A misericórdia vem antes da justiça. Artigo de Enzo Bianchi

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21 Outubro 2015

Não existe nenhuma contraposição entre misericórdia, justiça e verdade, porque em Deus, que é o legislador, a misericórdia vem antes da justiça, e esta nunca é punitiva, nunca é retributiva, nunca é meritocrática: é uma justiça não enfaixada, porque olha para o rosto de cada um e discerne o sofrimento, o desejo do amor e, só depois, o pecado.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 18-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Sínodo realmente está se mostrando como um caminho feito juntos, um processo criativo que faz crescer a convergência sobre alguns temas cruciais para a vida dos cristãos e para a presença da Igreja na companhia dos homens.

A partir da escuta das intervenções na assembleia e da busca dos circuli minores, emerge, acima de tudo, uma imagem de Igreja universal, da dimensão do planeta, uma Igreja que, como a do Pentecostes em Jerusalém, fala as diversas línguas dos homens e, nessas línguas diversas, procura inserir o evangelho de Jesus Cristo.

Se é verdade que, desde os tempos do Papa João XXIII, as nações da terra começaram a ser reconhecidas e também presentes nas instituições da Igreja – o cardeal Rugambwa, criado por João XXIII em 1960, foi o primeiro cardeal africano – é igualmente verdade que as Igrejas extraeuropeias, especialmente as africanas e as asiáticas, emergem agora com um rosto preciso próprio: não são mais Igrejas regidas por missionários europeus, mas têm uma autêntica consistência de Igreja também em nível de formação do clero e do laicato, e contribuem, por sua vez, de maneira significativa, com a transmissão da tradição católica.

Muitas vezes, no entanto, também por causa do seu enraizamento na realidade dos seus países, elas não são contemporâneas a outras Igrejas no hemisfério norte-ocidental, e as suas culturas, tão diferentes das nossas, evidenciam outros problemas, outras urgências, outras situações sociais...

As Igreja Católica é verdadeiramente uma comunhão plural, não só pelos ritos, mas pelas diferenças decorrentes de modo livre e forte da cultura.

Talvez também para o magistério pontifício, estamos nos últimos tempos de uma expressão teológica destinada de modo indiferenciado a todas as culturas da terra. No futuro, será quase impossível que a linguagem de uma encíclica de fôlego universal como a Deus caritas est – uma das mais belas já escritas por um papa – seja percebida eficazmente por "todos os católicos": as Igrejas asiáticas ou africanas, por exemplo, teriam uma recepção condicionada pelas suas categorias culturais e, portanto, necessitariam de uma "tradução" não só linguística para tornar possíveis as respostas pastorais adequadas para as suas urgências.

Compreendemos, então, por que alguns Padres africanos denunciam a ótica ocidental predominante no lnstrumentum laboris e nas intervenções na assembleia.

As preocupações pastorais da África Central e do Sul são outras: lá, o casamento não está em situação crítica, enquanto são candentes os problemas como a poligamia, a opressão da mulher, as práticas que ofendem a sua dignidade... Os casamentos inter-religiosos entre cristãos e muçulmanos, depois, são lugares de fácil fratura ou oportunidades de encontro, de diálogo, de exemplo da liberdade de consciência e de profissão religiosa?

Pense-se também na contribuição que essas Igrejas poderia dar através do seu modo de conceber a "família" com a presença ainda decisiva e de autoridade dos idosos, que oferecem a sua contribuição de sabedoria e de experiência...

No Sínodo, assim, pode haver uma troca não só de pontos de vista ou de testemunhos, mas de autênticos dons que uma Igreja pode dar para a outra.

Em inúmeros âmbitos, a Igreja Católica faz a difícil, mas rica, experiência vivida já há 20 anos pela Comunhão Anglicana: encontrar e percorrer caminhos pastorais diferentes em regiões diferentes do mundo na única confissão de fé.

Trata-se de aprender a viver uma nova sinfonia eclesial, não só entre centro (a Santa Sé) e periferias nos confins do mundo, mas entre as próprias Igrejas. Será tarefa do sucessor de Pedro servir essa comunhão plural, vigiar essa consonância na diversidade, mantendo a unidade da fé e garantindo as legítimas diversidades na liturgia, na disciplina, na teologia, na espiritualidade.

A uniformidade eclesial latina acabou, mas é preciso mais do que nunca salvaguardar a unidade da fé em uma comunhão que inclua e não exclua. E se deverá pensar em organismos eclesiais em nível regional e não mais nacional, ajudando ainda mais a elaboração de projetos e presenças cristãs no mundo que superem visões insuficientes, às vezes, fechadas ou míopes demais, que às vezes afligem as Conferências Episcopais nacionais. Por outro lado, essa era a práxis do primeiro milênio, com sínodos regionais e as Igrejas organizadas nos cinco patriarcados.

Em todos os casos, o que mais ocupou os Padres e acendeu os ânimos foram as disposições pastorais a serem assumidas em relação aos divorciados recasados, isto é, aqueles que trazem em si mesmos as feridas da ruptura ou do fim do matrimônio celebrado e sancionado diante de Deus na Igreja.

Todos os Padres sinodais estão convencidos de que o matrimônio cristão é indissolúvel, que essa indissolubilidade é um fim que sempre deve ser buscado com esforço, mas também que se trata de um valor de ordem revelativa e profética, porque mostra a fidelidade de Deus na aliança com o seu povo e com a humanidade inteira.

O que está sendo discutido diz respeito a "como" a Igreja pode ter uma palavra e agir com uma atitude de acordo com o Evangelho pelas famílias concretas de hoje: situações de divórcio, pessoas recasadas civilmente, mães abandonadas, mulheres jovens grávidas e deixadas sozinhas, famílias monoparentais...

Tornou-se de domínio público o episódio de um menino que, no dia da sua Primeira Comunhão, partiu a hóstia recebida para dar uma metade para o pai, que, divorciado recasado, não poderia recebê-la. Alguns bispos, ouvindo o relato, se comoveram, mas essa situação não é uma exceção: divisões intrafamiliares como essa são vividas rotineiramente por cônjuges cristãos que participam da missa, mas sem poder comungar, ambas fazendo parte do corpo de Cristo, mas impedidos de manifestar sacramentalmente essa sua verdade.

Pense-se também em cônjuges cristãos de confissão diferente, também eles unidos no amor selado em uma celebração eclesial, unidos na vida de fé, na educação cristã dos seus filhos e, depois, divididos no momento de participar do alimento eucarístico que nutre a sua vida cristã...

De várias partes, assim, prospecta-se uma possibilidade de acesso aos sacramentos por parte de cônjuges divorciados recasados, mas com algumas condições específicas: que o pedido dos sacramentos parta da sua consciência cristã, que estejam convencidos de terem que assumir a responsabilidade pela ruptura do vínculo matrimonial como contradição com a vontade de Deus – salvo o caso do cônjuge abandonado –, que tenham feito toda a justiça em relação ao cônjuge anterior e aos filhos nascidos da primeira união, que vivam eclesialmente o seguimento de Cristo, que estejam disponíveis a um caminho penitencial sob o discernimento e a custódia do bispo.

Portanto, não se trata de negar a indissolubilidade do matrimônio cristão, até porque essas disposições não diriam respeito indiscriminadamente a todos os divorciados recasados cristãos, mas apenas a alguns casos sabiamente avaliados e acompanhados não por escritórios burocráticos diocesanos, mas pelo bispo, pessoalmente ou através de pessoas competentes encarregadas, peritas em humanidade, obedientes ao Evangelho e refratárias a lógicas mundanas ou a pedidos que não se configuram como fruto de uma consciência iluminada pelo Evangelho.

Essa possibilidade está no espaço da misericórdia que a Igreja sempre deve colocar em prática em relação aos seus filhos e aos homens todos, em conformidade com o seu Senhor Jesus Cristo. Misericórdia não vendida, mas a caro preço: o preço do dom da vida que Cristo deu por nós.

Então, não existe nenhuma contraposição entre misericórdia, justiça e verdade, porque em Deus, que é o legislador, a misericórdia vem antes da justiça, e esta nunca é punitiva, nunca é retributiva, nunca é meritocrática: é uma justiça não enfaixada, porque olha para o rosto de cada um e discerne o sofrimento, o desejo do amor e, só depois, o pecado.

Em uma homilia em Santa Marta, o Papa Francisco lembrou que nós, cristãos, não só ficamos escandalizados com a misericórdia, mas somos incapazes de acolher a "gratuidade da salvação". Preferimos ouvir mestres que, como doutores da lei, declaram salvos aqueles que são observantes, justos inveterados que declaram condenados aqueles que não observam ou não sabem observar as prescrições ditadas pelas tradições dos homens e não pelo Deus legislador. Peritos da lei, que, apesar de Jesus e de Paulo, ainda estão presentes na Igreja.

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