Primado da misericórdia: a reforma da Igreja recomeça no Sínodo. Artigo de Vito Mancuso

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28 Outubro 2015

Os bispos disseram "sim" à misericórdia, ou seja, ao primado da dimensão subjetiva em relação à objetiva. Agora, o Papa Francisco tem o apoio do episcopado mundial para tornar em lei da Igreja o primado da misericórdia.

A análise é do teólogo italiano Vito Mancuso, professor da Universidade de Pádua, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 27-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O processo reformador iniciado por João XXIII com o Vaticano II tinha ficado pela metade, mas agora, especialmente depois desse Sínodo, recomeçou. Trata-se de um recomeço tímido, tão tímido que alguns podem até negar que existe.

Na minha opinião, porém, as coisas não são assim, e o recomeço reformista é real. Depois da aprovação por maioria qualificada de todos os 94 parágrafos da Relatio finalis, incluindo aqueles sobre os divorciados recasados, o Papa Francisco, de fato, tem agora do seu lado o mandato explícito do episcopado mundial para prosseguir na sua ação inovadora.

Com que objetivo? Com o de completar o sonho de João XXIII, ou seja, o processo de "aggiornamento" [atualização], termo-piloto entregue aos Padres conciliares do Vaticano II e considerado como operação indispensável para a Igreja Católica às lidas com a modernidade.

Foi para buscar esse objetivo que João XXIII convocou o Vaticano II em 1959 e o abriu em 1962. No ano seguinte, porém, ele morreu, e coube a Paulo VI realizar a obra conciliar: o papa de Bréscia acompanhou o processo reformador sobre a moral social da Igreja Católica, mas não teve a coragem de chegar à moral familiar e sexual.

Foi o início de uma progressiva retomada da perspectiva conservadora que, depois, encontrou em João Paulo II um intérprete de autoridade e, em Bento XVI, a sua coroação.

O Papa Francisco interrompeu tal processo de restauração, e agora o Sínodo dos bispos disse "sim" à sua configuração, conferindo-lhe, de fato, a luz verde para tornar em legislação a sua pregação profética.

Do lado conservador, afirma-se que a Relatio finalis do Sínodo, até mesmo naqueles parágrafos que obtiveram por um triz a maioria qualificada dos dois terços, não contém nada de novo que já não tivesse sido dito por João Paulo II e Bento XVI.

Do ponto de vista de uma avaliação friamente conteudística, até pode ser verdade, mas como explicar, então, a forte oposição de um terço dos bispos que votaram contra? É possível que tais bispos ignorassem que se tratava simplesmente daquilo que já havia sido estabelecido pelos pontífices anteriores? Obviamente não, já que, aliás, esses bispos são justamente os que mais sentem falta de Wojtyla e Ratzinger.

Na realidade, para além das questões particulares, o ponto é que se tratava de dizer "sim" ou "não" para a nova configuração do Papa Francisco, isto é, a uma Igreja que coloca o centro de gravidade não na "verdade", como gostava de repetir Bento XVI, mas na "misericórdia", como se lê no lema pessoal de Bergoglio: "Miserando atque eligendo".

E foi isto que aconteceu: os bispos disseram "sim" à misericórdia, ou seja, ao primado da dimensão subjetiva em relação à objetiva. Agora, o Papa Francisco tem o apoio do episcopado mundial para tornar em lei da Igreja o primado da misericórdia.

Também é preciso dizer que, mesmo que os parágrafos mais discutidos não contenham nenhuma referência direta ao acesso à comunhão eucarística para os divorciados recasados, na realidade, apresentam as bases que o tornam possível: eles afirmam, de fato, que o objetivo da comunidade cristã consiste na "integração" de todos os fiéis e indicam que tal objetivo deve ser buscado mediante o método do "discernimento".

Isto é, não se trata de regras doutrinais objetivas que devem ser aplicadas "sem rodeios", mas de um método que interprete a situação concreta das pessoas concretas para mais bem servir à sua fé e à sua felicidade.

A passagem decisiva se encontra, na minha opinião, no parágrafo 84: "É preciso discernir quais das diversas formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional podem ser superadas".

Aqui se fala claramente de uma superação de formas eclesiásticas existentes, dizendo, no modo mais explícito, que é preciso ir além do status quo. Além para onde? Para o primado das pessoas, e não das regras.

É exatamente nessa passagem que se joga a renovação do Vaticano II desejada pelo Papa João XXIII. Aqui aparece a abertura da Igreja à modernidade, já que, na sua essência filosófica, a modernidade consistiu precisamente na proclamação do primado da liberdade individual em relação à objetividade das instituições tradicionais.

Mas não se trata apenas da modernidade. Ainda mais radicalmente, trata-se, como o Papa Francisco repete com insistência, do Evangelho. Ou seja, da capacidade da Igreja de saber concretizar a célebre afirmação de Jesus: "O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado" (Marcos 2, 27). Frase que, traduzida aqui e agora, se torna: a comunhão eucarística foi feita para o homem, não o homem para a comunhão eucarística.

Naturalmente, trata-se apenas, como eu já disse, de um primeiro passo tímido, mas tal passo era o máximo que se podia obter à luz das divisões doutrinais e, sobretudo, geográfico-culturais que permeiam o episcopado católico, dividido entre um norte da Europa intolerante às limitações da doutrina tradicional que separam a Igreja do corpo da sociedade, e os países do Leste Europeu, principalmente a Polônia, que se encontram na mesma linha dos países africanos.

O que pode se poderá esperar agora? Naturalmente, muito vai depender do documento com que o Papa Francisco vai selar os trabalhos do Sínodo, mas se, como é previsível, ele também vai insistir no discernimento, o resultado daqui a alguns anos poderia ser o de uma Igreja Católica bastante diferente quanto à disciplina dos sacramentos de acordo com as zonas geográficas: rigorista nos países onde prevalece o primado da "verdade", tolerante em outros, onde prevalece o primado da misericórdia. Ou, melhor, a divisão poderia se reproduzir também dentro de um mesmo país, até mesmo das mesmas cidades.

Será essa fragmentação o preço a se pagar pelo discernimento, único compromisso hoje realizável à luz das grandes diferenças na Igreja Católica? Ou o documento do Papa Francisco será capaz de impor a todos o primado da misericórdia e das pessoas concretas em relação aos sábados de todas as épocas?

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