"Combatamos a barbárie salvando a liberdade." Entrevista com Jürgen Habermas

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24 Novembro 2015

"No seu modo de se expressar, o fundamentalismo jihadista recorre a todo um código religioso, mas, de fato, não é uma religião. Em vez dos termos religiosos de que faz uso, poderia usar qualquer outra linguagem devocional ou mesmo tomada emprestado de qualquer ideologia que prometa uma justiça redentora."

A opinião é do é filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, em entrevista concedida a Nicolas Weill, publicada no jornal La Repubblica, 23-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O presidente francês, Hollande, propõe a definição de um "estado de guerra" que reflita a situação em curso. O que você pensa? Considera que uma modificação da Constituição é uma resposta adequada aos atentados de 13 de novembro em Paris?

Parece-me sensato adaptar à situação atual as duas disposições da Constituição francesa relativas ao estado de emergência. Mas eu não sou em nada um especialista em questões de segurança. Essa decisão, em vez disso, parece-me como um ato simbólico, para permitir que o governo reaja – do modo provavelmente mais conveniente – ao clima que reina no país. Na Alemanha, no entanto, a retórica belicista do presidente, inspirada ao que parece em considerações de política interna, levanta algumas reservas.

Hollande decidiu elevar o nível da intervenção francesa na Síria. O que você acha do intervencionismo?

Não foi uma decisão política inédita, mas apenas a intensificação do esforço da aviação francesa. Os especialistas parecem concordar sobre a impossibilidade de derrotar apenas com bombardeios aéreos um fenômeno desconcertante como o do Estado Islâmico. Por outro lado, uma intervenção de tropas terrestres norte-americanas e europeias seria extremamente imprudente. As ações realizadas passando por cima dos poderes locais não servem de nada.

O Estado Islâmico não pode ser derrotado apenas com o recurso a meios militares: também nesse ponto as opiniões dos especialistas coincidem. É claro, devemos considerar esses bárbaros como inimigos e combatê-los incondicionalmente. Mas, para derrotar essa barbárie, não devemos nos deixar enganar sobre as suas motivações, que são complexas. Como se sabe, os conflitos entre sunitas e xiitas, dos quais o fundamentalismo do Estado Islâmico obtém hoje as principais energias, se desencadearam depois da intervenção norte-americana no Iraque, decidido por George W. Bush, que mandou as regras do direito internacional às favas.

Certamente, o revés do processo de modernização dessas sociedades se explica, em parte, também com alguns aspectos específicos da orgulhosa cultura árabe. De fato, no entanto, ao menos em parte, a ausência de perspectivas e de esperanças para o futuro das gerações jovens desses países deve ser cobrada também da política ocidental. Esses jovens se radicalizam para reafirmar o seu amor próprio. Ao lado da concatenação de causas que nos levam à Síria, existe outra: a dos destinos marcados pela falta de integração nas estruturas sociais das nossas grandes cidades.

Na sua opinião, é pensável e possível lutar contra o terrorismo mantendo intacto o espaço público democrático? E sob que condições?

Um olhar retrospectivo para o 11 de setembro não pode nos deixar de constatar, como, aliás, muitos dos nossos amigos norte-americanos fizeram, que a "guerra contra o terror" de Bush, Cheney e Rumsfeld deteriorou a natureza política e mental da sociedade norte-americana. O Patriot Act, adotado na época pelo Congresso e ainda em vigor, corroeu os direitos fundamentais dos cidadãos e incide na substância da Constituição norte-americana. O mesmo pode ser dito sobre a extensão da noção de foreign fighters, que teve consequências fatais, legitimando Guantánamo e outros crimes, e só foi arquivada pelo governo Obama.

Mas não podemos fazer como os noruegueses em 2011, depois do assustador atentado cometido na ilha de Utoya? Resistir à primeira reflexão, à tentação de se encurvar sobre si mesmos diante de uma incógnita incompreensível, de se lançar contra o "inimigo interno"? Espero que a nação francesa saiba dar ao mundo um exemplo a seguir, como depois do atentado contra o Charlie Hebdo. Não há nenhuma necessidade de reagir a um perigo fictício como a "subserviência" a uma cultura estrangeira, que, segundo alguns, está nos ameaçando.

O perigo é muito mais concreto. A sociedade civil deve ter cuidado para não sacrificar no altar da segurança as virtudes democráticas de uma sociedade aberta: a liberdade dos indivíduos, a tolerância à diversidade das formas de vida, a disponibilidade a se identificar nas perspectivas alheias. No seu modo de se expressar, o fundamentalismo jihadista recorre a todo um código religioso, mas, de fato, não é uma religião. Em vez dos termos religiosos de que faz uso, poderia usar qualquer outra linguagem devocional ou mesmo tomada emprestado de qualquer ideologia que prometa uma justiça redentora.

A atitude alemã em relação ao afluxo dos refugiados surpreendeu positivamente, embora ultimamente a Alemanha tenha dado um passo para trás. Você acha que a onda terrorista pode modificar essa disposição?

Eu espero que não. Estamos todos no mesmo barco. O terrorismo e a crise dos refugiados são desafios dramáticos, talvez definitivos, e exigem solidariedade e uma estreita cooperação que as nações europeias ainda não se decidiram a iniciar.

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