Sobre como discutir a chamada ''ideologia de gênero''

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27 Julho 2015

Publicamos aqui a carta aberta que um grupo informal de mulheres católicas de Parma, na Itália, chamado "Le Sante Lucie" [As Santas Lúcias], dirigiram aos responsáveis das associações e movimentos católicos da diocese de Parma.

Elas se encontraram pela primeira vez em 2013, para responder às perguntas do questionário em vista do Sínodo. Era o dia 13 de dezembro, e daí nasceu o nome do grupo. Nesses meses, elas se defrontaram sobre os temas do gênero a partir das suas diversas perspectivas e competências, e sentiram a necessidade de compartilhar também algumas reflexões.

O texto foi publicado no sítio C3dem.it, 17-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a carta.

Dirigimo-nos a vocês, compartilhando a mesma fé e o mesmo desejo de estar a serviço da sociedade humana, para expressar a nossa preocupação sobre os métodos e os tons que assumiu o debate sobre a questão da chamada "ideologia de gênero".

Jornais e periódicos católicos, membros da hierarquia eclesiástica, leigos e religiosos parecem engajados em uma batalha contra um "terrível inimigo", que seria precisamente a ideologia de gênero sustentada por poderosos lobbies.

Não pretendemos entrar aqui no mérito das muitas e muito diversas questões que são levantadas sobre o assunto. Interessa-nos, aqui, sobretudo, observar que o método e a linguagem usados nessa "batalha" não têm a nossa concordância por diversos motivos.

A lógica "amigo/inimigo" está na base da violência, e nós a rejeitamos decididamente. Acreditamos que se possa expressar a mais clara discordância sobre as ideias sem, por isso, demonizar ou descrever de modo caricatural aqueles que as defendem, e que devemos relatar corretamente as posições a que nos opomos: uma atenção muitas vezes desconsiderada em muitas intervenções que temos lido e ouvido nesses meses.

Notamos que, muitas vezes, confundem-se os planos, a tal ponto que não se entende mais do que se está discutindo: uma coisa é discutir o projeto de lei "Scalfarotto", cuja intenção declarada é combater as discriminações contra as pessoas homossexuais, ou o projeto de lei "Cirinnà". Outra coisa é discutir o gender na filosofia, outra ainda é refletir sobre os gender studies. Uma coisa é falar dos "Padrões da OMS para a Educação Sexual na Europa", outra é se confrontar com aqueles que consideram que seja desastroso para a família pôr em discussão os tradicionais papéis masculinos e femininos e se engajar na desconstrução dos estereótipos.

Notamos também que, muitas vezes, evocam-se documentos normativos – apontando-os como perigosos – sem citá-los de modo correto, às vezes até falsificando-os, às vezes arrancando as frases do seu contexto.

Basta pensar aqui, para além da campanha contra os já mencionados Padrões da OMS, nas polêmicas primeiro sobre o projeto de lei "Fedeli" e agora sobre o parágrafo 16 do art. 1º da Lei 107 de 13 de julho de 2015 ("Boa Escola"), que não tem outra finalidade senão a de promover o princípio de paridade de oportunidades e de prevenir e combater todas as formas de discriminação e de violência baseadas no sexo e na orientação sexual: trata-se de uma aplicação dos artigos 3 e 51 da Constituição italiana, e, portanto, surpreendem a contrariedade com que ele foi recebido e as interpretações distorcidas de que ele foi objeto.

Observamos, por fim, que, em relação a todas as questões que são evocadas quando se fala de "ideologia gender", há – acreditamos legitimamente – opiniões diferentes entre pessoas e grupos que têm até a mesma fé católica, seja no mérito, seja no método identificado para intervir no debate em curso na sociedade civil.

As posições e as linguagens expressadas na manifestação realizada no dia 20 de junho em Roma, por exemplo, não eram representativas de todo o mundo católico, e diversas associações eclesiais decidiram não participar dela. No entanto, mesmo excluindo uma certa má-fé por exigência de "audiência", algo na comunicação desse pluralismo não deve ter funcionado, já que os meios de comunicação, muitas vezes, sintetizaram, e continuam a fazê-lo, com títulos como "Católicos nas ruas contra...".

Portanto, apelamos a vocês, como responsáveis de associações e movimentos da Igreja de Parma, da qual nos sentimos parte viva, para que a pesquisa e o compromisso sobre esses temas se desenvolvam no respeito ao pluralismo intraeclesial e baseando-se em uma informação ampla, correta e verificada.

Na falta disso, parece-nos muito difícil, tanto dentro da Igreja quanto na relação com outros sujeitos culturais e religiosos, instruir um debate e um diálogo que assumam a complexidade e sejam realmente ponderados e construtivos.

Stefania Berghenti
Margherita Campanini
Sara Chierici
Monica Cocconi
Maria Silvia Donati
Emanuela Giuffredi
Daria Jacopozzi
Angela Malandri
Carla Mantelli
Maria Pia Mantelli
Stefania Mazzocchi
Maria Michiara
Viviana Muller
Antonella Paolillo
Eleonora Torti
Rita Torti
Simona Verderi

Parma, 16 de julho de 2015.

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