Precisamos discutir sem medo a ordenação feminina

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17 Novembro 2015

"Francisco, enquanto elogia o “gênio feminino” e pede por mais papéis às mulheres nas estruturas da Igreja, tem repetidamente se recusado a considerar a ordenação às mulheres, ecoando os seus antecessores. Esta porta pode estar fechada, mas como a viúva persistente do Evangelho de Lucas, nós nos postamos do lado de fora batendo à porta e dizendo: “Profira uma decisão justa para mim”. Instaríamos Francisco a aceitar esta metáfora e, quiçá, encontrar motivo e vontade para abrir um pouquinho a porta", afirma o editorial de National Cathollic Reporter, 13-11-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo o editorial, "muitas pessoas – muitíssimas pessoas – na Igreja estão impedidas de falar sobre este tema, alguns por meio de proibições e diretrizes declaradas, a maior parte das quais por meio de intimidação e medo de perder o seu sustento e suas carreiras. Aqueles entre nós com a liberdade de falar francamente contra esta injustiça devem assim fazer em voz alta".

Eis o editorial.

Em uma entrevista ao jornal The Irish Catholic, a ex-presidente irlandesa Mary McAleese chama o Papa Francisco como sendo “de longe o papa mais intrigante de minha vida”. Diz ela: “O seu maior legado à Igreja tem sido a sua acolhida do debate após um silêncio sufocante” de seus dois antecessores imediatos.

“Acho que Francisco está permitindo que a Igreja respire e isso é maravilhoso”, afirma a entrevistada. Muitos de nós concordamos com este sentimento, bem como com a qualificação que se segue: na questão da mulher, Francisco não vem se mostrando disposto em incluir ou acompanhar o maior grupo marginalizado na comunidade.

“A longa história de misoginia de minha Igreja” levou a entrevistada, mais de uma vez, a “olhar as opções em volta”, declarou McAleese, mas ela nunca conseguiu, de fato, sair da Igreja.

Muitos católicos, especialmente as mulheres, mas também os homens, concordariam com o que McAleese diz. Embora reconhecendo a injustiça que os circunda, muitos não podem simplesmente abandonar essa que é a sua casa. A hierarquia eclesiástica tem contado com esta relutância em abandonar a instituição como uma medida final de controle. Porém estes receios estão se enfraquecendo, em particular entre os católicos mais jovens.

As restrições por parte daqueles que criticariam a instituição ao mesmo tempo permanecendo nela estão, também, se enfraquecendo. Um grupo de 12 sacerdotes irlandeses emitiu uma um comunicado protestando a “proibição estrita” contra se falar a respeito da questão da ordenação feminina, com razão observando que o decreto sobre o assunto vaticano simplesmente não funcionou. É desumano exigir que as pessoas não pensem a respeito ou discutam uma questão tão premente na vida de tantos fiéis.

Quando o Papa João Paulo II emitiu a Ordinatio Sacerdotalis em maio de 1994, escrevendo que a Igreja “não tem a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”, ele queria dizer fechar as portas a qualquer debate sobre o assunto.

Dezoito meses depois, o Cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – CDF, diria que a proibição à ordenação feminina pertence “ao depósito da fé”. Ratzinger como Papa Bento XVI sustentou estes ensinamentos, mantendo a porta fechada.

Francisco, enquanto elogia o “gênio feminino” e pede por mais papéis às mulheres nas estruturas da Igreja, tem repetidamente se recusado a considerar a ordenação às mulheres, ecoando os seus antecessores.

Esta porta pode estar fechada, mas como a viúva persistente do Evangelho de Lucas, nós nos postamos do lado de fora batendo à porta e dizendo: “Profira uma decisão justa para mim”.

Instaríamos Francisco a aceitar esta metáfora e, quiçá, encontrar motivo e vontade para abrir um pouquinho a porta.

Encontraríamos um apoio considerável entre os estudiosos das Escrituras, entre os teólogos, alguns bispos e, provavelmente, um ou dois cardeais, caso ele permita acontecer o debate.

Somos levados a crer pelos especialistas que estudaram o assunto que grande parte de suas publicações justifica a ordenação das mulheres ao diaconato. Isso já seria um início. Qualquer um que tenha experiência na Igreja sabe que as mulheres vêm realizando a maior parte do ministério na Igreja ao longo das décadas.

O tema dificilmente está acabado. Aliás, a lacuna entre a lógica apresentada para se proibir a ordenação feminina e a realidade global crescente destas mulheres, transformando as convenções sociais para dar contribuições significativas em ambientes anteriormente só ocupado por homens, é, vergonhosamente, grande e está em crescimento.

Devemos persistir em lembrar ao Papa Francisco, que defende discussões ousadas e sem medo na busca da verdade, de suas próprias palavras. Recentemente em Florença, na Itália, ele advertiu contra buscarmos soluções “em condutas e formas obsoletas que não mais têm a capacidade de serem culturalmente significativas”.

Ele e outros líderes eclesiásticos devem se convencer de duas coisas:

Em primeiro lugar, precisamos de um debate ousado e destemido a respeito da questão da ordenação feminina. Declarações simples de que “a porta está fechada” não pode ser a resposta.

Em segundo lugar, Francisco e outros líderes eclesiásticos devem perceber que uma proibição à participação plena das mulheres na Igreja é algo obsoleto e não mais culturalmente significativo.

Muitas pessoas – muitíssimas pessoas – na Igreja estão impedidas de falar sobre este tema, alguns por meio de proibições e diretrizes declaradas, a maior parte das quais por meio de intimidação e medo de perder o seu sustento e suas carreiras. Aqueles entre nós com a liberdade de falar francamente contra esta injustiça devem assim fazer em voz alta.

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