Cameron, mais duro com os migrantes

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Por: André | 05 Agosto 2015

O governo britânico ameaça com pena cinco anos de prisão aqueles que alugarem suas casas para estrangeiros sem verificar sua situação legal. É uma política que se soma à construção de novas cercas de segurança e ao deslocamento de guardas para reforçar a fronteira.

A reportagem é de Marcelo Justo e publicada por Página/12, 04-08-2015. A tradução é de André Langer.

O primeiro-ministro David Cameron ganhou a condenação de meio mundo ao qualificar como “enxame ou praga” humana (swarms) os imigrantes ilegais que, da costa francesa de Calais, tentam cruzar o Canal da Mancha para chegar ao Reino Unido. As Nações Unidas, o governo sueco, a Igreja Anglicana, grupos de direitos humanos e a oposição em Westminster qualificaram a retórica de “desumana”, “incendiária” e “oportunista”. Impassível, o governo conservador respondeu na segunda-feira com um endurecimento maior das medidas para combater os imigrantes que diariamente procuram cruzar o Canal da Mancha.

À construção de novas cercas de segurança, ao reforço com mais guardas, câmeras de vigilância e cães adestrados na fronteira, o ministro de Comunidades, Greg Clark, somou no começo da semana os proprietários que alugassem casas a estrangeiros sem verificar sua situação legal ou que não expulsassem os que não tivessem seus papéis em dia. Eles se expõem, em caso de desobediência, a cinco anos de cárcere. “Vamos perseguir com todo o peso da lei os proprietários que fazem dinheiro com a imigração ilegal enfraquecendo o nosso sistema imigratório”, assinalou o ministro. De acordo com o chanceler Philip Hammond, “o governo está começando a controlar esta crise, e os imigrantes ilegais estão diminuindo”.

Muitos conservadores, o partido antieuropeu UKIP e até setores da polícia britânica pediram a intervenção do Exército e a utilização de unidades especiais dos gurkas para a caça de imigrantes ilegais. O governo, reeleito em maio com uma plataforma dura em relação à questão migratória, rechaçou essa possibilidade, mas endureceu sua retórica para mostrar que o Reino Unido não é um soft de fácil acesso e vida subvencionada pelo Estado. Em sua última intervenção, na quinta-feira da semana passada, pouco antes entrar em férias, Cameron aumentou os decibéis até beirar um racismo colonial. “Há uma praga de imigrantes que cruzam toda a Europa buscando uma vida melhor e querem vir à Grã-Bretanha porque tem uma economia em crescimento, muitos empregos e é um lugar incrível para se viver”, assinalou.

Ato deliberado ou traição do inconsciente, a referência ao termo swarms usado pelo primeiro-ministro causou uma onda de protestos. Dois dias antes, um sudanês de 25 anos perdeu a vida atropelado por um caminhão que estava entrando no túnel que atravessa o Canal da Mancha: a nona morte em um mês. Em nome da Igreja Anglicana, o bispo de Dover, Trevor Willmott, exortou, no último domingo, o primeiro-ministro a baixar o tom de suas intervenções. “Estamos nos convertendo em um mundo crescentemente intolerante. Temos que redescobrir o que significa ser humanos”, disse.

O questionamento mais ácido veio de um sócio do Reino Unido na União Europeia, o ministro da Justiça e Imigração da Suécia, Morgan Johansson. “A Suécia está aceitando entre mil e dois mil imigrantes por semana. O Reino Unido não está assumindo a responsabilidade que lhe corresponde”, indicou Johansson.

Os números das imigrações europeias respaldam o ministro sueco e refutam o papel de vítima e alvo fácil de caóticas “pragas humanas” que as autoridades britânicas buscam projetar para justificar as medidas anunciadas. Nos primeiros quatro meses do ano, cerca de 250 mil pessoas solicitaram asilo político a um país da União Europeia: menos de 10 mil (3%) buscaram-no no Reino Unido (que tem mais de 10% da população europeia). Segundo as Nações Unidas, há um total de 250 mil refugiados na França: mais do dobro que no Reino Unido.

A realidade é que, em uma sociedade que assumiu um discurso de direita, o governo britânico mistura deliberadamente asilo político, imigração ilegal econômica e o que acontece em Calais. “A grande maioria dos imigrantes ilegais são pessoas que chegaram normalmente ao Reino Unido e ficaram depois que vencesse o visto para trabalhar em um restaurante ou para montar um negócio. Não é alguém da Eritreia que sobe ao teto de um caminhão em Calais na tentativa de entrar em um país”, assinala Jonatham Portes, diretor do National Institute of Economic and Social Research.

O problema do governo é que quando chegou ao poder, em 2010, prometeu reduzir a migração para menos de 100 mil pessoas por ano. Longe de consegui-lo, os números dispararam para mais de 300 mil. A imensa maioria são imigrantes econômicos, provenientes de outros países da União Europeia (legais) ou do mundo (com ou sem permissão de estadia).

A única maneira de continuar a projetar uma imagem de firmeza é com pronunciamentos de mão dura contra os imigrantes que se concentram em Calais, em sua maioria provenientes da Síria, Afeganistão, Iraque, Eritreia e Sudão, todos países mergulhados em guerras civis ou com governos ditatoriais.

Como a hipocrisia é a homenagem do vício à virtude, o discurso oficial conservador nunca se esquece de recordar a “nobre tradição britânica” de asilo político desde as revoluções europeias do século XIX ao nazismo ou os convulsivos anos 1970. Na prática, a ministra do Interior, Theresa May, aspirante à sucessão de Cameron, assinalou abertamente que os refugiados de um país como a Eritreia são econômicos e não políticos, mesmo que as Nações Unidas tenham publicado um documento de 500 páginas sobre a “violação sistemática e absoluta dos direitos humanos” sob o governo de Isaias Afwerku que, entre outras coisas, tem um sistema de recrutamento obrigatório para toda a população, masculina ou feminina, que, de acordo com as organizações de direitos humanos, os converte em população escrava.

Em Calais, os testemunhos da grande maioria são contundentes. Um dos refugiados africanos comentou ao The Observer britânico que preferia essas barracas precárias em que se aloja a voltar ao seu país. “Não quero morrer e não quero matar ninguém. Não me importo em ficar aqui para sempre. Pelo menos aqui não existem armas, não têm mortes”.

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