Na ONU, Francisco defende o ambiente e o "absoluto respeito pela vida"

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28 Setembro 2015

No "púlpito do mundo" que é a Organização das Nações Unidas, o Papa Francisco defendeu nessa sexta-feira de manhã que os esforços de desenvolvimento futuro se lembrem do rosto humano das pessoas que procuram escapar da pobreza e alcançar uma vida digna.

A reportagem é de Brian Roewe, publicada no sítio National Catholic Reporter, 25-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em um discurso sem menção direta às mudanças climáticas, no entanto, Francisco pressionou pela "recuperação do meio ambiente" e expressou confiança que as negociações de Paris irão "obter acordos fundamentais e eficazes".

O papa também pediu o fim das armas nucleares, da guerra e da cultura da exclusão, e fez um reconhecimento da lei moral na natureza humana, que diferencia entre homem e mulher, e tem um "absoluto respeito pela vida em todas as suas etapas e dimensões".

"A casa comum de todos os homens deve continuar sendo levantada sobre uma reta compreensão da fraternidade universal e sobre o respeito pela sacralidade de cada vida humana, de cada homem e cada mulher, dos pobres, dos idosos, das crianças, dos enfermos, dos não nascidos, dos desempregados, dos abandonados, dos que se julgam descartáveis porque não são considerados mais do que números de uma ou outra estatística."

"A casa comum de todos os homens e mulheres também deve ser edificada sobre a compreensão de uma certa sacralidade da natureza criada", disse Francisco a uma sala de audiências lotada com mais de 150 líderes mundiais, a maior reunião da ONU desse tipo, que se encontra para a adoção de uma nova agenda global que irá direcionar os esforços de desenvolvimento pelos próximos 15 anos.

O papa chamou a aprovação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada formalmente depois do seu discurso, como "um importante sinal de esperança". Os 17 objetivos e as 169 metas procuram acabar com a pobreza, promover a educação e a igualdade de gênero, assegurar o acesso à água e à energia sustentável, e enfrentar as mudanças climáticas.

O próximo passo para os objetivos, formalmente aprovados por unanimidade entre os 193 Estados-membros, será desenvolver indicadores para medir a sua implementação, algo a que Francisco pareceu fazer referência quando ressaltou que o número e a complexidade dos problemas globais "exigem que se possuam os instrumentos técnicos de medida".

As melhores e mais simples medidas para a implementação dos objetivos, segundo ele, serão "um acesso eficaz, prático e imediato" para todos à moradia, ao trabalho digno, à alimentação adequada e à água potável, à educação e às liberdades religiosa e espiritual.

"Esses pilares do desenvolvimento humano integral têm um fundamento comum, que é o direito à vida e, mais em geral, aquilo que poderíamos chamar de direito à existência da própria natureza humana", disse o papa.

Ele acrescentou que o desenvolvimento humano integral "não pode ser imposto", mas sim construído e amadurecido em cada indivíduo e família, à qual ele se referiu como "a célula primária de qualquer desenvolvimento social".

Os governos, então, devem fazer todo o possível para fornecer as condições que permitam que as pessoas formem e sustentem as famílias, no mínimo através do acesso à moradia, ao trabalho, à terra e à liberdade espiritual. Ele também falou contra as agências financeiras que impõem "sistemas de crédito" opressivos sobre as pessoas, que geram mais pobreza, exclusão e dependência.

A atividade política e econômica, acrescentou, só são eficazes quando guiadas pelo conceito de justiça e que "não perde de vista, em nenhum momento, que, acima e além dos planos e programas, há mulheres e homens concretos, iguais aos governantes, que vivem, lutam e sofrem, e que muitas vezes se veem obrigados a viver miseravelmente, privados de qualquer direito".

"Para que esses homens e mulheres concretos possam escapar da pobreza extrema, devemos lhes permitir que sejam dignos atores do seu próprio destino", disse Francisco.

Proferindo o quinto discurso papal às Nações Unidas e o primeiro a abrir a sua sessão da Assembleia Geral, Francisco ofereceu elogios para as conquistas da organização internacional nos seus 70 anos.

"Todas essas realizações são luzes que combatem a escuridão da desordem causada pelas ambições descontroladas e pelos egoísmos coletivos", disse Francisco.

"Certamente ainda são muitos os graves problemas não resolvidos, mas também é evidente que, se tivesse faltado toda essa atividade internacional, a humanidade poderia não ter sobrevivido ao uso descontrolado das suas próprias possibilidades", disse.

Ao introduzir o papa ao órgão da ONU, o secretário-geral, Ban Ki-moon, apontou para o pedido de Francisco na primeira página da sua encíclica, Laudato si' sobre o cuidados da casa comum: "Quero me dirigir a cada pessoa que habita neste planeta".

"Sua Santidade, bem-vindo ao púlpito do mundo. Estamos aqui para ouvir", disse Ban.

Francisco passou grande parte do seu discurso conectando a destruição ambiental com o fenômeno cultural da exclusão social e econômica.

"O abuso e a destruição do ambiente também são acompanhados por um implacável processo de exclusão. Com efeito, um afã egoísta e ilimitado de poder e de bem-estar material leva tanto a abusar dos recursos materiais disponíveis quanto a excluir os fracos e com menos habilidades", disse.

"A exclusão econômica e social é uma negação total da fraternidade humana e um gravíssimo atentado contra os direitos humanos e o ambiente", afirmou.

Existe um verdadeiro direito ao ambiente, disse Francisco, por duas razões: primeiro, porque os seres humanos fazem parte do ambiente e, segundo, porque cada criatura tem um valor intrínseco na sua existência, beleza e interdependência.

Os passos imediatos para a preservação e a melhoria do ambiente natural, por sua vez, levariam a um final possivelmente rápido "para o fenômeno da exclusão social e econômica", disse, que permite o tráfico de seres humanos, de órgãos, de drogas e de armas. O mundo exige dos seus líderes uma vontade "eficaz, prática e constante" de alcançar esse fim, disse o papa.

Antes do seu discurso, Francisco se reuniu com funcionários da ONU, agradecendo-lhes pelo seu trabalho em encarnar o "ideal de uma família humana unida". Ele também depositou uma coroa de honra aos funcionários da ONU que morreram no serviço à organização.

No hall da Assembleia Geral, ele descreveu a guerra como "a negação de todos os direitos e uma dramática agressão ao ambiente", além de defender a "necessidade urgente" de trabalhar por um mundo livre de armas nucleares. Ele elogiou o recente acordo de desarmamento do Irã como "prova do potencial de boa vontade política e de direito".

"Se quisermos um verdadeiro desenvolvimento humano integral para todos, devemos continuar incansavelmente a tarefa de evitar a guerra entre as nações e entre os povos", disse.

Foi o Papa Paulo VI que, no primeiro discurso papal à ONU, em 1965, pediu "não mais guerras, guerra nunca mais".

Na conclusão de Francisco, ele conectou o seu discurso com as palavras finais de Paulo VI há quase 50 anos: "O perigo não vem nem do progresso nem da ciência (…). O verdadeiro perigo está no homem, que dispõe de instrumentos cada vez mais poderosos, capazes de levar tanto à ruína como às mais altas conquistas".

"O tempo presente nos convida a privilegiar ações que gerem dinamismos novos na sociedade, até que frutifiquem em importantes e positivos acontecimentos históricos. Não podemos nos permitir postergar 'algumas agendas' para o futuro. O futuro nos pede decisões críticas e globais diante dos conflitos mundiais que aumentam o número de excluídos e de necessitados", disse Francisco.

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