De Galileu até hoje: a necessária memória eclesial

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27 Julho 2015

Coincidências... Às vezes, eu abro um livro que não lia há quase 50 anos: "Vida e obra de Galileu Galilei", de Pio Paschini, historiador de renome e ex-reitor do Ateneu Lateranense nos anos precedentes ao Concílio. A edição em minhas mãos tem, no alto, uma assinatura manuscrita: "V. Fagiolo", e isso me diz que o livro, em anos distantes, chegou até mim por meio dele, o cardeal Vincenzo Fagiolo, grande especialista em direito canônico e amigo de muitos padres romanos, ou por meio de alguém que o recebeu dele e depois me deu...

O comentário é do jornalista italiano Gianni Gennari, publicado no sítio Vatican Insider, 17-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um livro singular: aqui está na segunda edição, mas também se poderia dizer na terceira. De fato, durante o Concílio, a comissão que elaborava o texto do "Esquema 13", a futura Gaudium et spes, sobre as relações entre ciência e fé, chegou a citar a história de Galileu, e, durante a discussão aberta, estava presente o próprio Paulo VI, interessado nas vicissitudes do texto já muito conturbado e nas últimas redações...

Foi o próprio papa que, interrompendo um respeitoso silêncio de sua parte, perguntou aos presentes se seria possível citar, talvez em uma nota, algum livro "católico" sério, que desse uma verdadeira ideia da história e da vida atormentada do pobre Galileu, fazendo-lhe a devida justiça.

Seguiu-se um silêncio prolongado, e só então um dos presentes, Mons. Michele Maccarrone, na época professor de História da Igreja da Lateranense, disse que sim, havia um livro, e havia sido escrito por Mons. Pio Paschini, seu antecessor na cátedra e ex-reitor da Lateranense, mas... já no rascunho havia sido condenado pelo então Santo Ofício, no fim dos anos 1940, e, portanto, removido e nunca impresso.

E, então, Paulo VI em pessoa decidiu que esses esboços deviam ser o mais rápido possível impressos pela Pontifícia Academia das Ciências, para poder citar a obra, como realmente aconteceu, na nota 7 do parágrafo 36 da Gaudium et spes.

Isso foi feito em poucos dias e em dois volumes, mas, depois, a editora Herder republicou a obra, ainda em 1965, com o prefácio do próprio Maccarrone, que muitas vezes contou essa "aventura" aos seus alunos, até mesmo sorrindo: um ato de coragem do próprio Paulo VI...

Esse é um exercício de memória necessário também na Igreja: fingir ignorá-lo nunca é um serviço à verdade e ao bem comum. Pareceria um discurso distante e abstrato, e, ao contrário, é essencial e vital, isto é, serve também para viver bem estes momentos do verão europeu de 2015, em que recém-acabou a visita pastoral do Papa Francisco nas "periferias" daquela "grande" periferia que é a América Latina...

Hoje vivemos uma época em muitos aspectos nova, e servir à verdade obriga a não fingir que nada aconteceu. Devemos poder dizer abertamente que hoje se dizem e se fazem, em nome da Igreja, coisas que até pouco tempo atrás não era possível quase pensar, e quem as pensava e depois as dizia, era tido como pessoa incômoda, no mínimo, ou como perigoso subversivo de uma ordem que devia ser o supremo interesse dos homens da Igreja, padres ou leigos igualmente.

Ter memória, portanto, e memória viva. É do dia 14 de julho, por exemplo, a notícia da morte, aos 102 anos, daquele grande mestre de vida e de doutrina que para muitos de nós foi o Pe. Arturo Paoli. E eu leio o seu obituário e o seu elogio aberto tanto no jornal Avvenire quanto no L'Osservatore Romano. Ótimo!

Mas, se você tiver um pouco de memória eclesial consciente, não pode fingir ignorar. A vida, longa, de Arturo Paoli foi muito sofrida, também e principalmente por causa das incompreensões contra ele por parte de homens de autoridade da Igreja.

No início dos anos 1950, assistente geral da Ação Católica, houve o grande expurgo contra ele, por obra de homens que queriam uma Igreja enfileirada somente de um lado, político e social, e que fez vítimas ilustres: recordo, dentre tantos, Carlo Carretto, frei Carlo, cuja vida foi preenchida com acolhidas e rejeições por parte eclesiástica e de poderosos, e Mario Rossi, grande homem de psicologia e de pastoral...

Seria possível fazer uma lista dos homens, padres e leigos, católicos que sentiam com antecedência as necessidades da própria Igreja, sacrificados em nome do poder e da autoridade que se preocupava apenas em manter a si mesma...

Penso sobretudo, para ficar na Itália, além do Pe. Arturo e do frei Carlo, em homens da Igreja como Carlo Molari, Ernesto Balducci, Enrico Chiavacci, Luigi Della Torre, Giacomo Lercaro, Michele Pellegrino, Luigi Bettazzi, Giacomo Martina, Lorenzo Milani, Primo Mazzolari e tantos outros...

Acrescentaria também Carlo Maria Martini, e aqueles que conhecem a realidade sabem que ele também foi hostilizado por muito tempo e até de onde menos se esperaria... Sobretudo aqueles que logo levaram o Concílio a sério pagaram caro.

Não vou aprofundar, aqui, o habitual uso instrumental da acusação de marxismo, ou comunismo, ou mesmo de pró-comunismo que marcou tantas vidas de homens e de padres próximos de nós. Ler, por exemplo, que o Pe. Milani é definido como "comunistoide" pelo cardeal Florit em uma carta ao futuro cardeal Umberto Betti, franciscano e reitor da própria Lateranense, não é uma coisa boa. O pluralismo necessária na Igreja não diz que a ofensa é libre, a, além disso, nunca ouvimos alguns dos chamados progressistas, homens que levaram o Concílio a sério, acusarem de heresia aqueles que parecem ser conservadores e nostálgicos do passado, enquanto o oposto foi uma "música" desagradável quase até hoje...

Apenas um exemplo: há menos de dois anos, mais ou menos, um bispo italiano, em página publicada, definia como "pró-comunista" o Pe. Giuseppe Ruggieri, alguém que, ao Concílio, dedicou e dedica grande parte do seu esforço como teólogo e padre, e esse era um julgamento decisivo.

Hoje, vivemos uma época nova, e isto deve ser dito com clareza: as páginas do L'Osservatore e também do Avvenire de hoje eram impensáveis há apenas três anos. Eu poderia dar, se necessário, dezenas de exemplos, preto no branco. Não lembrar isso significa ou falta de memória ou esperteza que só espera a ocasião da mudança de vento para retomar o concerto de sempre, em que "o lugar dos profetas é a prisão", como lembrava o Pe. Milani, que, porém, com lucidez, acrescentava: "... mas não é bom para aqueles que ali os mantêm!".

A memória, portanto: eis Galilei ontem, mas também muitos outros hoje. Eu comecei com a recordação do Pe. Arturo Paoli, grande em muitas coisas, também em humildade e silêncio livre e, ao mesmo tempo, obediente. Uma das suas obras mais belas, que, há nada menos do que 40 anos, refere-se a grande parte do estilo, do vocabulário e dos pensamentos do Papa Francisco é Camminando s’apre cammino (Ed. Cittadella), um diálogo seu com uma mulher do povo, cheio de proximidade e de serviço, de esperança e de ternura autêntica...

Ótimo, portanto, mas neste momento chega "a memória" e diz que, apenas no fim de 2005, o próprio Pe. Arturo devia participar, com a sua palavra de testemunho de paz e de serviço, de um congresso de "debates e oração" organizado pela Pax Christi que se realizou em Trento, nos dias 29 a 31 de dezembro, mas, no último minuto, chegou o veto da Conferência Episcopal Italiana para a sua presença. Esse foi só um dos episódios dolorosos que acompanham o Pe. Arturo por quase um século!

Em suma: entre ontem e hoje, há uma grande diferença: conservar a sua memória e não esquecer os seus eventos, de uma forma ou de outra, torna a todos nós mais livres e mais capazes de agradecer a Providência, que nos deu, de forma inesperada, este pontificado de libertação e de serviço, contra toda exclusão e em prol de toda abertura solidária...

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