Colômbia. Mais inclinados ao futebol do que à paz

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Por: Jonas | 19 Novembro 2015

Guerra e paz na Colômbia. “Se você quer transformar o presente (aposte na) paz”, propõe aos “jovens da Colômbia” a publicidade do governo, transmitida durante as partidas pela quarta rodada das eliminatórias para o Mundial de 2018, encerrada ontem.

A reportagem é de Darío Pignotti, publicada por Página/12, 18-11-2015. A tradução é do Cepat.

No bairro Laureles, área central de Medellín, alguns jovens de classe média ficam incomodados com a propaganda pacifista e disparam contra o presidente Juan Manuel Santos. “É um mentiroso, que não nos venha com as mentiras da paz para deixar livres os terroristas das FARC”.

“Por que precisam ir falar em um país onde há uma ditadura comunista, por que não falam aqui? Porque aqui os narcoterroristas têm medo de ser presos e ser enviados para os Estados Unidos, lá não há moleza”.

O certo é que o assunto que está na boca de todos não é o processo de paz, nem os atentados terroristas em Paris, mas, ao contrário, a seleção do astro James Rodríguez, que antes de atuar no Real Madrid, jogou no clube Envigado, de Medellín.

As bandeiras colombianas estão em todas as partes: no restaurante Los Tejanitos, em um bar sem nome, que oferece “ceviche e bananas fritas”, e no salão de beleza Consolata, localizado a poucos metros da paróquia homônima.

O nacionalismo futebolístico dos colombianos é tão intenso, ou um pouco maior que o da maioria dos países sul-americanos, o que se destaca é que aqui se soma a ele o “patriotismo” regional.

Nos meios de comunicação locais, propaga-se, quase em um pé de igualdade, o hino colombiano e o do departamento de Antioquia, cuja capital é Medellín.

Nesta cidade, reinou Pablo Escobar, ainda venerado pelos moradores de um bairro que tem o seu nome e recordado pelos fãs do Atlético Nacional, que graças aos dólares do chefe do Cartel de Medellín pagaram a equipe campeã da Libertadores, em 1989.

Atualmente, Medellín é em certa medida um reduto do ex-presidente Álvaro Uribe, direitista, ligado aos paramilitares (que controlam várias comunas pobres) e porta-voz dos opositores às negociações de paz.

Há dois meses, em Havana, o presidente Santos e o comandante rebelde Timochenko anunciaram que firmarão a paz no dia 23 de março, em seguida, apertarão as mãos, junto com o presidente Raúl Castro.

Esse passo importante para o fim da guerra civil, iniciada nos anos 1960, contou com a benção do papa Francisco, durante sua visita à ilha antes de seguir viagem para os Estados Unidos, cujo governo apoia as negociações, posição que não se repete em grupos de interesse relacionados com a indústria privada de defesa, a comunidade de inteligência e a agência de luta contra as drogas, a DEA. Essas duas corporações estatais seguem lógicas de atuação relativamente autônomas às da Casa Branca e do Departamento de Estado.

“Para os militares norte-americanos e colombianos, para a DEA, para os traficantes de armas, para muita gente, a indústria da guerra é um negócio que movimenta milhares de milhões de dólares. O interesse deles é manter viva a desculpa da luta contra o narcotráfico e a guerrilha. Possivelmente, esses grupos serão um obstáculo para os que buscam a paz”, diz o economista brasileiro Theotonio dos Santos.

“Estamos falando de grupos que perderão dinheiro, mas fundamentalmente perderão influência, caso seja ordenada a retirada das tropas regulares, o caso se decida colocar fim às bases militares norte-americanas que são uma ameaça à soberania da Colômbia e para a segurança do Brasil e Venezuela”, continua o professor emérito da Universidade Federal Fluminense, em conversa com o jornal Página/12.

Dos Santos menciona que as fronteiras colombianas com o Brasil e Venezuela se estendem por cerca de 3.800 quilômetros, mais extensas que a dos Estados Unidos e México.

O colombiano Jorge Gantiva, catedrático e pesquisador da Universidade de Tolima, concorda com a tese do brasileiro Dos Santos. Ambos participaram do congresso do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, realizado na Praça Maior de Medellín.

“Os Estados Unidos não vão entregar as bases tão fácil assim. Quando digo os Estados Unidos não estou me referindo ao presidente Barack Obama, que sai do governo dentro de um ano, falo do estado norte-americano”, afirma Gantiva.

“Existem várias bases na Colômbia. A que melhor conheço é a que se encontra em nosso departamento, Tolima, a base Tolemaida. Conta com armamento avançado, aviões muito bem equipados. Seus militares têm imunidade, qualquer crime que possam cometer será julgado em uma corte norte-americana".

Gantiva explica que dessas fortalezas, alheias à jurisdição colombiana, são comandadas ações, esboçados planos, adestrados oficiais em guerra contra-insurgente e técnicas de interrogação.

Além de especialistas norte-americanos, trabalham assessores israelenses e militares brasileiros, uma vez que as forças armadas colombianas “têm muito equipamento de guerra comprado no Brasil”.

O bombardeio aéreo ordenado por Álvaro Uribe, em 2008, contra um acampamento das FARC no Equador, foi executado com aviões Super Tucano brasileiros, dotados com tecnologia norte-americana. A invasão do território equatoriano, promovida pelo então presidente Uribe, com o consentimento de Washington, causou comoção na região.

Fazer política

Jorge Gantiva retoma a palavra para dizer que além do cenário bélico, “aqui, o mais importante não é a guerra militar, o problema é fundamentalmente de caráter político. Não falemos de guerra, guerra, guerra. Pensemos a política. Está perfeito o diálogo de paz. Estamos de acordo com os progressos que estão sendo conquistados em Cuba, mas isso não é o suficiente”.

“Tudo isso é negociação por cima, sem dar atenção à sociedade civil. Temos que alimentar o debate, organizarmo-nos. Anunciaram um plebiscito sobre a paz, se esse plebiscito fosse hoje, não sei se o voto pela paz vence. O trabalho que resta é envolver as pessoas, debater sobre o pós-conflito. Os camponeses, os indígenas, não estão envolvidos com o que ocorre nas conversas, veem estas como uma coisa distante, que acontece em Havana”, lamenta Gantiva e pergunta ao cronista: “Quantas pessoas falaram contigo da paz, nos dias em que esteve aqui? Asseguro que uma ou duas, entre dez. Talvez tenham falado da reportagem na revista Soho”, brinca.

Refere-se à publicação masculina que, em seu último número, traz fotos sensuais da ex-guerrilheira Ana Pacheco e de Isabel Londoño, que atuou nos serviços de inteligência do Estado.

A reconciliação fotográfica de Ana e Isabel, na revista Soho, é puro efeito visual, não condiz com a realidade, afirma Gantiva.

“Estamos vivendo um momento de ausência do conflito, porque a guerrilha declarou o cessar unilateral, há um clima de tranquilidade, mas a guerra está adormecida, não acabou. Os paramilitares continuam armados, organizados, reconverteram-se e agora formam os Bacrin (bandos criminosos). O narcotráfico está forte mais uma vez, não desapareceu”.

“Perceba que mais uma vez somos os primeiros produtores de cocaína, após 15 anos de Plano Colômbia, que custou milhares de milhões de dólares”, destaca.

Consultado sobre a situação dos rebeldes, Gantiva explica que apesar de ter sofrido graves derrotas militares, ainda formam uma força respeitável, com presença territorial e são bem treinados.

As FARC são formadas, fundamentalmente, por camponeses jovens que “permanecem na montanha esperando ver o que ocorre nas negociações de Cuba”. “Enquanto alguns combatentes estão aguardando as ordens dos comandantes das FARC, há outros que não aguardarão por muito tempo. Possivelmente, haverá gente que não entregará as armas, ainda que se firme a paz”.

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