"Jihad versus McMundo": é assim que tudo está sendo remodelado

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16 Setembro 2015

"O capitalismo desaforado nutre partidos como o Podemos ou a nova esquerda que tomou o comando do Partido Trabalhista no Reino Unido; a globalização nutre o nacionalismo e a direita xenófoba", escreve John Carlin, jornalista, em artigo publicado por Uol, 15-09-2015.

Eis o artigo.

"O grande problema do mundo é que os idiotas e os fanáticos sempre estão muito seguros de si mesmos e os sábios estão cheios de dúvidas" (Bertrand Russell)

O que têm em comum o Podemos da Espanha, o novo trabalhismo de Jeremy Corbyn no Reino Unido, a Frente Nacional na França, o independentismo catalão e o Estado Islâmico? Bastante, a se considerar a análise de Benjamin Barber, um professor de ciências políticas norte-americano. Ele o definiu com extraordinária clarividência na feliz formulação "Jihad versus McMundo: como a globalização e o tribalismo estão remodelando o mundo", em título traduzido do inglês de um livro que ele publicou em 1995.

As rebeliões da esquerda, da direita, dos nacionalismos e do islamismo radical que definem o mundo em 2015 se expressam de diferentes maneiras, mas todas compartilham um impulso "jihadista" semelhante: a rejeição a um mundo cultural e economicamente globalizado (o "McMundo"), no qual as multinacionais, os bancos de investimentos e as instituições transnacionais como o FMI ou a União Europeia subvertem a democracia, a identidade ou a tradição. "Eles se reúnem isolados um do outro" sob diferentes bandeiras étnicas, religiosas ou ideológicas, escreveu Barber, mas em uma luta comum contra "o capitalismo cosmopolita" cujo deus é o mercado.

Dada sua vigência, o livro de Barber será relançado pela editora no fim do ano. Falei com ele há alguns dias.

Barber insistiu que usa a palavra "jihad", em primeiro lugar, como metáfora, embora também se estenda bastante em seu livro sobre o fenômeno real do islamismo armado. "O que proponho no livro é que há um choque entre, por um lado, o triunfo do capitalismo global e de um mundo unido ao redor do fast food, dos computadores rápidos etc. e, por outro, as forças que se opõem a essa noção da modernidade", disse Barber. "A ideia chave é que uns precisam dos outros, inclusive que uns criaram os outros."

O panorama que Barber propôs em 1995 resultou especialmente profético no caso da jihad literal, já que escreveu seu livro seis anos antes dos ataques da Al Qaeda nos Estados Unidos, com as sequelas devastadoras que geraram. Mas suas "profecias", disse-me ele, se estendem às crises que envolvem hoje as democracias ocidentais, particularmente na Europa.

"Isto ocorreu em consequência do cinismo que gerou o caráter antidemocrático das instituições financeiras e a corrupção nas instituições políticas. O fato é que sim, existe um deficit democrático, e parte da responsabilidade pela reação que provocou deve ser assumida pelas democracias europeias. Esta reação se vê não só sob o fervor do nacionalismo, de pessoas que exigem mais autonomia cultural e governamental, como também nos chamados partidos populistas, que são em parte motivados pela ausência de democracia em instituições como a União Europeia, que se consideram grandes instituições democráticas mundiais."

Algo que Barber não poderia ter previsto há 20 anos é o enorme impacto da internet e das redes sociais como instrumento de persuasão política, tanto para os novos partidos europeus como também, com certa ironia, para o islamismo radical, tema de que tratará em um novo capítulo de seu livro.

"Um possível subtítulo para a nova edição de meu livro seria 'O Estado Islâmico no Facebook'. Estamos diante da grotesca situação de pessoas que colocam 'curtir' em sites onde se veem decapitações. Estamos diante do movimento simultaneamente mais moderno e mais reacionário da história. Estão tentando destruir o Ocidente em parte devido a sua modernidade e sua tecnologia, mas ao mesmo tempo são criações da tecnologia moderna e dependem dela intimamente para gerar medo e ódio."

A constante na análise de Barber é que todas essas contradições se alimentam mutuamente. O capitalismo desaforado nutre partidos como o Podemos ou a nova esquerda que tomou o comando do Partido Trabalhista no Reino Unido; a globalização nutre o nacionalismo e a direita xenófoba; a internet e os telefones celulares da Samsung e da Apple alimentam os que lutam contra a modernidade em nome de uma antiga fé.

Quanto aos jovens criados na Europa ocidental que se incorporam às fileiras do Estado Islâmico, Barber reconhece que o fenômeno é complexo. "Mas até certo ponto, pelo menos, estamos criando esses recrutas, o McMundo os está criando. A cultura em que vivem é permeada de cobiça, de corrupção, de ausência de valores, e eles são idealistas à sua maneira. Creem em uma causa, como aqueles jovens estrangeiros que foram lutar na Guerra Civil espanhola."

E como aqueles que hoje se unem às novas correntes políticas que fluem pelo velho continente, com a diferença de que eles não veem a necessidade de matar para conseguir seus sonhos. Se Barber olhar mais uma vez em sua bola de cristal, qual é o futuro que vislumbra para o inimigo que é compartilhado tanto por McDonald's, Goldman Sachs e a União Europeia como pela Frente Nacional francesa, a esquerda rebelde europeia e o independentismo catalão?

"O Estado Islâmico condenou a si mesmo. Cometeu um profundo erro. A grande lição do terrorismo moderno, da chamada guerra assimétrica, é que não se dá seu endereço ao inimigo. O problema do Estado Islâmico é que, ao construir um califado e conquistar território, torna-se vulnerável à guerra convencional. Quando seus inimigos finalmente se organizarem, tomarão suas cidades e os varrerão."

Neste ponto, pelo menos, o clássico otimismo norte-americano parece vencer o dialético hegeliano que Barber leva dentro de si. Mas mesmo que o professor tenha razão e o Estado Islâmico caia, outros o substituirão e daqui a 20 anos ele poderá editar mais uma versão de seu livro com a total segurança de que continuará havendo conflitos entre os defensores do McMundo e os que rezam nos altares da ideologia, da pátria e da religião.

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