"Em Francisco, não há espaço para a homofobia". Entrevista com Yayo Grassi, o ex-aluno gay do papa

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06 Outubro 2015

"A 'saída do armário' do Mons. Charamsa não foi muito apropriada. Foi em um momento errado e foi errado o modo que ele escolheu fazer isso." Yayo Grassi, 67 anos, gay declarado, argentino de origens italianas, conheceu Bergoglio há 50 anos, quando o então cardeal ensinava literatura e psicologia no Colegio de la Imaculada de Santa Fe. Ele pulou para o centro da cena pública depois que, no dia 23 de setembro passado, o Papa Francisco, durante a sua viagem aos EUA – onde Grassi vive desde 1978 – o recebeu-o em privado junto com o seu parceiro e um grupo de amigos na Nunciatura de Washington. "Eu acho que o Mons. Charamsa – continua Grassi de Washington – não fez favor algum nem à causa dos homossexuais nem ao Papa Francisco."

A reportagem é de Rosalba Castelletti, publicada no jornal La Repubblica, 05-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O Vaticano removeu o Mons. Krzysztof Charamsa de todos os seus encargos depois que ele revelou ser homossexual e ter um companheiro. O que você pensa da sua "saída do armário" e da reação da Santa Sé?

Eu li apenas uma declaração do Mons. Charamsa e não quero fazer julgamentos apressados. Muitas pessoas ficaram decepcionadas com o papa quando Kim Davis [a funcionária pentecostal do condado do Kentucky presa há um mês porque tinha se recusado a emitir licenças de casamento aos casais homossexuais] disse que tinha tido uma audiência privada com ele nos Estados Unidos e que Bergoglio havia dito a ela para ter coragem. Eu continuava dizendo para todos que nós conhecíamos apenas uma parte da história, aquela que ela estava contando e que, depois, acabou sendo falsa. Eu gostaria de reservar o mesmo benefício da dúvida ao Mons. Charamsa. Certamente, mais do que aos jornais, ele teria que ter falado sobre a sua homossexualidade com outro padre ou diretamente com o papa. Talvez ele fez isso, mas, se tudo aconteceu do jeito que foi contado, não acho que isso tenha feito qualquer favor à causa dos gays ou ao Papa Francisco. Mais do que qualquer outra coisa, ele me parece alguém que está tentando chamar a atenção da mídia. O seu timing foi errado, o jeito que ele falou foi errado.

Você se refere ao fato de o teólogo ter decidido falar às vésperas do Sínodo sobre a família que recém começou no Vaticano?

Falar de homossexualidade neste momento só serve para distrair as pessoas dos outros temas importantes levantados por Bergoglio: o ambiente, a família, a pobreza, compartilhar o que temos com os que não têm nada...

Você é católico? Que expectativas tem sobre o Sínodo?

Eu sou ateu e fiquei feliz ao ler a entrevista de Eugenio Scalfari com o papa. Foi uma conversa profunda e corajosa em que eu me senti incluído. Mas eu respeito a religião. O fato de ter ouvido o papa dizer "Quem sou eu para julgar um gay?" me deu muita esperança. Não a esperança de que a Igreja mude o seu ponto de vista, mas de que alguém como o Papa Francisco tente romper a regra da Igreja que exclui os gays da comunhão.

Encontrando-se com o seu parceiro, o Papa Francisco nunca comentou sobre a sua relação?

Eu lhe apresentei o meu parceiro em setembro, há dois anos, em Roma. Bergoglio havia sido eleito papa há poucos meses. Encontrávamos na Itália e eu pedi um encontro. Não o via há cinco anos e queria felicitá-lo. Quando eu soube da sua viagem a Washington, escrevi-lhe que gostaria de revê-lo. Ele me respondeu que ele também teria prazer de me abraçar. Ele concordou com a presença do meu parceiro e de amigos que, por diversas razões, de saúde ou de família, queriam a sua bênção. Foi um encontro entre amigos, e eu nunca teria falado se Kim Davis não tivesse deturpado o que o papa é e fez. Quando o Vaticano deixou claro que o único encontro privado que o papa teve em Washington foi o encontro com um ex-estudante seu, e a imprensa me rastreou, eu pensei que falar a respeito disso era uma oportunidade para colocar o papa novamente sob a luz certa. Mas a minha homossexualidade e a minha relação nunca foram um tema de conversa. Tanto a mim quanto para Bergoglio, nunca pareceu necessário. Ser gay para mim não é um "título". Eu sou gay assim como eu sou alto e tenho olhos azuis. E também para ele não faz nenhuma diferença. A única vez que eu falei com Francisco sobre a minha homossexualidade foi em um e-mail em 2010.

A Argentina havia legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo...

Eu lhe escrevi três páginas. Eu tinha lido declarações suas de condenação. Ele me respondeu que tinha sido mal interpretado, que era um problema cívico, não religioso. Mas o mais importante é que ele não era homofóbico e que, no seu trabalho pastoral, não havia espaço para a homofobia. E, para mim, foi uma coisa muito valiosa.

Que tipo de professor Bergoglio era?

O seu modo de ensinar era calmo, doce e elegante. E muito pessoal. Quando ele estava na sala, ele parecia estar falando apenas com você. Mesmo agora que ele é papa, eu o ouço falar do mesmo modo.

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