É a maior tragédia ambiental do Brasil. Mas tem solução

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18 Novembro 2015

O renomado fotógrafo Sebastião Salgado já clicou mundo afora uma infinidade de tragédias, mas foi na sua terra natal que presenciou um dos espetáculos mais terríveis da sua vida: a morte do Rio Doce, o rio da sua infância. Natural de Aimorés, cidade do leste de Minas, afetada pelo rompimento das barragens da Samarco, ele tenta agora mobilizar as autoridades para criar um fundo de investimento para a recuperação da bacia. A proposta já foi entregue à presidenta Dilma Rousseff que afirmou que lutará por essa bandeira. Desde o fim dos anos 90, o fotógrafo mantém na região o Instituto Terra, uma ONG Ambiental, que toca projetos de recuperação do Rio Doce e tem, inclusive, parceria com a mineradora Vale, uma das proprietárias da Samarco. Inicialmente a ideia de Salgado é conseguir o dinheiro necessário para colocar em prática a proposta de recuperar as 377.000 nascentes da bacia. Um projeto de longo prazo, que deve gerar frutos apenas daqui a duas ou três décadas. "Hoje é muito mais importante eu lutar por esse fundo que fazer fotos".

A entrevista é de Heloísa Mendonça, publicada por El País, 17-11-2015.

Em entrevista ao jornal EL PAÍS, o fotógrafo disse que multar as empresas responsáveis pelo desastre não ajudará a solucionar o problema do vale. "Essas multas teriam que ser razoáveis para permitir que se crie o fundo com a participação das mineradoras". Apesar de lamentar a catástrofe que transformou o Rio Doce em um curso de água estéril, Salgado é enfático em dizer que esse é um drama que tem solução.

Eis a entrevista.

O que você sentiu ao ver o Rio Doce?

Domingo eu presenciei um dos espetáculos mais terríveis da minha vida. Todos os peixes do rio, todos, todos, sem exceção, mortos. Não existe mais oxigênio na água do rio. O que corre não é realmente uma água, é um gel, de cor marrom alaranjado super espesso e que vem aniquilando toda a vida do rio. São peixes imensos, centenas acumulados por todos os lados, não há mais vida. A catástrofe que começou em Bento Rodrigues agora já avançou mais de 800 quilômetros, foi descendo o curso do rio e já entrou na nossa barragem de Aimorés. Aqui tem uma barragem muito grande, mais de 30 quilômetros de comprimento. Imaginei que fosse demorar muito tempo para chegar, mas ela entrou na barragem e já está caindo no escoador para acabar de matar os peixes.

E as comunidades ribeirinhas dessa região também estão muito afetadas?

Sim, você vê Governador Valadares que está sem água, depende do rio. Eles estão apostando em um tratamento de água artesanal. Mas é uma coisa pontual que custa uma fortuna fazer. Toda a comunidade aqui, a comunidade de pescadores, as ribeirinhas, dependem do rio, sempre viveram ligadas ao rio, que é um dos maiores do país. É o maior rio que nasce e morre no centro-sul. É o emblema da região e ele está morto ecologicamente. Morto, morto. Ele passou a ser um curso de água estéril. O que aconteceu aqui foi terrível, foi a maior tragédia ecológica no Brasil.

O instituto Terra já trabalhava com projetos com o Rio Doce, mas o que muda agora com essa tragédia do rompimento das barragens na região de Mariana?

Nós já temos um projeto há muitos anos para recuperar o Rio Doce, afinal ele vem morrendo há muito tempo. O Vale do Rio Doce é um dos mais degradados do Brasil, possui 0,5% de cobertura florestal. A Mata Atlântica tem 7% de cobertura, mas o Rio Doce que faz parte dela possui apenas 0,5%. A Bacia do Rio Doce é quase do tamanho de Portugal. O país faz 91.000 quilômetros quadrados e a bacia faz 87.000 quilômetros quadrados, é do tamanho de um país europeu. Então coloca aí, 230 municipalidades, uma população entre 4 a 5 milhões de habitantes. Isso sem anexar Vitória, no Espírito Santo, que está fora do Vale, mas que está muito perto.

A capital tem hoje um problema de oferta de água muito grave e começa a preparar canalizações para levar água do Doce para lá. Então, se você coloca a dependência de Vitória, essa população passa para 7 milhões. É muito representativo. Nós temos um projeto para a recuperação das fontes do Rio Doce, porque ele foi um rio potente, mas não é mais. O Doce possui cerca de 377.000 nascentes. Elas não estão sempre na parte alta do rio, há também todos os afluentes que vem de rios médios. Já fizemos um projeto piloto com mil nascentes e todas elas começaram a produzir água ou aumentar a sua produção de uma forma significativa. Já está testado, sabemos quanto custa, sabemos o que tem que fazer. É o único projeto atual já estruturado na região que visa o Rio Doce, ele já existia muito antes da catástrofe e trabalhamos juntos com o Governo de Minas Gerais e do Espírito Santo, estamos em fase de instalação.

Essa recuperação consiste em quê?

Em replantar as áreas onde há uma nascente ou onde já existiu uma. A água não nasce da terra, não nasce da montanha. Ela é um rio aéreo em forma de nuvem, em um momento ela precipita e chove. Para isso, no entanto, você precisa ter uma capacidade de retenção dessa umidade no solo. Se você não tiver árvores no entorno da nascente, nada fica e você perde toda a água da chuva. Para recuperar as nascentes nós plantamos de 250 a 350 árvores no perímetro um pouco inferior a um hectare e a cercamos.

Essa é atualmente a única solução para a bacia?

Não, agora a situação complicou. Essa é a única forma de recuperar as nascentes, mas é um projeto de médio e longo prazo, só teremos sucesso total nesse projeto em 20 anos. Imagina o número de nascentes e a escala de recuperação. Leva tempo. No entanto, agora pintou um complicador muito grande nessa história: o rio morreu. Você imagina todos essas 4 milhões de pessoas que vivem na bacia do rio. A maioria das cidades ribeirinhas não possui tratamento de esgoto. Os rejeitos vão em direção ao rio. Antes, quando ele possuía uma vida biológica, com peixes, plantas, insetos e bactérias, o rio digeria esse esgoto, tratava, sofria, mas fazia o trabalho dele. Agora, o rio foi morto. O que ele passa a ser? Um caudal de água estéril, não há mais vida, e hoje se continuarmos jogando essas bactérias dentro dele, passará a ser um caudal de bactérias perigosíssimo para todos. Temos uma proposta junto com a recuperação das nascentes que de instalar em todas as cidades da região um serviço de tratamento de esgoto. A ideia é que a água já entre líquida dentro do caudal para você poder reconstituir a vida do Rio ou então ele não vai se recuperar jamais.

Outra necessidade urgente é instalar as matas ciliares que não existem mais. A nossa proposta não é de multar as empresas, essa não é a solução para o nosso vale. Essa multa entra nos cofres do Governo Federal, mas ela nunca vai chegar aqui, vai servir para pagar os juros das dívidas do Estado, emergências, mas nunca vai chegar aos atingidos pela catástrofe do Vale.

E qual a solução de vocês?

Nossa proposta é criar um grande fundo de investimento em que a contribuição deve ser feita pelas duas empresas proprietárias da Samarco, que são a Vale e a BHP. As duas são de uma potência financeira extrema. A gerência desse fundo seria pública e privada e teria o máximo de seriedade e ética na gestão. Como essa recuperação será em longo prazo, então teríamos que ter fundos também em longo prazo para recuperar. Agora, um cálculo de quanto seria necessário, eu não saberia dizer. Tenho apenas uma referência. Há poucos anos, houve uma catástrofe com a British Petroleum, no Golfo do México. Naquela ocasião, foi jogada ao mar uma quantidade grande de petróleo, que correspondia a um estádio de futebol em metros cúbicos, uma proporção menor ao desastre de agora. Esse material demorou um ano e meio para desaparecer da região. Ao passo que a nossa catástrofe aqui é muito pior, ela destruiu muito mais, e os danos reinarão por um tempo grande. Naquela época, a British Petroleum pagou 80 bilhões de reais. Então temos uma base. E temos que calcular que aqui possivelmente esse valor será maior. Temos que negociar com as empresas uma forma de constituir esse fundo e a gente atuar.

E essa proposta já foi levada às autoridades e empresas?

Sim, levei a Dilma e ela acha que a proposta tem que ser defendida e afirmou que lutará por essa bandeira. A presidenta disse que o Estado precisa também multar as empresas. Penso que essas multas precisam ser razoáveis para permitir para que se crie o fundo com a participação das mineradoras.

Mas a Vale e a BHP já estão informadas sobre essa proposta?

Não somos nós que temos conversas com a Samarco e com essas mineradoras, isso será feito por uma comissão que deve ser criada pelo Governo Federal, pelos dois governos estaduais e o Ministério Público. A referência legal eles que precisam fazer, cabe a nós sugerir. Esta manhã (segunda-feira) eu já conversei com os dois governadores por telefone, temos reunião semana que vem. Estamos em contato permanente com o Ministério Público, com a ministra do Meio Ambiente. Somos a única organização estruturada para o Rio Doce. Nossa entidade é inteiramente desenhada para o rio. Conhecemos como a linha da nossa mão já que temos o projeto desde 1998. Inclusive, já fizemos um projeto de recuperação dentro da fazenda dos meus pais.

Qual a sua relação pessoal e afetiva com o rio?

Eu cresci aqui, eu nasci aqui, sou do Rio Doce. Aprendi a nadar nesse rio quando era menino, então aqui é a minha terra, de verdade, é aqui. Foi justamente nessa região que eu aprendi toda a minha visão de luzes, de tudo que eu apliquei na fotografia, vem daqui. Para mim, essa região é a coisa mais importante que tenho. A minha missão, junto com toda a minha equipe, é de realmente recuperar o rio. Nós já estávamos com projetos visando isso e vamos continuar. O Rio vive um drama, mas é um drama que tem solução. Mas, para isso, precisamos de recursos.

E você tirou fotos após ver toda essa tragédia?

Ontem tirei umas fotos mínimas, passo a maior parte do meu tempo em negociação. Não fiz nada de especial para publicar, fiz para mim. No dia da tragédia eu estava na China e só cheguei aqui no último dia 10. Hoje é muito mais importante eu lutar por esse fundo do que fazer fotos.

Essa tragédia evidenciou outra vez como o retorno econômico que essas empresas dão às cidades é pequena em relação aos estragos gerados. Você acha que essa estrutura precisa de uma reavaliação?

Claro que essa lógica não está funcionando, tanto é que as cidades são pobres. É um vale complicado, mas a grande esperança na aplicação desse projeto é que consiga trazer uma economia rural sustentável. Tenho conversado muito que nós acusamos as mineradoras e o sistema industrial, mas nós precisamos deles. A Vale, que é proprietária da metade da Samarco, é a maior empregadora dessa região. Se a empresa fechar será uma catástrofe na região, ela não pode encerrar as atividades. Ela é uma mineradora responsável e trabalha com a gente nesse projeto desde o início.

Mas cabe a ela grande parte da responsabilidade do que aconteceu...

Absolutamente. Ela é uma empresa responsável e também precisa assumir a responsabilidade da catástrofe. Ainda mais porque, segundo a lei brasileira, a empresa tem que assumir o acidente que ela provocou. Agora, você não pode matar a galinha dos ovos de ouro. Um dos itens da nossa proposta é que esse grupo tente modificações nesse sistema industrial para que não permita grandes rejeitos dentro do curso de água, para que essas barragens não explodam mais. Temos direito de verificação, tem que haver verificação. Isso tudo o Estado deveria ter, mas muitas vezes ele é omisso. Mesmo a Vale, esse semestre ela não deu lucro, mas não deu por uma operação contábil de variação de câmbio, não que o processo industrial tenho deixado de exportar ou funcionar. É uma empresa que dá lucros consideráveis, então hoje essas empresas precisam assumir esses passivos.

E qual a sua opinião sobre o marco regulatório, que quer aumentar a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos (CFEM)?

Eu não entro nesse mérito da questão. Acho que uma parte maior desse produto tem que ser aplicada onde extrai o mineral. Tem que ter mudança sim, temos que ter uma sociedade mais justa e ética, melhor distribuída. Precisamos de um estado de desenvolvimento que os brasileiros merecem, ainda mais os daqui dessa região. Esses brasileiros criaram uma empresa que até pouco tempo se chamava Companhia do Vale do Rio Doce, nasceu aqui, se estruturou aqui. A minha irmã é aposentada da Vale, ela trabalhou a vida inteira para essa empresa. O pai da minha mulher foi aposentado também dali. A companhia é a sua maior do mundo, uma potência que emprega mais de 100.000 pessoas, o principal produto saiu desse vale, então algo tem que se voltar pra lá. É necessário que se modifique a legislação. Pedi à presidenta Dilma duma modificação da lei para o Vale do Rio Doce durante o período de implantação desse projeto.

Sebastião Salgado: “É a maior tragédia ambiental do Brasil. Mas tem solução”

Fotógrafo luta por fundo que compense perdas e recupere região, o que pode levar 20 anos

Heloísa Mendonça São Paulo 17 NOV 2015 - 18:27 BRST

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Sebastião Salgado fala sobre a tragédia em Mariana

A lama de rejeitos que invadiu o Rio Doce matou centenas de peixes. / RICARDO MORAES (REUTERS)

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O renomado fotógrafo Sebastião Salgado já clicou mundo afora uma infinidade de tragédias, mas foi na sua terra natal que presenciou um dos espetáculos mais terríveis da sua vida: a morte do Rio Doce, o rio da sua infância. Natural de Aimorés, cidade do leste de Minas, afetada pelo rompimento das barragens da Samarco, ele tenta agora mobilizar as autoridades para criar um fundo de investimento para a recuperação da bacia. A proposta já foi entregue à presidenta Dilma Rousseff que afirmou que lutará por essa bandeira. Desde o fim dos anos 90, o fotógrafo mantém na região o Instituto Terra, uma ONG Ambiental, que toca projetos de recuperação do Rio Doce e tem, inclusive, parceria com a mineradora Vale, uma das proprietárias da Samarco. Inicialmente a ideia de Salgado é conseguir o dinheiro necessário para colocar em prática a proposta de recuperar as 377.000 nascentes da bacia. Um projeto de longo prazo, que deve gerar frutos apenas daqui a duas ou três décadas. "Hoje é muito mais importante eu lutar por esse fundo que fazer fotos ".

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http://ep01.epimg.net/brasil/imagenes/2015/11/17/politica/1447769155_684355_1447774290_sumario_normal.jpg

Sebastião Salgado.

Em entrevista ao jornal EL PAÍS, o fotógrafo disse que multar as empresas responsáveis pelo desastre não ajudará a solucionar o problema do vale. "Essas multas teriam que ser razoáveis para permitir que se crie o fundo com a participação das mineradoras". Apesar de lamentar a catástrofe que transformou o Rio Doce em um curso de água estéril, Salgado é enfático em dizer que esse é um drama que tem solução.

Pergunta. O que você sentiu ao ver o Rio Doce?

Resposta. Domingo eu presenciei um dos espetáculos mais terríveis da minha vida. Todos os peixes do rio, todos, todos, sem exceção, mortos. Não existe mais oxigênio na água do rio. O que corre não é realmente uma água, é um gel, de cor marrom alaranjado super espesso e que vem aniquilando toda a vida do rio. São peixes imensos, centenas acumulados por todos os lados, não há mais vida. A catástrofe que começou em Bento Rodrigues agora já avançou mais de 800 quilômetros, foi descendo o curso do rio e já entrou na nossa barragem de Aimorés. Aqui tem uma barragem muito grande, mais de 30 quilômetros de comprimento. Imaginei que fosse demorar muito tempo para chegar, mas ela entrou na barragem e já está caindo no escoador para acabar de matar os peixes.

P. E as comunidades ribeirinhas dessa região também estão muito afetadas?

R. Sim, você vê Governador Valadares que está sem água, depende do rio. Eles estão apostando em um tratamento de água artesanal. Mas é uma coisa pontual que custa uma fortuna fazer. Toda a comunidade aqui, a comunidade de pescadores, as ribeirinhas, dependem do rio, sempre viveram ligadas ao rio, que é um dos maiores do país. É o maior rio que nasce e morre no centro-sul. É o emblema da região e ele está morto ecologicamente. Morto, morto. Ele passou a ser um curso de água estéril. O que aconteceu aqui foi terrível, foi a maior tragédia ecológica no Brasil.

P. O instituto Terra já trabalhava com projetos com o Rio Doce, mas o que muda agora com essa tragédia do rompimento das barragens na região de Mariana?

mais informações

R. Nós já temos um projeto há muitos anos para recuperar o Rio Doce, afinal ele vem morrendo há muito tempo. O Vale do Rio Doce é um dos mais degradados do Brasil, possui 0,5% de cobertura florestal. A Mata Atlântica tem 7% de cobertura, mas o Rio Doce que faz parte dela possui apenas 0,5%. A Bacia do Rio Doce é quase do tamanho de Portugal. O país faz 91.000 quilômetros quadrados e a bacia faz 87.000 quilômetros quadrados, é do tamanho de um país europeu. Então coloca aí, 230 municipalidades, uma população entre 4 a 5 milhões de habitantes. Isso sem anexar Vitória, no Espírito Santo, que está fora do Vale, mas que está muito perto. A capital tem hoje um problema de oferta de água muito grave e começa a preparar canalizações para levar água do Doce para lá. Então, se você coloca a dependência de Vitória, essa população passa para 7 milhões. É muito representativo. Nós temos um projeto para a recuperação das fontes do Rio Doce, porque ele foi um rio potente, mas não é mais. O Doce possui cerca de 377.000 nascentes. Elas não estão sempre na parte alta do rio, há também todos os afluentes que vem de rios médios. Já fizemos um projeto piloto com mil nascentes e todas elas começaram a produzir água ou aumentar a sua produção de uma forma significativa. Já está testado, sabemos quanto custa, sabemos o que tem que fazer. É o único projeto atual já estruturado na região que visa o Rio Doce, ele já existia muito antes da catástrofe e trabalhamos juntos com o Governo de Minas Gerais e do Espírito Santo, estamos em fase de instalação.

O que aconteceu aqui foi terrível, foi a maior tragédia ecológica no Brasil.

P. Essa recuperação consiste em quê?

R. Em replantar as áreas onde há uma nascente ou onde já existiu uma. A água não nasce da terra, não nasce da montanha. Ela é um rio aéreo em forma de nuvem, em um momento ela precipita e chove. Para isso, no entanto, você precisa ter uma capacidade de retenção dessa umidade no solo. Se você não tiver árvores no entorno da nascente, nada fica e você perde toda a água da chuva. Para recuperar as nascentes nós plantamos de 250 a 350 árvores no perímetro um pouco inferior a um hectare e a cercamos.

P. Essa é atualmente a única solução para a bacia?

R. Não, agora a situação complicou. Essa é a única forma de recuperar as nascentes, mas é um projeto de médio e longo prazo, só teremos sucesso total nesse projeto em 20 anos. Imagina o número de nascentes e a escala de recuperação. Leva tempo. No entanto, agora pintou um complicador muito grande nessa história: o rio morreu. Você imagina todos essas 4 milhões de pessoas que vivem na bacia do rio. A maioria das cidades ribeirinhas não possui tratamento de esgoto. Os rejeitos vão em direção ao rio. Antes, quando ele possuía uma vida biológica, com peixes, plantas, insetos e bactérias, o rio digeria esse esgoto, tratava, sofria, mas fazia o trabalho dele. Agora, o rio foi morto. O que ele passa a ser? Um caudal de água estéril, não há mais vida, e hoje se continuarmos jogando essas bactérias dentro dele, passará a ser um caudal de bactérias perigosíssimo para todos. Temos uma proposta junto com a recuperação das nascentes que de instalar em todas as cidades da região um serviço de tratamento de esgoto. A ideia é que a água já entre líquida dentro do caudal para você poder reconstituir a vida do Rio ou então ele não vai se recuperar jamais. Outra necessidade urgente é instalar as matas ciliares que não existem mais. A nossa proposta não é de multar as empresas, essa não é a solução para o nosso vale. Essa multa entra nos cofres do Governo Federal, mas ela nunca vai chegar aqui, vai servir para pagar os juros das dívidas do Estado, emergências, mas nunca vai chegar aos atingidos pela catástrofe do Vale.

P. E qual a solução de vocês?

Hoje é muito mais importante eu lutar por esse fundo do que fazer fotos.

R. Nossa proposta é criar um grande fundo de investimento em que a contribuição deve ser feita pelas duas empresas proprietárias da Samarco, que são a Vale e a BHP. As duas são de uma potência financeira extrema. A gerência desse fundo seria pública e privada e teria o máximo de seriedade e ética na gestão. Como essa recuperação será em longo prazo, então teríamos que ter fundos também em longo prazo para recuperar. Agora, um cálculo de quanto seria necessário, eu não saberia dizer. Tenho apenas uma referência. Há poucos anos, houve uma catástrofe com a British Petroleum, no Golfo do México. Naquela ocasião, foi jogada ao mar uma quantidade grande de petróleo, que correspondia a um estádio de futebol em metros cúbicos, uma proporção menor ao desastre de agora. Esse material demorou um ano e meio para desaparecer da região. Ao passo que a nossa catástrofe aqui é muito pior, ela destruiu muito mais, e os danos reinarão por um tempo grande. Naquela época, a British Petroleum pagou 80 bilhões de reais. Então temos uma base. E temos que calcular que aqui possivelmente esse valor será maior. Temos que negociar com as empresas uma forma de constituir esse fundo e a gente atuar.

P. E essa proposta já foi levada às autoridades e empresas?

Eu cresci aqui, eu nasci aqui, sou do Rio Doce. Para mim, essa região é a coisa mais importante que tenho.

R. Sim, levei a Dilma e ela acha que a proposta tem que ser defendida e afirmou que lutará por essa bandeira. A presidenta disse que o Estado precisa também multar as empresas. Penso que essas multas precisam ser razoáveis para permitir para que se crie o fundo com a participação das mineradoras.

P. Mas a Vale e a BHP já estão informadas sobre essa proposta?

R. Não somos nós que temos conversas com a Samarco e com essas mineradoras, isso será feito por uma comissão que deve ser criada pelo Governo Federal, pelos dois governos estaduais e o Ministério Público. A referência legal eles que precisam fazer, cabe a nós sugerir. Esta manhã (segunda-feira) eu já conversei com os dois governadores por telefone, temos reunião semana que vem. Estamos em contato permanente com o Ministério Público, com a ministra do Meio Ambiente. Somos a única organização estruturada para o Rio Doce. Nossa entidade é inteiramente desenhada para o rio. Conhecemos como a linha da nossa mão já que temos o projeto desde 1998. Inclusive, já fizemos um projeto de recuperação dentro da fazenda dos meus pais..

P. Qual a sua relação pessoal e afetiva com o rio?

R. Eu cresci aqui, eu nasci aqui, sou do Rio Doce. Aprendi a nadar nesse rio quando era menino, então aqui é a minha terra, de verdade, é aqui. Foi justamente nessa região que eu aprendi toda a minha visão de luzes, de tudo que eu apliquei na fotografia, vem daqui. Para mim, essa região é a coisa mais importante que tenho. A minha missão, junto com toda a minha equipe, é de realmente recuperar o rio. Nós já estávamos com projetos visando isso e vamos continuar. O Rio vive um drama, mas é um drama que tem solução. Mas, para isso, precisamos de recursos.

P. E você tirou fotos após ver toda essa tragédia?

R. Ontem tirei umas fotos mínimas, passo a maior parte do meu tempo em negociação. Não fiz nada de especial para publicar, fiz para mim. No dia da tragédia eu estava na China e só cheguei aqui no último dia 10. Hoje é muito mais importante eu lutar por esse fundo do que fazer fotos.

P. Essa tragédia evidenciou outra vez como o retorno econômico que essas empresas dão às cidades é pequena em relação aos estragos gerados. Você acha que essa estrutura precisa de uma reavaliação?

O Rio vive um drama, mas é um drama que tem solução. Mas, para isso, precisamos de recursos.

R. Claro que essa lógica não está funcionando, tanto é que as cidades são pobres. É um vale complicado, mas a grande esperança na aplicação desse projeto é que consiga trazer uma economia rural sustentável. Tenho conversado muito que nós acusamos as mineradoras e o sistema industrial, mas nós precisamos deles. A Vale, que é proprietária da metade da Samarco, é a maior empregadora dessa região. Se a empresa fechar será uma catástrofe na região, ela não pode encerrar as atividades. Ela é uma mineradora responsável e trabalha com a gente nesse projeto desde o início.

P. Mas cabe a ela grande parte da responsabilidade do que aconteceu...

R. Absolutamente. Ela é uma empresa responsável e também precisa assumir a responsabilidade da catástrofe. Ainda mais porque, segundo a lei brasileira, a empresa tem que assumir o acidente que ela provocou. Agora, você não pode matar a galinha dos ovos de ouro. Um dos itens da nossa proposta é que esse grupo tente modificações nesse sistema industrial para que não permita grandes rejeitos dentro do curso de água, para que essas barragens não explodam mais. Temos direito de verificação, tem que haver verificação. Isso tudo o Estado deveria ter, mas muitas vezes ele é omisso. Mesmo a Vale, esse semestre ela não deu lucro, mas não deu por uma operação contábil de variação de câmbio, não que o processo industrial tenho deixado de exportar ou funcionar. É uma empresa que dá lucros consideráveis, então hoje essas empresas precisam assumir esses passivos.

P. E qual a sua opinião sobre o marco regulatório, que quer aumentar a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos (CFEM)?

R. Eu não entro nesse mérito da questão. Acho que uma parte maior desse produto tem que ser aplicada onde extrai o mineral. Tem que ter mudança sim, temos que ter uma sociedade mais justa e ética, melhor distribuída. Precisamos de um estado de desenvolvimento que os brasileiros merecem, ainda mais os daqui dessa região. Esses brasileiros criaram uma empresa que até pouco tempo se chamava Companhia do Vale do Rio Doce, nasceu aqui, se estruturou aqui. A minha irmã é aposentada da Vale, ela trabalhou a vida inteira para essa empresa. O pai da minha mulher foi aposentado também dali. A companhia é a sua maior do mundo, uma potência que emprega mais de 100.000 pessoas, o principal produto saiu desse vale, então algo tem que se voltar pra lá. É necessário que se modifique a legislação. Pedi à presidenta Dilma duma modificação da lei para o Vale do Rio Doce durante o período de implantação desse projeto.