Em Calais, na França, ressoa o eco do inferno

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Por: Jonas | 11 Agosto 2015

Há nomes que começam a ter o eco do inferno. Primeiro, foi o da localidade italiana de Lampedusa, nas costas do Mediterrâneo, agora são Calais, no Canal da Mancha, ou as ilhas gregas da zona leste do Egeu. Nos três casos, o aumento massivo de imigrantes, os acidentes que acarretam centenas de mortes e a incapacidade europeia para elaborar uma resposta humana e eficaz provocaram uma das catástrofes mais espantosas do século XXI. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, neste ano, 2.000 pessoas já morreram procurando chegar às fronteiras da Europa, em um total de 225.000 que se lançaram no mar.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 09-08-2015. A tradução é do Cepat.

O Mediterrâneo é um cemitério de corpos e esperanças. Desse total, 124.000 tocaram o chão das ilhas gregas de Lesbos, Kos, Quios, Samos e Leros. Os números são estonteantes. Entre janeiro e julho, a porcentagem de migrantes cresceu 750%. Somente em julho, 50.000 pessoas desembarcaram na Grécia. Agora, a França também conhece um foco extremo de tensão no porto de Calais, região em frente ao Canal da Mancha, onde estão os acessos do túnel sob o canal que une o continente com a Grã-Bretanha através do trem. Centenas de migrantes tentam, todas as noites, entrar nas dependências da empresa Eurotúnel e chegar à Inglaterra, colocando em risco suas vidas. Neste ano, mais de doze pessoas já morreram nessa travessia. No momento atual, as Nações Unidas interviram neste drama por meio do ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. O organismo solicitou que a França elabore, em caráter de urgência, uma “resposta global e duradoura”, com o objetivo de aliviar os nefastos efeitos da crise migratória de Calais. Nesse local, há entre 3.000 e 5.000 migrantes indocumentados aguardando atravessar o Canal da Mancha. “Tratem [estas pessoas] como uma urgência civil”, disse Vincent Cochetel, o responsável da divisão Europa do ACNUR que, além disso, pôs em causa a atitude pouco humana e eficiente da Grã-Bretanha.

A relação entre a crise política, a instabilidade criada pelas guerras e a origem dos migrantes é visível. Um terço dos homens, mulheres e crianças que chegaram à Grécia ou Itália, por via marítima, provém da Síria, um país decomposto pela guerra deflagrada em 2011. O ACNUR revelou que as pessoas que fogem da violência que açoita o Afeganistão, ou do regime ditatorial e sangrento de Issayas Afeworki, na Eritreia, representam 12% dos migrantes. A África proporciona grande parte dos migrantes que desembarcam na Europa. No Senegal, há inclusive uma expressão que demonstra até que ponto esses regimes políticos deixaram de oferecer níveis mínimos de vida a seus cidadãos: Barca wala Barsakh, “Barcelona ou a morte”. A Europa parece de mãos atadas, inoperante diante desse cemitério a céu aberto no qual o Mediterrâneo se converteu. Teme um aumento de medidas para salvar os migrantes em alto mar, que melhore a indigna forma como são recebidos e que essa seja uma motivação que incentive mais pessoas à imigração. Estados fraturados (Líbia), em plena guerra (Síria, Iraque, Afeganistão), com ditadores assassinos (Eritreia) ou com situações de pobreza extrema e de conflito (Sudão, Somália, Nigéria, Senegal) oferecem um retrato espantoso das incursões militares do Ocidente (Iraque, Afeganistão), assim como da utopia inconclusa dos períodos pós-coloniais na África.

Dimítris Avramopoulos, o comissário europeu para os assuntos migratórios, reconhece que, de Lampedusa a Atenas ou a Calais, a crise migratória reveste “proporções extraordinárias”, que vão “além das fronteiras nacionais”. Até agora, as respostas europeias foram de baixa intensidade. Os estados da União triplicaram o orçamento destinado às operações de resgate no mar, isso evitou que, por exemplo, no último dia 5 de agosto, cerca de 400 pessoas morressem no mar, pois um barco irlandês estava perto do lugar do naufrágio. No entanto, os meios não bastam para apaziguar a crise migratória. Vincent Cochetel, o responsável da divisão Europa do ACNUR, julgou que a situação dos migrantes que chegam à Grécia, provenientes da Turquia, é simplesmente “vergonhosa”. Cochetel esclareceu que “nos 30 anos de experiência humanitária, nunca viu semelhante quadro. Isto ocorre na União Europeia e é absolutamente vergonhoso”. O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, prometeu coordenar melhor as estruturas destinadas aos migrantes. A Grécia também é um Estado em colapso e, assim como ocorreu com a Itália quando foi deflagrado o drama de Lampedusa, os sócios europeus relutam em colaborar mais intensamente com os países onde os desembarques de migrantes atingem níveis inimagináveis. A Agência Europeia de Vigilância das Fronteiras, Frontex, recebeu apenas 16% do material técnico e 20% dos meios humanos que solicitou com o objetivo de, pelo menos, desarticular as máfias que promovem a imigração clandestina em troca de milhares de dólares por candidato.

A fortaleza europeia não apenas é exterior, mas também interior. A França, por exemplo, fecha suas fronteiras aos imigrantes que chegaram à cidade italiana de Ventimiglia. E não é o único país que eleva portas de aço para evitar que os populismos de extrema-direita continuem crescendo com o fluxo de refugiados. Em junho passado, o presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, disse que se sentia “profundamente afligido, entristecido pelo espetáculo dado pela Europa”. Contudo, por mais políticas migratórias que sejam elaboradas, sejam generosas ou duras, nada resolverá, no momento, a arrepiante existência de milhões de pessoas que vivem sob o fogo, a miséria ou as ditaduras. Em muitos casos, as nações ocidentais que são objeto da tentação migratória possuem relações “não críticas” com esses estados. Os paradoxos e a hipocrisia do sistema internacional não possuem limites.

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