“Não se deve isentar o PT de seus erros”. Entrevista com Pablo Gentili

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Por: Jonas | 10 Novembro 2015

Quando se sai da incessante conjuntura imposta pela crise brasileira e se observa a situação em perspectiva surgem duas constatações.

A primeira é que independente dos fogos de artifício lançados pela oposição, o certo é que o impeachment contra Dilma fracassou, ao menos em 2015. E a segunda é que o problema de fundo é como desativar o ajuste neoliberal em curso, antes que exploda na forma de uma derrota do PT, nas eleições de outubro do próximo ano.

 
Fonte: http://goo.gl/ACKvq4  

As teses citadas acima pertencem a Pablo Gentili (foto), secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais e pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

A entrevista é de Darío Pignotti, publicada por Página/12, 08-11-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que o impeachment é improvável?

O governo de Dilma fez uma reforma de gabinete acertada, seguindo recomendações de Lula, o que permitiu ao governo ter mais capacidade de negociação, mais presença, favorecendo a governabilidade e permitindo que se ganhe tempo, algo muito importante nesta crise.

Quando se fala do impeachment, algumas coisas são perdidas de vista em razão da urgência, por causa da pressão imposta pela direita. Agora, caso se veja para além da conjuntura, não parece que a oposição tenha tempo e condições de conseguir o impeachment neste ano, que praticamente já terminou.

O que eles tentam é que o impeachment seja já, criminalizando o PT a todo custo, e querem que seja um processo rápido para esconder seus próprios casos de corrupção. E vemos como a justiça persegue com métodos muito discutíveis familiares de Lula só por ser familiares, e olha para outro lado em casos evidentes que comprometem a direita. O que acontece na realidade? Caso não consigam, imediatamente, o impeachment de Dilma, as investigações da Justiça, cedo ou tarde, vão chegar até a direita, porque há casos evidentes contra eles, como ocorre agora com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (impulsionador do impeachment), com a comprovação de suas contas na Suíça. Isso não é possível esconder. Mas, não só Cunha, há também suspeitas sobre Aécio Neves (ex-candidato presidencial social-democrata), que ninguém quer investigar, mas em algum momento serão obrigados. Ou investigar como se chegou à reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998 (suborno de deputados para reformar a Constituição). Agora, também é preciso dizer que ocorreram algumas práticas ilícitas nos governos do PT, e não tenho dúvida que isto é algo que deve preocupar a esquerda. Não se deve isentar o PT de seus erros, é preciso investigá-lo.

E o ajuste do ministro Joaquim Levy?

Está sendo aplicada uma política de ajuste muito rigorosa, o problema que isto nos expõe é: ou se continua avançando ou retrocedemos. Este programa econômico é muito parecido ao que a oposição do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira de Neves e Cardoso) teria feito se tivesse vencido.

No ano passado, o PT venceu com uma margem apertada e, em seguida, implantou uma rigorosa política de ajuste que bloqueou a possibilidade de aprofundar e radicalizar as reformas. É um ajuste que poderá ter consequências eleitorais muito negativas para a esquerda brasileira nas eleições municipais do ano que vem. Este ajuste expõe uma fragilidade muito grave, uma profunda crise política de um governo incapaz de responder aos desafios da saúde, da educação. Já não basta ter os mesmos recursos que havia para as políticas sociais, há 10 anos, agora, é necessário mais dinheiro para mais políticas públicas.

Como este exemplo impacta na região?

Com a chegada de Lula (2003), o Brasil marcou o início de um processo de reformas na região, por meio de políticas de Estado muito ativas, efetivas. É claro que essas políticas podem ter decepcionado aqueles que esperavam uma revolução socialista. Contudo, na realidade, foram políticas muito importantes para reverter a exclusão e miséria sofridas por milhões. Foi uma verdadeira revolução democrática. Isto que se conseguiu não é o socialismo, mas é muitíssimo melhor do que aquilo que havia antes. E foi uma referência vista pelos outros países.

Completaram-se dez anos da Cúpula das Américas, na qual Kirchner, Lula e Chávez frearam a ALCA.

Trata-se de um marco na política externa comum, que merece ser revisada à luz de certa paralisia diplomática regional. O não à ALCA foi uma demonstração concreta de integração. Foi dito aos Estados Unidos: “estamos aqui”, juntamo-nos, avançamos, definimos uma agenda com vários temas que incluiu até um programa educativo comum, que foram as metas para ter uma educação mais democrática, mais justa. Caso se acompanhe estes 10 anos, desde o Não à ALCA, nota-se a evolução de nossos debates, como mudou a realidade regional. Em 2005, houve um golpe de esperança. Nessa época, os governos populares e de esquerda não tinham grandes conquistas, ainda não havia resultados. Havia poucas evidências.

Observa certa paralisia?

Dez anos mais tarde, temos evidências de que os governos pós-neoliberais deixaram um saldo importantíssimo no Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia... mas, há uma incerteza enorme sobre o futuro. Uma incerteza que nos corrói. A crise na qual se encontram muitos de nossos países impediu a continuação e aprofundamento da integração. Porque os presidentes estão muito absorvidos em seus assuntos internos e não podem dar atenção à região.

É um problema de projeto ou de lideranças?

Você menciona lideranças, permita-me que fale sobre o papel de Lula neste processo. Lula fez uma transformação da política externa impressionante, que certamente será estudada. Por seu carisma e liderança regional, um elemento que influenciou foi a capacidade de Lula de dar às relações com seus colegas um caráter pessoal e de confiança. Ele telefonava a Néstor, a Chávez, a Evo, inclusive aos não progressistas, chamava-os pelo seu primeiro nome e rompeu com a frieza na qual nossos presidentes se comunicavam. Não se esqueça de que os brasileiros sempre quiseram hegemonizar os espaços diplomáticos da América Latina, assim como fez Fernando Henrique Cardoso com o Mercosul, ao mesmo tempo em que tinha um alinhamento direto com os Estados Unidos. Isto foi assim na política externa do Brasil até chegar Lula. E o Não à ALCA também deve ser entendido como uma vitória de Lula e uma derrota de Cardoso. Lula entendeu que as chancelarias são espaços a ser conquistados pelos políticos. E ele conseguiu seduzir uma parte da estrutura dos diplomatas que aceitaram trabalhar em favor de uma nova política internacional. Durante alguns anos, o Itamaraty se apaixonou por Lula, porque a política externa deixou de ser aquela que localizava o Brasil como guarda dos Estados Unidos. Lula devolveu protagonismo à diplomacia, restituiu-lhe um sentimento mais patriótico e nacional.

Qual a sua opinião a respeito do atual momento diplomático?

Cristina e Dilma não possuem diferenças ideológicas com Néstor e Lula a respeito da integração, sobre o Não à ALCA. Porém, as duas possuem outras prioridades, urgências e outros estilos frente a uma integração que está esfriando. Maduro também é diferente de Chávez. E depois devemos considerar o restante da América do Sul, em que a Colômbia é como o Chile, dois países que precisam ser empurrados para a integração, porque possuem outras possibilidades como as dadas pela Aliança do Pacífico, que tem capacidade de seduzi-los com negócios.

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