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03 Setembro 2015

Duas semanas depois de o governo anunciar que o desmatamento da Amazônia no ano passado foi o segundo menor da história, um novo levantamento trouxe um indicativo de que talvez a taxa oficial não se porte tão bem neste ano.

A reportagem é de Giovana Girardi, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 01-09-2015.

O número de alertas de alteração da cobertura vegetal na Amazônia entre agosto do ano passado e julho deste ano subiu 68,7% na comparação com o período de agosto de 2013 a julho de 2014, de acordo com dados divulgados nesta segunda-feira (31) pelo Deter, sistema de monitoramento em tempo real do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O levantamento por satélite registrou que entre corte raso e degradação uma área de 5.121,92 km² de floresta no ano que passou, contra 3.035,93 km² no ano anterior. É o número mais alto dos últimos seis anos e equivale a 3,5 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Perda equivale a 3,5 vezes o tamanho da capital paulista

Com agilidade para observar em tempo real o que está acontecendo e enviar alertas para a fiscalização, o Deter é rápido, porém impreciso, e não enxerga desmatamentos pequenos. Desse modo ele não serve para fornecer o número oficial de perda da cobertura florestal, mas em geral dá uma boa pista de como ele pode se comportar. O valor final entre agosto de um ano a julho do seguinte (o chamado ano fiscal do desmatamento da Amazônia) é fornecido por outro sistema do Inpe, o Prodes, e costuma ser divulgado em novembro, sendo confirmado depois em meados do ano seguinte.

É esse o número oficial do desmatamento no Brasil e foi o que a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, anunciou há duas semanas. O último Prodes apontou que o desmatamento de agosto de 2013 a julho do ano passado foi o segundo menor da história. Segundo o levantamento, a perda naquele período foi de 5.012 km², 15% menor que no ano anterior. O dado para o período de agosto de 2014 a julho de 2015 deve ser divulgado em novembro.

Se a tendência que o Deter apontou se confirmar, o Prodes poderá também trazer um aumento na taxa desmatamento da Amazônia. Por somente duas vezes desde que o monitoramento começou a ser feito Deter e Prodes seguiram trajetórias diferentes. Uma delas foi justamente no ano passado. Os alertas mostravam alta, mas o número final trouxe uma baixa.

Outro levantamento também indica a mesma tendência de alta. Trata-se do SAD, do Imazon, ONG sediada em Belém que monitora o desmatamento da Amazônia paralelamente ao governo. Na semana passada, o SAD, que funciona com satélites semelhantes aos usados pelo Deter, também indicou que o número de alertas subiu 63% entre agosto de 2014 e julho deste ano.

A partir de 2008, a taxa oficial apresentou sucessivas quedas, chegando ao valor mais baixo em 2012: 4.571 km². No ano seguinte houve um repique de quase 29%, e o desmatamento subiu para 5.891 km², voltando a cair em 2014. O Brasil assumiu uma meta em Copenhague, em 2009, de reduzir o desmatamento até 2020 à casa dos 3 mil km².

Destruição da Amazônia

Alertas de desmatamento na Amazônia entre agosto do ano passado e julho deste ano subiu 68,7% na comparação com o período de agosto de 2013 a julho de 2014.

Multipontos. Para Luciano Evaristo, diretor de proteção ambiental do Ibama, uma mudança no perfil do desmatamento é a principal explicação para a diferença entre Deter e Prodes que ocorreu no ano passado. “O desmatador é esperto e aprendeu a evitar o satélite. Sabe que se cortar acima de 25 hectares vai perder o lucro do seu crime. Então adotaram novas técnicas, como um corte multipontos, que ocorre por baixo das copas”, afirma.

Ele conta que em abril deste ano uma operação do Ibama desmantelou uma dessas operações na beira da BR-163 que já tinha destruído 140 km² de floresta. “Era uma área enorme, mas o Deter não tinha conseguido ver. Desmontei mais de 40 acampamentos, que vão comendo a floresta até se encontrarem. Ficam algumas árvores que depois eles botam fogo. Conseguimos segurar isso”.

Ele explica que o aumento do Deter não é indicativo de aumento real porque os satélites que ele usa tem uma resolução muito baixa, de 250 metros, o que dificulta, por exemplo, diferenciar corte raso (que configura a perda total da floresta) de degradação. Ele afirma que nessas condições, o Ibama tem buscado usar imagens em alta resolução de satélite Landsat 8, que enxerga cortes menores que 25 hectares, mas é mais lento, só roda de 16 em 16 dias (o Deter hoje roda diariamente).

Desse modo, diz, o Ibama tem conseguido agir antes que o problema se torne maior. “O conjunto de alertas do Inpe aumentou, mas não significa que o desmatamento aumentou. Tem de aguardar o Prodes. Mas pelo que temos visto no campo, na fiscalização, deve ficar meio parecido com o ano passado.”

Mas justamente considerando essa mudança no perfil do desmatamento, o monitoramento também deve mudar em breve. Segundo Evaristo, o Inpe está para lançar o que ele chamou de Deter-B, um satélite com resolução de 56 metros, rodando a cada cinco dias. “O segredo é enxergar a degradação a tempo de combater. Enxergar se o desmatamento está vivo ou se está parado. Com essa tecnologia vamos conseguir lidar com o desmatamento multiponto.”

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