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25 Agosto 2015

Para Natacha Silva Araújo Rena as mobilizações sociais recentes são a expressão do conceito de multidão, organizando a partir de um eixo colaborativo a insurgência na metrópole

Natacha Silva Araújo Rena
Foto: Leslie Chaves

O neoliberalismo vem com a promessa de salvar o mundo de uma crise originada já no processo de industrialização. Quando o capital deixa de expandir entra-se em uma crise e constrói-se um discurso para justificar o corte de políticas e bens sociais e a entrega de tudo para o mercado. Trata-se da tomada dos espaços pelo capital, fornecendo lucro e renda para a expansão mercadológica.

Os processos de endividamento, advindos da transferência de dinheiro público para o mercado, baseados em lógicas desenvolvimentistas são os vetores das crises atuais. Segundo a pesquisadora Natacha Silva Araújo Rena, deste contexto partiram as mobilizações conhecidas como as jornadas de junho de 2013. “As manifestações começaram contra os projetos representativos e neoliberais expressos a partir dos gastos públicos com a Copa do Mundo para a construção de estruturas que seriam posteriormente privatizadas, como por exemplo, os estádios de futebol, que depois das obras são prioritariamente acessíveis a quem é capaz de pagar pelos altos preços dos ingressos. Assim as jornadas de junho de 2013 se posicionaram contra as diversas camadas de privatização da metrópole e tornaram-se a expressão da ideia de multidão”, explica.

A pesquisadora define como ímpeto multitudinário o elemento de construção das jornadas de 2013, as quais foram se originando simultaneamente em diversas partes do país e por diferentes demandas. A capacidade inventiva dos seres humanos, que Rena chama de Biopotência, ou potência da vida, são os motores das produções da metrópole que dão movimento ao cotidiano e expandem para além da fábrica o lugar da produção. “A união dos Estados nações com o capital é a expressão do neoliberalismo. Eles têm muito controle, o biopoder, porém, a internet e a efervescência da metrópole são a contrapartida. A metrópole é a espinha dorsal da multidão de conexão em rede e os movimentos têm subvertido ao próprio favor os usos dos mecanismos do neoliberalismo”, aponta.

Essas análises foram feitas por Natacha Silva Araújo Rena durante a conferência “As experiências colaborativas e o impacto na conjuntura atual”, realizada na última sexta-feira, 21-08-2015, no Campus de Porto Alegre da UNISINOS, como parte do 2º Ciclo de Estudos Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo. Territórios, governamento da vida e o comum.

Durante sua conferência, Rena compartilhou suas experiências com os movimentos sociais a partir de seu trabalho junto ao grupo de pesquisa do Cnpq Indisciplinar e do projeto de extensão IND.LAB – Laboratório Nômade do Comum, ambos coordenados por ela na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG.

O grupo Indisciplinar foca suas ações na produção contemporânea do espaço urbano considerando os processos de globalização e mundialização, com os seus impasses, questões e potencialidades. Para o grupo, o ambiente urbano é visto em sua capacidade de engendrar singularidades e diferenças.

Participam das atividades e estudos professores, pesquisadores, alunos de graduação e pós-graduação oriundos de diversos campos do conhecimento como Arquitetura, Economia, Geografia, Letras, Direito, Filosofia, Engenharia, Design, Biologia, Sociologia, Antropologia, entre outros. Além da UFMG, também há integrantes de várias instituições, como a Universidad Javeriana de Bogotá, Universidade de Itaúna, Pontifícia Universidade Católica de Minas – PUC Minas, Centros Universitários UNA e UniBH; profissionais e cidadãos interessados na temática das biopolíticas do espaço.

O IND.LAB – Laboratório Nômade do Comum trabalha em conjunto como o grupo Indisciplinar desenvolvendo projetos de extensão associados às pesquisas gerando, através de ações diretas com a sociedade, tecnologia social, definida pelo grupo como produção de conhecimento social horizontalizado; e tecnopolítica, desenvolvimento de uso tático e estratégico de dispositivos tecnológicos para mobilização política.

Uma das experiências compartilhadas por Rena foram as mobilizações "Praia da Estação" iniciadas em 2010 na Praça da Estação, localizada no centro de Belo Horizonte. “A Praia da Estação, em fevereiro de 2010, foi um movimento de tomada dos espaços públicos pelo povo. A mobilização se posicionou contra um projeto de revitalização do espaço, que geralmente são o prenúncio de projetos financeiros de grandes incorporadoras, isto é, da privatização da cidade. Nesse caso, o prefeito queria limitar o uso da praça para certos eventos, e a população decidiu tomar conta do lugar. Assim, acabou se originando um movimento político contra o prefeito e contra a entrada da lógica de mercado na política”, conta.

A partir dessas manifestações tem início o carnaval da Praia da Estação nessa praça, o que não ocorria anteriormente. De acordo com a pesquisadora, a festa passa a ser uma espécie de campo de batalha contra o prefeito, onde ter um bloco de carnaval torna-se sinônimo de posicionamento político. “Os blocos são muito organizados, é uma produção de subjetividades onde diversas estéticas atravessam muitas lógicas. Um exemplo é o Pena Pavão de Krishina, um bloco afro indiano que mistura carnaval com ioga zen e desfila em diferentes espaços da cidade além da Praça da Estação. Eles pregam o respeito e o amor. É o amor coletivo de que fala Negri nas tendências multitudinárias”, ressalta.

Segundo Rena, forças estéticas e políticas atravessam esses movimentos mais recentes e criam redes afetivas, que congregam muitos adeptos. Entretanto, a pesquisadora ressalta que não deixam de haver disputas por poder nesses movimentos e, ainda, os partidos políticos também tentam fazer pressão para se inserirem nesses grupos. Mas, a lógica da multidão é diferente, ela busca transformar o poder, quer outro sistema, propor novos arranjos políticos.

O resultado das mobilizações da Praia da Estação, que se mantém até hoje conquistando cada vez mais adeptos, foi o recuo desse projeto de revitalização, que é traduzido pelo movimento como uma “limpeza do espaço” para a entrada do capital através das grandes incorporadoras. “A luta que produz afeto é uma estratégia biopolítica das novas mobilizações que congregam o comum. Negri percebeu esse fenômeno, pois está atento às multidões. As coisas já existem, estão aí, só é preciso dar visibilidade integral para elas. Gustavito, músico e integrante da ocupação cultural do Espaço Comum Luiz Estrela, traduziu perfeitamente o que é o comum através da música “Blocomum do Estrela”. O mais interessante é ninguém discutiu esse conceito com ele e nem com nenhum dos grupos que continuam se mobilizando, portanto as coisas estão aí, basta que sejam vistas”, chama a atenção a pesquisadora.

Natacha Silva Araújo Rena é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, onde também realizou mestrado em Arquitetura. É doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo – PUC-SP. Em seu currículo conta com mais de 37 premiações e é autora de dezenas de artigos científicos. Em 2010, organizou a publicação do livro Territórios aglomerados (Belo Horizonte: Universidade Fumec, 2010).

As conferências do 2º Ciclo de Estudos – Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo seguem até o dia 5 de novembro. A programação completa, inscrições e mais informações podem ser obtidas aqui.

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