“Somos pessoas, não animais”, reclamam migrantes de Calais

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Por: André | 06 Agosto 2015

Houve um tráfego intenso de imagens e notícias nestes dias sobre a tentativa de milhares de migrantes de cruzar a fronteira entre a França e o Reino Unido pelo Canal da Mancha. Dentre todas elas, fico com um grito e três imagens.

 
Fonte: http://bit.ly/1MQiADJ  

A reportagem é de José Luis Pinilla e publicada por Religión Digital, 05-08-2015. A tradução é de André Langer.

As imagens são a de uma capela católica construída com quatro paus e alguns tapumes e madeiras em formato de cruz, uma oração muçulmana ao ar livre diante de uma mesquita improvisada feita de lona, e a estrutura simples de uma escola criada por um imigrante nigeriano que está há meses na chamada floresta de Calais. Em seu interior, material escolar de todo tipo e as cadeiras e mesas de diferentes modelos, fruto das doações generosas das pessoas do vilarejo (que também se oferecem para dar aulas de língua).

O grito que recordo é o de dois dias atrás, no confronto com a polícia: “Nós somos pessoas, não animais”.

Bastam estes dois simples detalhes para dar-se conta de que aquilo não é uma praga, como indignamente o qualificou David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido. Por isso, recebeu a justa crítica do bispo de Dover acusando os políticos de alto nível, entre eles o primeiro-ministro, de esquecerem sua humanidade e ao mesmo tempo chamar a atenção alguns meios de comunicação sobre a utilização de linguagens tóxicas que criam uma grande antipatia em relação aos migrantes.

Esses emigrantes também não são goteiras que precisam ser tapadas, como disse um importante político espanhol.

São seres humanos sustentados pela fé em Deus e que mesmo nestas condições mais difíceis não querem perder uma das ferramentas humanas que mais forjam a identidade das pessoas: a cultura. Não somos animais, somos pessoas. A desgraça é que a estes valores – e muitos outros que apareceriam, caso tivessem a possibilidade de compreender a riqueza trazida pelos “outros” que são descartados – a política europeia só responde com a força. É como se para a mesa de negociações – onde certamente a assimetria entre os países negociadores da Europa, por um lado, e a África, por outro, é vergonhosa – alguns tivessem trazido a força e outros a fome e seus projetos de vida.

Os graves acontecimentos de Calais (nove imigrantes morreram desde junho tentando cruzar o Canal e mais de 600 crianças – o tríplice do que no ano passado – fizeram por conta própria a travessia mortal desde o início do ano) recolocam sobre a mesa a necessidade de ir além das políticas de segurança. Disseram os bispos espanhóis e europeus, o Papa, a Caritas e muitas organizações com trabalho de campo: em primeiro lugar, salvar vidas com o visto humanitário ou com a facilidade para a reagrupação familiar como meios iniciais para isso – o reassentamento reduzido que a Espanha aceitou é vergonhoso.

Em seguida, buscar uma autoridade internacional que coordene os desafios migratórios e se imponha sobre egoísmos nacionais. E por último, enfrentar seriamente uma política migratória que, tendo em conta muito o desenvolvimento nos países de origem, para o que são necessários numerosos recursos – a Espanha está nos níveis mínimos de cooperação neste sentido – e que sejam empregados com nobreza (sem fingir que se ajuda para o desenvolvimento com medidas que são simples externalização de fronteiras).

Mas, não nos enganemos: Calais é apenas um dos pontos quentes da migração que a atualidade colocou sobre o tapete. Como se se tratasse de um trem de mercadorias – parecido com o “la bestia” mexicano que leva em seus tetos milhares de migrantes centro-americanos – milhares de emigrantes vão se amontoando em trens ou vão se escondendo em caminhões e barcos em várias rotas europeias.

Por exemplo, em Rosenheim, centro de comunicações situado no triângulo Munique, Viena e Itália, onde no ano passado foram recolhidos 12.500 refugiados (africanos, sírios, afegãos, eritreus, etc.) que chegaram de trem ou por rodovias a caminho da Alemanha após atravessarem desertos e cárceres; ou que o mar brincou com eles em seus frágeis barcos infláveis; ou deram de cara na Hungria com uma cerca de 175 quilômetros em sua fronteira com a Sérvia contra a imigração – logo a Hungria!, ela que tem tão somente 1,5% de população estrangeira (Kosovo, Síria, Afeganistão e Iraque, etc.) –, todos em trânsito para a Alemanha e a Áustria.

 
Fonte: http://bit.ly/1MQiADJ  

Ou na fronteira hispano-marroquina onde um jovem imigrante marroquino de 27 anos morreu nesta terça-feira dentro de uma mala em um carro de seu irmão no ferry de Melilla para Almeria. E quatro subsaharianos morreram no domingo afogados quando tratavam de chegar a nado a Ceuta vindos do Marrocos.

“Já não temos lágrimas para chorar por essas mães que buscam com seus filhos nos braços um futuro melhor. Porque a globalização da indiferença secou as nossas lágrimas”, dizia recentemente na TVE dom Ciriaco Benavente, presidente da Comissão Episcopal das Migrações. Na sequência pedia para “manter viva a compaixão e que a dor nos mobilize a todos para clamar aos responsáveis da nossa sociedade e da Europa medidas eficazes (que correspondem a eles). A emigração é uma riqueza. Eles são na Espanha aqueles que estão tornando realidade a lei da dependência. Devemos acolhê-los como cidadãos que são do mundo e que têm o direito de buscar – assim como nós o fazemos – um futuro melhor para suas famílias”.

E enquanto termino de escrever essas linhas, no Passo de Calais um grupo de migrantes queima as polpas dos dedos com ferro em brasa para eliminar o rastro de suas digitais. Assim não serão identificados e, portanto, serão excluídos pelas autoridades europeias.

E me imagino rezando dentro da capela de lona e tapumes com uma simples cruz que um grupo de eritreus colocou no meio do Campo de Calais, enquanto alguns muçulmanos rezam diante da sua mesquita de lona, e alguns homens e mulheres aprendem francês e inglês em uma escolinha quase toda ela feita de papelão. Esses são seus autênticos dados de identificação. Dessa maneira, já saberão dizer em inglês e francês: somos pessoas, não animais.

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