Um desacordo entre manifestantes e os convocantes dos protestos?

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Por: Cesar Sanson | 19 Agosto 2015

"Manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado as manifestações. Também defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação". O comentário é de Pablo Ortellado, Esther Solano e Lucia Nader em artigo publicado por El País, 18-08-2015.

Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP; Esther Solano é professora de Relações Internacionais da UNIFESP e Lucia Nader é cientista política pela Sciences Po-Paris e fellow da Fundação Open Society. O três pesquisadores realizaram uma pesquisa com o público presente na manifestação em São Paulo, no domingo, dia 16.

Eis o artigo.

No último domingo, 16 de agosto, conduzimos mais uma pesquisa junto aos manifestantes que estavam nas ruas protestando contra o Governo federal e a situação política do país. Concluímos que, pelo menos em São Paulo, os manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo, como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado os protestos. Também destoando dos grupos liberais que lideram os protestos e pregam o Estado mínimo, os manifestantes defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação.

Esta pesquisa dá sequência a outra, que fizemos na manifestação do dia 12 de abril, que mostrou que a insatisfação e descrença dos manifestantes não estava concentrada na presidente Dilma e no PT, mas se estendia a todo o sistema político, incluindo todos os partidos, ONGs, movimentos sociais e a imprensa [1].

Apesar da descrença no sistema político ser generalizada, os grupos que lideram os protestos estão se empenhando em dar um tratamento seletivo à indignação, enfatizando a corrupção do Governo federal e poupando atores políticos como o presidente da Câmera Eduardo Cunha, que podem ser aliados úteis para um processo de impeachment.

Por isso, medimos a percepção da gravidade de escândalos de corrupção envolvendo governo e oposição e também a percepção de envolvimento de líderes políticos dos dois campos. Como era de se esperar, a quase totalidade dos manifestantes (99%) consideram grave os escândalos do mensalão e da Lava Jato. No entanto, constatamos que os escândalos de corrupção que envolvem o PSDB também são percebidos como graves. 80% dos manifestantes consideram grave o mensalão tucano e 87% consideram grave o escândalo de corrupção no metrô e na CPTM em São Paulo.

Quando investigamos a percepção do envolvimento individual de políticos dos dois campos com corrupção, a percepção é um pouco diferente, embora não tanto como se poderia esperar. 90% dos manifestantes consideram a presidente Dilma corrupta e 77% consideram o prefeito Fernando Haddad corrupto, mas uma parcela expressiva de 42% dos manifestantes considera também o governador Geraldo Alckmin corrupto e 38% consideram corrupto o senador Aécio Neves.

A descrença no sistema político como um todo, que tínhamos capturado na pesquisa da abril, poderia dar lugar a dois tipos de soluções: soluções que buscam ampliar e aprofundar a democracia ou saídas antipolíticas para a crise. A literatura sociológica, por exemplo, costuma apontar a valorização da democracia interna de movimentos e associações cívicas como base para uma reforma profunda do sistema democrático.

Assim, investigamos se os manifestantes estavam mais de acordo com soluções antipolíticas, como entregar o poder para militares, juízes ou atores de fora do jogo político tradicional, ou se, ao contrário, buscavam soluções que buscam aprofundar a democracia, com mais participação, seja institucional (por meio de plebiscitos) ou pela sociedade civil organizada (participação em ONGs e movimentos).

Os resultados, neste caso, foram mistos. 56% concordam totalmente ou em parte que para solucionar a crise é preciso entregar o poder para alguém que esteja fora do jogo político. 28% concordam totalmente ou em parte que a solução é entregar o poder para os militares e 64% para um juiz honesto. Por outro lado, 77% concordam total ou parcialmente que é preciso ampliar a participação por meio de mecanismos como o plebiscito e 59% por meio do fortalecimento de ONGs e movimentos sociais.

Buscamos também investigar se a indignação que alimentava as manifestações de 2015 tinha ligação com aquela que estava na base das de junho de 2013, a despeito da profunda diferença de orientação política das lideranças e da composição social dos protestos (formado por pessoas mais velhas e mais ricas). Diversas pesquisas de opinião tinham mostrado que as reivindicações de junho de 2013 consistiam numa combinação de rejeição do sistema representativo e demandas por mais e melhores direitos sociais, em particular, saúde, educação e transporte.

Assim, buscamos investigar em que medida os manifestantes concordavam com a universalidade e gratuidade desses serviços públicos que atendem direitos sociais. A questão não era apenas importante porque sugeria conexões profundas e mais ou menos ocultas entre as duas ondas de protesto, mas porque mostrava um grande desacordo entre o que pensam os manifestantes e o que pensam algumas das lideranças dos protestos, que tem uma orientação ultraliberal.

Constatamos índices muito elevados de defesa da universalidade e da gratuidade dos serviços públicos. Entre os manifestantes, 97% concordam total ou parcialmente que os serviços públicos de saúde devem ser universais e 96% que devem ser gratuitos. Já 98% concordam total ou parcialmente com a universalidade da educação pública e 97% com a sua gratuidade. Até mesmo uma demanda social recente e algo heterodoxa como a gratuidade do transporte coletivo (a “tarifa zero”) encontra 49% de apoio total ou parcial entre os manifestantes.

Por fim, buscamos investigar em que medida e de que maneira os manifestantes incorporavam a tendência de moralização da política conhecida como “guerras culturais” [2]. Essa tendência consiste tanto na proeminência cada vez maior de temas morais na agenda política (como drogas, direitos dos homossexuais, aborto e a pena capital), como no tratamento moral de questões sociais e políticas.

Assim, investigamos a concordância dos manifestantes com frases que expressam algumas dessas abordagens morais na política. Além de verificar a difusão e alcance dos discursos morais, queríamos saber se abordagens punitivas são mais frequentes em temas que envolvem relações entre as classes sociais (como desigualdade, criminalidade e imigração) e se, em temas relativos a direitos individuais (como homofobia, direitos das mulheres e drogas), predominam abordagens mais compreensivas.

Constatamos que em temas que envolvem relações entre as classes sociais, 70% concorda total ou parcialmente que “é justo que quem estudou e se esforçou mais na vida tenha alguns privilégios”; 86% concorda total ou parcialmente que “a melhor maneira de conseguir paz na sociedade é aumentando a punição aos criminosos” e 80% concorda total ou parcialmente que “negros não devem usar a cor da pele para conseguir privilégios como cotas raciais”.

Por outro lado, constatamos também que em termos de liberdades e direitos individuais (talvez porque podem envolver pessoas da mesma classe social), prevalecem posturas mais compreensivas e tolerantes. 79% dos manifestantes discordam que “haveria menos estupros se as mulheres tomassem mais cuidado e não usassem roupas curtas”; 61% discorda que “relacionamentos entre gays não são naturais e gays não deviam expressar afeto em público” e até mesmo 50% concorda total ou parcialmente que “as pessoas devem ter o direito de fumar maconha legalmente desde que não prejudiquem os demais”.

Notas:

[1] Esther Solano; Lucia Nader; Pablo Ortellado. “Um protesto contra todo o sistema político?” El País. 14 de abril de 2015. Disponível aqui.

 [2] Pablo Ortellado “Guerras culturais no Brasil” Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível aqui

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