A teoria da "curiosidade geral" de Einstein. Artigo de Carlo Rovelli

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27 Julho 2015

Os pensamentos genuínos de Einstein nos mostram a inteligência, mas sobretudo a profundidade, do grandíssimo cientista e nos ajudam a compreender as razões pelas quais ele tanto fascinou o mundo.

A opinião é do físico italiano Carlo Rovelli, professor da Universidade de Aix-Marseille, na França, e diretor do grupo de pesquisa em gravidade quântica do Centro de Física Teórica de Luminy, em Marselha. O artigo foi publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 04-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Carlo Rovelli é autor de Che cos'è la scienza. La rivoluzione de Anassimandro (2011), La realità non è come ci appare. La strutura elementare delle cose (2014) e Sette brevi lezione di fisica (2014).

Eis o texto.

"Eu não tenho talentos especiais. Sou apenas apaixonadamente curioso." Assim Albert Einstein descrevia a si mesmo em 1952, poucos anos antes de morrer. Sobre ele, tendo entrado no mito, circulam muitíssimas citações, a maioria falsas, usadas a propósito e a despropósito para defender as ideias mais bizarras.

A publicação da primeira parte das suas obras completas é uma boa oportunidade para lembrar alguns dos seus pensamentos genuínos, que nos mostram a inteligência, mas sobretudo a profundidade, do grandíssimo cientista e nos ajudam a compreender as razões pelas quais ele tanto fascinou o mundo.

O ponto de partida de Albert Einstein, sem dúvida, foi uma rejeição instintiva e absoluta à autoridade. Bem antes de escrever os seus grandes trabalhos, ainda jovem, em 1900, ele escreveu com a arrogância dos adolescentes: "O respeito pela autoridade não pensa e é o maior inimigo da verdade". A sutil ironia de ter chegado, anos depois, a representar, ele mesmo, a autoridade na ciência não lhe escapou: em 1930, tendo-se tornado famoso, escreveu: "Para me punir pelo meu desprezo pela autoridade, o destino autoridade fez uma autoridade de mim mesmo".

Mas Einstein desconfia da adoração do público. Em 1922, ele escreveu ao amigo Zangger "Adorado hoje, atacado ou até mesmo crucificado amanhã, esse é o destino daqueles dos quais – Deus sabe por que – se apodera o público entediado".

Einstein encontra a alegria no estudo e nos resultados concretos. Ela transparece nos momentos do sucesso, como a de uma criança que conseguiu fazer bem alguma coisa. Em 1919, a expedição inglesa liderada por Eddington fotografa um eclipse total e encontra a primeira espetacular confirmação das previsões da relatividade geral. Einstein enviou um cartão postal para a sua mãe: "Querida mamãe! Hoje uma alegre notícia: Lorentz me telegrafou para me dizer que a expedição inglesa realmente provou a deflexão da luz perto do sol!".

Mas a satisfação mais intensa não está no sucesso, está na estrada: em uma carta calorosa ao filho, que estava indo para as aulas de piano, Einstein oferece o melhor conselho possível para um jovem que estuda: "Busque tocar especialmente aquilo de que você gosta, mesmo que o professor lhe diga para fazer outra coisa. É assim que se aprende melhor: quando você está fazendo algo com tal prazer que você não percebe que o tempo voa".

É 1915, o ano em que ele consegue encontrar as equações da relatividade geral. Não que Einstein não fizesse esforço, também ele, para aprender. A uma menina que lhe escreve lamentando-se da dificuldade com os números, ele responde: "Não se angustie com as dificuldades que você tem com a matemática. Aquelas que eu tenho são ainda maiores".

E ainda uma menina, que lhe perguntou se os cientistas rezam, ele responde com desarmante candor: "Os cientistas pensam que todas as coisas que acontecem, incluindo os episódios humanos, são reguladas pelas leis da natureza. Portanto, um cientista não pode ser inclinado a pensar que o curso dos eventos possa ser influenciado pela oração".

Outra menininha lhe escreve uma primeira carta, sem dizer que é uma menina e, depois, uma segunda carta, pedindo desculpas por sê-lo e dizendo-lhe que ser menina lhe pesa, que ela gostaria de ser cientista, mas, como menina, é difícil. A resposta de Einstein (estamos em 1946, e ainda há realmente poucas mulheres na física) não tem hesitação: "Que importância tem para mim que você é uma menina? O mais importante é que isso não deve ter nenhuma importância para você. Não há nenhuma razão para você se preocupar com isso".

No mesmo ano, nos Estados Unidos de muito antes das lutas pelos direitos civis dos anos 1960, quando ainda em grande parte do país os negros não podiam se sentar nos ônibus dos brancos, Einstein, falando na Lincoln University, não tem dúvidas a respeito: "Existe uma separação nos Estados Unidos entre pessoas de cor e os brancos. Essa separação não é uma doença das pessoas de cor. É uma doença das pessoas brancas".

Se vocês acham que é um pensamento óbvio, repitam-no trocando "Estados Unidos" por "Itália", "de cor" por "imigrantes", e "brancos" por "italianos".

Ainda mais límpida é a sua rejeição da ideia de fidelidade a uma pátria, a uma religião, a um grupo: "Eu sou, por herança, judeu; por cidadania, suíço; mas, por natureza, um ser humano, apenas um ser humano, sem especial apego a qualquer Estado, nação ou entidade qualquer".

Esplêndido. Estamos em 1918. A Europa recém-terminou o seu primeiro conflito nojentamente geral em nome das pátrias e já se prepara para o segundo, algumas décadas depois.

Muitos anos depois, em 1950, em tarda idade, esse seu sentimento genuíno se tornou mais sério, mais amplo, mais profundo: "Um ser humano faz parte do todo, que nós chamamos de Universo, parte limitada no espaço e no tempo. Ele tem experiência de si mesmo, dos próprios pensamentos, dos próprios sentimentos como de algo separado do resto – uma espécie de ilusão de ótica da sua consciência. Essa ilusão é como uma prisão para nós, nos restringe aos nossos desejos pessoais e a sentir apego apenas pelas poucas pessoas mais próximas a nós. A nossa tarefa deve ser nos livrarmos dessa ilusão, ampliando o raio da nossa compaixão até abraçar todas as criaturas e toda a natureza na sua beleza. Ninguém consegue fazer isso por inteiro, mas o esforço para fazer isso já faz parte, por si só, da libertação e da fundação da própria segurança interior".

Esse é o ponto aonde havia chegado no fim da sua vida o homem que era "apenas apaixonadamente curioso". No ano antes de morrer, em 1955, ele fechou o círculo dos seus pensamentos retornando para a força primeira que o levou ao longo da vida: "O importante é nunca deixar de fazer perguntas. A curiosidade tem em si mesma a própria razão de existir. Não podemos deixar de nos abalar com a maravilha ao contemplar os mistérios do tempo, da vida, da maravilhosa estrutura da realidade. É suficiente se buscarmos simplesmente compreender um pouco desse mistério a cada dia. Nunca percam a curiosidade. Nunca deixem de se maravilhar".

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