O Sínodo em parábolas: o Filho misericordioso e o Pai dos irmãos divorciados

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22 Outubro 2015

"Podemos realmente compreender uma 'misericórdia maior' do Pai (e do Filho) ou seremos sempre vinculados àquilo que a disciplina elaborou até agora, sem deixar espaço ao 'irmão menor' (e ao 'progenitor redesposado')?", questiona Andrea Grillo, teólogo italiano, em artigo publicado por Come se non, 20-10-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo. 

O sínodo também foi – e ainda será por poucos dias – uma grande narrativa. Alguns falaram a linguagem das normas, outros a da Escritura, outros ainda contaram as histórias de vida, também de suas vidas pessoais: ouvimos confissões de filhos de progenitores divorciados ou considerações ancoradas no parente separado. Outros retomaram somente a doutrina adquirida, outros expuseram menos as esperanças do que os temores. Conta-se também de alguns que viram as bestas do Apocalipse girar na Aula e convenceram a todos que seria o caso de combatê-las, sem delonga. Mas, no meio destes diversos registros, uma narrativa tocou os corações e marcou as consciências, tornando-se rapidamente uma “parábola invertida”: não do Pai misericordioso, mas do Filho misericordioso.

Procuramos contá-la de novo e em primeira pessoa:

“Eu não tinha escolha. Tinha escutado bem, nas horas do Catecismo, que a Eucaristia é comunhão com Jesus e com os irmãos. Como podia eu suportar que, no momento em que eu podia fazer pela primeira vez este gesto tão belo, eu tivesse que manter fora o meu papai e a minha mamãe? Eu sei, me havia dito que eles não podiam receber aquele pão que é corpo e sangue porque não tinham mais uma vida de comunhão entre ele e se tinham desposado com outros. Mas eu sei que não é assim. Sei bem que eles sofreram, erraram, se tinham amargurado, quase desesperaram, mas depois, cada um por seu caminho, reencontraram a paz, a confiança, a esperança. Isto eu sei e ninguém pode ensinar-me algo diverso. Também Jesus o sabe. Por isso, quando recebi a partícula na mão, eu não tinha escolha. Dividi o pão e compartilhei com quem está em comunhão comigo e também encontrou a comunhão consigo e com Deus. E com a Igreja? Isto é difícil de dizer: mas agora posso dizê-lo assim. Através de mim eles deram um passo na comunhão com a Igreja. A qual não pode exigir deles aquilo que eu mesmo entendi não poder exigir: não se volta atrás. Em mim eles estarão sempre em comunhão, embora entre eles não o possam mais ser. Isto é um mistério, um grande mistério, mistério de dor, mas também de alegria. E me pergunto: por que a Igreja não poderia reconhecê-lo? Por que deveria bloquear-se diante deste mistério? Se o consegui eu que era diretamente envolvido, como poderia não consegui-lo o corpo de Cristo que é a Igreja?”

Esta parábola de vida me sugeriu, de novo, um repensamento da parábola evangélica, que não é do filho misericordioso, mas do Pai misericordioso. Os filhos podem perdoar aos pais divorciados, mas também os pais podem perdoar aos filhos divorciados. 

Eis como poderia soar, sob as volutas da Aula sinodal, a famosa parábola de Lucas, repensada à luz do conto do “pequeno Padre da Igreja”:

"Um homem tinha dos filhos. O mais velho casou, e permaneceu com a mulher junto do pai. Também o segundo, depois, se casou e foi viver longe com sua esposa. Depois de algum tempo, o primeiro filho foi abandonado pela mulher e ficou só. Mas ficou junto do pai, permanecendo fiel à mulher e mantendo a palavra dada, a todo custo. Também o segundo filho, algum tempo depois, entrou em crise e foi abandonado pela mulher. Após longo período, conheceu outra mulher, se ligou a ela e enfim a desposou. Quando retornou ao pai, temendo ser por ele julgado indigno, o encontrou acolhendo-o de braços abertos. Ficou admirado com isso e se deixou acompanhar em casa, fazendo festa para a nova esposa, com os augúrios de prosperidade. O irmão mais velho, todavia, tomou o pai de parte, dizendo-lhe: “também eu fui abandonado e permaneci sozinho, mas tu para mim, que permaneci fiel, não fazes nenhuma festa. Ao invés, te alegras e cantas para este meu irmão, que se redesposou, traindo a sua palavra”. O pai tomou o filho pelo braço e lhe disse: “Filho meu, eu admiro muito a tua escolha, que é fruto de sabedoria e de respeito. Mas, não posso blasfemar teu irmão: não é bom, de fato, que o homem esteja só. Para ele vale uma escolha diversa da tua. Ele não deve protestar pela tua escolha. Mas tu, não protestar pela sua. A comunhão é também isto: uma via diversa para o bem”. 

Ante uma parábola assim reformulada, o que pode dizer uma Igreja capaz de verdadeira fidelidade criativa? Podemos realmente compreender uma “misericórdia maior” do Pai (e do Filho) ou seremos sempre vinculados àquilo que a disciplina elaborou até agora, sem deixar espaço ao “irmão menor” (e ao “progenitor redesposado”)? Deveremos continuar a viver uma Igreja tão condicionada pelas reservas e pelos medos de demasiados “irmãos mais velhos”?