação de fusão entre os adeptos e as suas ideias, essa me parece ser uma leitura adequada das coisas. Por outro lado, porém, não se pode negar que o jihadismo também é um fenômeno de compromisso coletivo e uma realidade que supera a dimensão nacional, de certa forma uma espécie de movimento social degenerado. Como se estivéssemos lidando com um altermundismo de conotações negativas e regressivas, que, em vez de enfrentar os problemas com a força das ideias, faz isso com a violência e o terrorismo e, sobretudo, segue o oposto exato da democratização do mundo, do horizonte da sociedade aberta e de uma convivência entre culturas e indivíduos diversos.

A 30 anos da Marche pour l'Égalité das periferias e a 10 anos da grande revolta das banlieue, a extensão do jihadismo entre um certo número de jovens franceses também traduz a derrota de uma perspectiva de mudança?

Infelizmente sim. O fato de que esses movimentos quase não obtiveram nada, em certo sentido, facilitou a obra de recrutamento dos terroristas. Embora sempre se deve ter em mente, como se vê nestas horas em Bamako e mais em geral com o desenvolvimento do Daesh no Iraque e na Síria, que o jihadismo também é um fenômeno internacional que tem origem nas sociedades árabes, expressa mais do um rosto e não se alimenta apenas da crise das periferias urbanas da Europa.

Trata-se de algo que não é, de forma alguma, comparável à RAF ou às Brigadas Vermelhas dos anos 1970, mas que se situa na conjunção entre a crise das banlieue e os impulsos fundamentalistas que atravessam há muito tempo as sociedades do mundo árabe. Para ser mais claro, ao mal-estar social e identitários de muitos jovens europeus, o jihadismo propôs duas invenções de porte extraordinário: a figura do neomártir, ou seja, uma morte sagrada que encarna uma delirante e extrema busca de si, e a neo-umma, a referência a uma comunidade muçulmana global que nunca existiu historicamente, mas que, para esses jovens perturbados e incertos, assume as conotações de um acolhedor remédio às suas inquietações.

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