O Sínodo dos Bispos termina onde começou: em desacordo

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22 Outubro 2015

Com o tempo se esgotando, os padres sinodais não parecem estar mais próximos do que estavam há um ano no tocante a resolver os seus conflitos sobre os problemas que as famílias enfrentam. Um dos principais pontos de divergência é o da Comunhão para os católicos divorciados e recasados, aqueles que se uniram novamente sem porém obter a anulação do casamento anterior. Uma outra polêmica é quanto à linguagem a ser empregada ao se falar sobre as pessoas homossexuais.

O comentário é de Thomas Reese, jesuíta, jornalista, publlicado por National Catholic Reporter, 20-10-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Sínodo dos Bispos termina neste domingo depois de se reunir em Roma desde o dia 4 de outubro. O evento tem discutido algumas das problemáticas que as famílias contemporâneas enfrentam, as mesmas questões debatidas num encontro semelhante dos bispos ocorrido no mesmo período do ano passado.

O papa e os bispos afirmam que o Sínodo é sobre a família e condenam a ênfase dada pela imprensa sobre a homossexualidade e o divórcio, mas não há dúvida de que estes são os tópicos em torno dos quais os bispos entram em conflito. Sobre outros temas há pouco desacordo.

Um grupo de bispos, liderados pelo Cardeal Walter Kasper, gostaria de ver uma solução pastoral que permita um processo penitencial que leve tais fiéis à Comunhão, mas esta ideia é contrariada por outros, talvez pela maioria, que acham que ela iria violar a doutrina da Igreja.

Muitos bispos esperavam encontrar uma solução pastoral que não envolva uma mudança doutrinal, porém os bispos conservadores não estão comprando esta ideia.

O problema é que os conservadores não veem o divórcio e um segundo casamento como um pecado simplesmente, pecado que pode ser confessado e perdoado. Eles o enxergam como um pecado continuado a cada vez que o casal tem relações sexuais. Uma vez que não irão deixar de manter estas relações, eles não podem participar da Comunhão. Não há disposição em aceitar o primeiro casamento como irremediavelmente rompido e destruído, o que permitiria que as partes seguissem em frente com suas vidas.

Alguns têm retratado esta problemática como um conflito entre a verdade e a misericórdia. A Igreja deve enfatizar o ensinamento ou a misericórdia de Jesus?

Por um curto período, houve certa esperança por uma solução quando se soube que o grupo de trabalho de língua alemã havia chegado a um consenso. Este grupo contava com um amplo espectro de pesos-pesados teológicos com opiniões opostas, incluindo o Cardeal Kasper e o Cardinal Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – CDF. Mas o consenso encontrava-se num tal nível de abstração a ponto de ser pastoralmente irrelevante. Os alemães haviam concordado que a misericórdia, a verdade e a justiça não estavam em conflito, pois coexistem em Deus. Grande coisa!

Os bispos parecem ter deixado de lado o fato de que, pelo menos no Ocidente, o sucesso do Sínodo será julgado por ter, ou não, uma abertura à Comunhão aos fiéis católicos divorciados e recasados. Com cerca de 40% dos casamentos católicos nos EUA acabando em divórcio, toda família tem alguém afetado como decorrência. Um segundo casamento para muitas dessas pessoas resulta em novos relacionamentos e responsabilidades que são vistos como bastante positivos.

Um bispo falou de um filho que, na Primeira Comunhão, deu parte de sua hóstia a sua mãe e seu pai, os quais não tinham permissão de comungarem. Será que esta criança compreende algo que os bispos não entendem?

Kasper não têm os votos dos padres sinodais para a sua solução. A essa altura, uma vitória para os progressistas seria um chamado sinodal para um estudo continuado sobre a possibilidade de se encontrar uma solução pastoral sem se alterar a doutrina da Igreja. O simples fato de deixar em aberto a questão para debates posteriores já seria um sucesso.

Enquanto isso, os bispos estão falando sobre o alcance pastoral aos católicos divorciados e recasados que não inclui Comunhão. Eles estão usando palavras como “acompanhamento”, “escuta” e “acolhida”. Isso vem sendo caricaturado como “Vocês estão convidados a entrarem na nossa casa, mas não podem comer o jantar com a gente”.

E como se pode “acompanhar” as pessoas que, acredita-se, estão em grave pecado a ponto de não poderem comungar? O que significa “escutar”, se já está decido que, independentemente daquilo que for dito, não se irá mudar de opinião?

Em todo caso, isso ainda é melhor do que se referir a estes casais como “vivendo em pecado”. Talvez os progressistas acreditam que os bispos transformar-se-ão ao longo de um tal ministério, enquanto que os conservadores esperam dar a absolvição a tais uniões no leito de morte destas pessoas.

Resta saber se este trabalho de acompanhamento pastoral sem a Comunhão irá vingar nas dioceses. Eu duvido que sim.

O resultado mais provável é que certas paróquias e dioceses tornar-se-ão conhecidas como lugares onde os católicos divorciados e recasados são acolhidos à Comunhão de forma extraoficial. A prática pastoral irá mudar, e a teologia e os bispos acabarão compreendendo.

Enquanto isso, outras paróquias e dioceses irão barrar publicamente tais católicos. Os católicos divorciados que não conseguem encontrar uma paróquia acolhedora podem, muito bem, encontrar uma igreja protestante, onde são bem-vindos.

No Ocidente, há também certo apoio a se modificar a abordagem da Igreja para com a comunidade homoafetiva.

Sejamos claros: Nenhum bispo está falando sobre abençoar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Tampouco há algum bispo falando sobre os aspectos positivos destes relacionamentos, conforme fizeram no Sínodo passado.

Mas alguns deles gostariam que a Igreja parasse de empregar termos como “intrinsecamente desordenado”, o que é ouvido pelas pessoas gays como algo humilhante. Mesmo a linguagem do “odeie o pecado, ame o pecador” é vista por alguns bispos como não sendo útil, visto que a homossexualidade é vivenciada como algo intrínseco à identidade da pessoa.

Por outro lado, alguns prelados estão obsessivos em suas posturas quanto à homossexualidade. Alguns ainda veem este tema como uma escolha de vida. A doutora Anca-Maria Cernea, auditora leiga e presidente da Associação dos Médicos Católicos da Romênia, proferiu um discurso apaixonado no Sínodo relacionando a homossexualidade e o marxismo, ao mesmo tempo sustentando que os homossexuais podem ser curados.

É de se perguntar o que teria acontecido se um dos bispos americanos tivesse oferecido a sua mensagem pastoral de 1997 aos pais de filhos homossexuais – mensagem intitulada “Always Our Children”  –, como um modelo para o Sínodo. Este documento, já com 18 anos de idade, está anos-luz à frente de onde muitos padres sinodais se encontram hoje. Os bispos americanos o ignoram em grande parte também, desejando de que ele não tivesse sido aprovado.

A maioria dos bispos sinodais percebe que o seu ensinamento não é convincente. Aos que se veem como profetas contraculturais, isso é algo irrelevante. “Nós estamos certos, o resto do mundo está errado”.

Àqueles que ainda possuem preocupações pastorais, há a esperança de que o ensinamento da Igreja possa, de alguma forma, ser remodelado em uma nova linguagem de forma que seja mais convincente. Mas uma nova linguagem poderia, também, significar uma nova teologia, a qual pode levar a novas abordagens a problemas antigos.

Atualmente, os bispos estão presos na velha teologia que aprenderam no seminário. Eles estão com medo de ideias novas e não estão consultando os especialistas teológicos, que poderiam mostrar-lhes outras opções. Como resultado, é pouco provável que irão sair deste Sínodo abordagens pastorais renovadas.

Alguns progressistas ainda esperam que o Papa Francisco possa, de forma milagrosa, arrancar uma vitória das garras da derrota. Eu acho que não. O Papa Francisco está em conflito. Os seus instintos pastorais estão levando-o em uma direção, mas o seu respeito pela colegialidade está impedindo-o de ir muito além dos demais.

Nunca em minha vida ouvi bispos e cardeais serem tão desrespeitosos para com um papa, questionando a sua organização do Sínodo, com alguns até mesmo se referindo a ele como um protestante e ameaçando romper a Igreja, caso o pontífice continue indo contra os desejos deles.

O papa pode ter o apoio do povo, mas será que ele conseguirá ganhar um voto de confiança deste Sínodo?

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