É o Sínodo da família, mas parece um filme de Almodóvar

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06 Outubro 2015

O segundo Sínodo sobre a família convocado pelo Papa Francisco começou com uma reviravolta digna de um filme de Pedro Almodóvar. O coming out do Mons. Krzysztof Charamsa, a meio caminho entre uma operação de marketing e libertação pessoal, deu um toque trash para a grande cúpula católica que atingiu o pico quando o ex-teólogo de carreira apresentou à mídia de todo o mundo o seu companheiro, Eduard.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicado no sítio Linkiesta, 05-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sem contar que o jovem monsenhor polonês se prepara para publicar um livro, destinado a lhe render muitas coisas: uma espécie de carta de demissão preparada com antecedência, já que, com toda a probabilidade, ele tinha tomado consciência de que perderia seus cargos no Vaticano e nas universidades pontifícias onde trabalhava.

O fato de Charamsa ser secretário adjunto da Comissão Teológica Internacional, presidida pelo cardeal Gerhard Müller, prefeito do ex-Santo Ofício e, principalmente, líder da corrente tradicionalista que tenta desmantelar as reformas do Bergoglio, é uma ironia do destino bastante notável.

Por outro lado, o Vaticano produz ciclicamente, de modo involuntário, momentos de grande cinema, às vezes tenebroso – thrillers políticos, sexuais ou financeiros – às vezes mais no gênero folhetim, como neste caso; pode ser também porque é um dos poucos lugares no mundo onde sexualidade e moral ainda são levadas a sério, ou porque alguns tabus e preconceitos demais também resistem impávidos à mudança dos tempos.

Seja qual for a razão, do outro lado, o ex-cardeal sutil, Camillo Ruini, lidera, de lança em riste, as forças do imobilismo eclesial: a ponto de observar que, se de fato, na história humana, existiram também modelos de poligamia e de poliandria, porém, nunca alguém falou de bodas homossexuais até hoje, provando que, portanto, estamos diante de um verdadeiro absurdo. O argumento não é imbatível, evidentemente.

O prelúdio da cúpula foi ardente, e, certamente, pouco antes de que os 270 Padres sinodais se fechassem no Vaticano para uma discussão intensa sobre aspectos delicados da vida da Igreja, surgiram várias faíscas. Além disso, diversos congressos foram realizados em Roma nos dias anteriores ao início dos trabalhos da Assembleia Sinodal, desde aqueles dos ultratradicionalistas que não dariam a comunhão a um divorciado recasado, nem mesmo sob tortura, ao encontro promovido pela Global Network of Rainbow Catholics que pretendia abordar a questão das famílias LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais). Na Itália, também, no pano de fundo, há o tema milenar de uma possível lei para regularizar as uniões civis.

De fato, o Sínodo sobre a família, do qual participam delegações de bispos de todos os países do mundo, além de teólogos, missionários, casais de leigos, delegados de outras Igrejas, membros da Cúria vaticana, prelados nomeados diretamente pelo papa, deveria abordar não tanto os aspectos mais espetaculares desse debate, mas dar um quadro atualizado da relação entre Igreja e da família, começando pela heterossexual.

Se esse efetivamente for a questão sobre a mesa, talvez aquilo que está em jogo e que não é dito publicamente é ainda maior: trata-se do futuro de uma Igreja dividida entre a retomada de um caminho reformador aberto pelo Concílio Vaticano II, ao qual o Papa Francisco deu um novo impulso, e o encurvamento em uma comunidade fechada, envolta em torno do dogma em defesa de um catolicismo tradicionalista: visão, esta, que se confronta violentamente com a Igreja aberta, imaginada, aliás, pelo Papa Francisco.

De um lado, há um catolicismo fortificado, ideológico, pouco inclinado ao debate com o "diverso" – seja ele um divorciado, um homossexual, um imigrante, um crente de outra fé –, de outro, a tentativa levada adiante por Bergoglio de recolocar a Igreja em conexão com o mundo, interrompendo, assim, o declínio de uma fé que – para além do número de batizados em nível global – continua existindo (queda dos casamentos na Igreja, sacramentos, vocações, frequência nas missas) e, mais em geral, se enfraquece o laço vivo e ativo com a Igreja.

A esse respeito, Francisco tem uma estratégia ampla que inclui o retorno da Santa Sé ao cenário internacional, uma relação com a mídia extremamente moderna – e, portanto, fácil também ao equívoco, ao mal-entendido, que, de algum modo, são riscos aceitos – e, por fim, um diálogo com os "distantes", ou seja, com pessoas e realidades que, por várias razões, se sentem excluídos da Igreja.

Francisco, ao abrir o Sínodo, reiterou que a Igreja deve ser "hospital de campanha, com as portas abertas para acolher quem quer que bata pedindo ajuda e sustento; mais, para sair do próprio recinto em direção aos outros, com amor verdadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para incluí-la e conduzi-la à fonte de salvação".

Mas o verdadeiro dilema neste momento, depois de dois anos e meio de pontificado, é o seguinte: a Igreja está com Francisco? Ela é capaz de seguir o papa, talvez até encontrando os equilíbrios necessários dentro do Sínodo sobre os casais de fato, os divorciados, as famílias monoparentais, o amor homossexual e tudo o mais, mas dando um claro sinal de abertura à modernidade?

Esse é o ponto decisivo. Por essa razão, os vários cardeais – Müller, Caffara, Scola, Napier, - vivem o Sínodo um pouco como a sua última chance, a trincheira para se defender um tradicionalismo já alvejado de todos os lados.

Por outro lado, a frente aberturista também deve provar ser capaz de dar um salto de qualidade. Nessas fileiras, certamente, não se isenta o cardeal Walter Kasper, grande teólogo favorável à comunhão aos divorciados recasados, que finalmente afirmou que "nasce-se gay", e, em um livro recém-publicado, escreveu: os homossexuais "às vezes possuem qualidades que outros não têm e muitas vezes têm uma grande sensibilidade e podem contribuir para a vida da Igreja com os seus dons. Sabe-se que muitos artistas – destaca o cardeal – têm essa inclinação e igualmente podem fazer o bem para a sociedade e para a Igreja".

O Sínodo continua sendo um órgão consultivo. No entanto, o papa quis lhes dar, de fato, um papel quase decisional. No entanto, Francisco sabe muito bem o quanto são pesadas as resistências contra ele. Por isso, ele sabe que tem uma saída: a última palavra sempre cabe a ele. Mas isso significaria reduzir aquele princípio da colegialidade que faz parte plenamente de uma ideia de Igreja menos centralizada e mais capaz de compartilhar as escolhas de ouvir as vozes dos bispos e das "periferias".

Certamente, se olharmos para outras experiências, por exemplo para a sinodalidade da Igreja Anglicana, entrevê-se um caminho diferente daquele que até agora está em vigor em Roma; em muitos casos, decisões importante são examinadas por inúmeros Sínodos antes de se chegar a uma mudança.

Em suma, a Igreja Católica talvez se encontre apenas no início de um caminho novo e original no âmbito cristão, em que a centralidade do bispo de Roma vai se medir cada vez mais com as vozes locais, não mais relegadas a segundo plano, em busca de um novo equilíbrio.

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