O cardeal Pell e a economia (eucarística). Artigo de Andrea Grillo

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30 Outubro 2015

Um Sínodo não pode ser interpretado como um "balanço econômico". É óbvio que, se em um balanço não "entra" um item, este também não pode "sair". Se em um balanço não entra "comunhão", também não pode sair "comunhão": isso é pacífico. Será possível que o bispo mais experiente em economia não tenha se dado conta disso?

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 28-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Desde que o Sínodo se concluiu, o cardeal George Pell concede entrevistas em que defende:

- o magistério sobre a família saiu totalmente confirmado da Relatio, cujo texto, na sua opinião, repetiria totalmente a Familiaris consortio;

- acima de tudo o tema dos "divorciados recasados" teria sido resolvido, na sua opinião, negando mais uma vez toda possibilidade de acesso à comunhão eucarística.

Eu tentei levar do modo mais sério possível essa estranha interpretação do Sínodo. Por muito tempo, eu não a entendi. Mas, depois, foi se acendendo uma luz em mim. Por fim, compreendi que o ponto de força da leitura de Pell é o seu cargo no Vaticano: Pell lê o sínodo desse modo por uma questão de "economia". Tento explicar o porquê, depois de uma breve premissa.

a) Comecemos de longe. É legítimo ter desejos. Ou, melhor, os desejos são algo muito sério. O problema nasce quando se pretende projetar os desejos na realidade, criando irrealidades muito perigosas. Não falo aqui do desejo de ser Napoleão e de se comportar como se fosse. Mas do desejo, por exemplo, de que alguém esteja doente, doente grave. Enquanto desejamos isso, fazemos o mal a nós mesmos. Mas, se pusermos em circulação a notícia de que alguém está doente, e não for verdade, então o problema se torna mais sério, e não para o doente imaginário.

Analogamente, posso entender o desejo do cardeal Pell: é claro que ele gostaria que o texto da Relatio tivesse no capítulo 85 esta frase:

"Se alguém diz que um fiel batizado, validamente casado, que depois se separou e recasou civilmente, pode ter acesso à comunhão sacramental, anathema sit."

Eu procurei com cuidado, mas esse texto não se encontra na Relatio. Infelizmente, na mesma Relatio, também não é possível encontrar a versão "moderada e atenuada" que lemos na Familiaris consortio, onde se diz:

"A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos a partir do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atuada na Eucaristia" (n. 84).

Essa falta, essa ausência é uma reviravolta do magistério. Dizer simplesmente que o magistério está "confirmado" significa ignorar essa "ausência" que é muito pesada. O que importa não é que "não se fale de comunhão", mas que "não se exclua da comunhão".

b) Mas passemos para a economia: um Sínodo não pode ser interpretado como um "balanço econômico". É óbvio que, se em um balanço não "entra" um item, este também não pode "sair". Se em um balanço não entra "comunhão", também não pode sair "comunhão": isso é pacífico.

Infelizmente, para o cardeal Pell, um Sínodo não pode ser lido como um balanço: em um Sínodo, pode acontecer que um "assunto", que não "entra" no documento final, apareça na Exortação Apostólica. Mas também pode acontecer que o que entra no documento final não apareça na Exortação.

c) No entanto, eu gostaria de dizer que Pell tem razão ao reivindicar uma lógica "econômica" também do Sínodo. Contanto que o cardeal queira assumir – estou convencido disto – que a "economia", em sentido original, é uma noção muito mais ampla e profunda do "ajuste de contas", embora importante. Existe uma "economia doméstica" e uma "economia eucarística", que devem responder a critérios muito diferentes dos do simples "balanço econômico".

d) Talvez, sobre esse ponto, devamos reconhecer que o Sínodo fez uma verdadeira reviravolta: ele assumiu uma "leitura econômica" da tradição. É compreensível que Pell não possa suportar isso facilmente: ele vive isso, provavelmente, como uma forma de "concorrência desleal". O monopólio "econômico" de uma abordagem quantitativa à Eucaristia é ameaçado por uma "economia qualitativa", que se centra na Eucaristia. Sobre isso, é preciso refletir a fundo.

e) O que significa "visão econômica" da Eucaristia? É o que o Papa Francisco disse muitas vezes, quando ressaltou que a Eucaristia não é apenas para os sãos, mas também para os doentes. Não é o prêmio para os puros, mas o remédio para quem está a caminho. Isso significa, traduzido nas categorias "econômicas", que o caminho do cristão se nutre da Eucaristia não só no fim, mas também "a caminho".

f) A "reviravolta" do Sínodo está justamente nisto: em não excluir a priori que o divorciado recasado, permanecendo na irreversibilidade da sua própria condição nova, possa, com o tempo, ter acesso de novo à Eucaristia, como "medium salutis", como "remédio" para viver a comunhão cada vez melhor e com força renovada. Para a Eucaristia, recuperar uma "visão econômica" significa fazer com que ela se encaixe na "lógica da casa": as casas das famílias podem se alimentar da comunhão em que a Eucaristia participa: comunhão de reunião, comunhão de escuta, comunhão de confissão de fé, comunhão de canto, comunhão de oração, comunhão de perdão, comunhão de refeição.

g) O cardeal Pell, que é especialista em economia, não quer uma economia eucarística. Isso me surpreende! Justamente o "dicastério econômico" deveria ser o mais interessado nessa grande reviravolta, com a qual as famílias cristãs, com as suas alegrias e as suas dores, com as suas virtudes e os seus pecados, se deixam alimentar pelo Senhor, se deixam iluminar pelo Seu espírito, para realizar "o bem possível", sem serem sufocadas pelo "máximo do bem" que a muitas delas não é dado viver. Essa misericórdia não é injustiça. Ao contrário, é a "justiça não econômica" invocada por Pell como sendo facilmente desprovida de misericórdia alguma. Mesmo que tudo isso, em um balanço, nunca vai aparecer. Parece-me que Pell quer interpretar o Sínodo segundo os seus "desiderata": mas, no Sínodo, os desejos dos bispos individuais, encontrando-se e reconhecendo-se, abriram o olhar para uma leitura "econômica" da Eucaristia. Será possível que o mais experiente em economia não tenha se dado conta disso?

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