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Por: Jonas | 05 Outubro 2015

“Em uma sociedade de arraigado e inocultável traço religioso como é o Brasil, os personagens-ídolos desempenham um papel de suma importância no momento de interpretar sua evolução, sendo uma espécie de reflexo e termômetro dos humores da mesma”, escreve o economista Héctor Miguel Tovar Valentines, economista mexicano, em artigo publicado por Rebelión, 02-10-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Como era de se esperar, a situação brasileira se complexifica mais. E ainda que de nenhuma forma seja assunto de um só personagem, é em sua imagem que diversas contradições se sintetizam. No ano passado, na reta final da disputa eleitoral entre Dilma Rousseff e Marina Silva, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva era considerada como o elemento que definiria a inclinação final da balança. E assim aconteceu. Agora, a situação apresenta uma dimensão diferente e as coisas não estão tão favoráveis para o ex-presidente.

Durante o atual ano, surgiram fatos que colocam não somente o Partido dos Trabalhadores (PT) e a presidente Rousseff em uma situação vulnerável frente à opinião pública, como também o próprio Lula. A imagem que tanto esforço exigiu para ser construída, parece próxima de se desmoronar – entre uma quantidade importante de cidadãos – diante dos alarmantes episódios de corrupção que a vem embaçar.

No entanto, tais episódios não são os únicos fatores – talvez tampouco sejam os decisivos – que esgotam a explicação da situação que impera no Brasil. Os elementos a ser considerados, para avaliar em sua justa dimensão a conjuntura do gigante sul-americano, formam uma espécie de amálgama na qual se fundem o político, o econômico e o social-cultural, ou seja, o social em seu sentido amplo.

Em uma sociedade de arraigado e inocultável traço religioso como é o Brasil, os personagens-ídolos desempenham um papel de suma importância no momento de interpretar sua evolução, sendo uma espécie de reflexo e termômetro dos humores da mesma; razão pela qual o estado em que se encontra sua figura aos olhos da opinião pública lança luz sobre a questão.

De modo que os problemas econômicos, sociais e políticos se conjugaram, dando como um de seus tantos resultados a “dessacralização” da imagem de Lula. Não é, pois, por acaso que o ícone da ascensão de uma alternativa de esquerda esteja sendo atacado. A economia brasileira ressentiu o impacto do ambiente recessivo global.

É, por isso, difícil se esquivar do impacto negativo que a desaceleração da economia chinesa teve na brasileira. Tal redução freia parte importante da demanda de exportações cariocas, com efeitos prejudiciais que se traduzem em estagnação e desemprego. Em agosto passado, o desemprego atingiu níveis históricos, de maneira que emerge a continuidade da dependência estrutural de uma economia sustentada de forma importante pelo estímulo externo, que o forte peso de sua produção primário-exportadora lhe imprime.

O aspecto social, indissoluvelmente ligado ao econômico, representa uma vertente delicada. O perigo que se concentra sobre a população que recentemente – na última década – engrossou as fileiras da classe média (baixa), ao suscitar a possibilidade de levantar um movimento social que se some aos problemas pendentes que o governo de Rousseff tem que enfrentar, representa um elemento de importância decisiva no âmbito da estabilidade.

Completando a tríade de campos que contribuíram para ver questionado e repudiado o início do segundo mandato de Rousseff – a cujo barco já se somou Lula -, temos o político, que é por excelência a arena na qual as contradições de uma sociedade se condensam, sendo a gota que entornou o copo. Aos escândalos de corrupção, que açoitam o grupo dirigente e Lula, soma-se o peso de um congresso declaradamente contra e os desencontros com o partido aliado.

É amplamente conhecida a chamada capacidade de adaptação de Luiz Inácio às condições de mudança, ainda que agora pareçam especialmente espinhosas. Pelo dito anterior, além de ser pertinente a questão de saber se avançará ou não para além da tormenta midiática em que se viu envolvido, resulta da maior relevância perguntar o que verdadeiramente significa tal personagem-ídolo na conjuntura nacional e internacional atual, para ter uma melhor perspectiva a respeito das possibilidades que uma figura de suas características possui (ou não) para melhorar as condições de vida de nossas sociedades latino-americanas.

Será conveniente deixar tudo nas mãos destas figuras excepcionais? Ou está na hora de deixar os ídolos no altar, tendo em conta suas falibilidades, e construir alternativas que não sejam sustentadas por colunas tão frágeis como as dessa inegável religiosidade? Sem dúvida que a resposta não está no além, mas sim na esfera terrestre.

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