Laudato si', ONU e polêmicas. Entrevista com Marcelo Sánchez Sorondo

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20 Julho 2015

Uma conversa animada com o chanceler da Pontifícia Academia das Ciências sobre o desenvolvimento e os conteúdos da Laudato si', sobre algumas críticas ao documento papal, sobre a polêmica derivada do congresso do fim de abril ao qual foram convidados o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon e o seu conselheiro em matéria ecológica, Jeffrey Sachs.

A reportagem é de Giuseppe Rusconi, publicada no sítio Rosso Porpora, 06-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dentro dos jardins vaticanos, na metade da colina do lado interno dos museus, surge um edifício do século XVI, certamente nada trivial, a Casina Pio IV. Nas suas amplas salas, têm sede a Pontifícia Academia das Ciências e a Pontifícia Academia das Ciências Sociais.

De ambas, o chanceler é o bispo e teólogo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, 73 anos, grande amigo do Papa Francisco e ultimamente no centro de candentes polêmicas (especialmente estadunidenses) a respeito das teses sobre o aquecimento climático (que se encontram na encíclica Laudato si'), mas também de um recente congresso sobre as novas formas de escravidão, ao qual serão convidados de honra o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e o controverso economista neomalthusiano Jeffrey Sachs.

Sobre isso, pedimos comentários ao prelado argentino, que defendeu com muito vigor, até mesmo com paixão, o seu ponto de vista.

Eis a entrevista.

Dom Sánchez Sorondo, comecemos pela encíclica Laudato si'. O primeiro rascunho do texto foi feito pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, que o entregou ao papa. Depois, por mais de um ano, o Pontifício Conselho não esteve mais diretamente envolvido, e a encíclica foi publicada com uma estrutura muito diferente da inicial. Diz-se que ela foi "roubada" de fato desse dicastério e confiada particularmente à Pontifícia Academia das Ciências, da qual você é chanceler... Sabe alguma coisa disso?

Sobrevoando em janeiro do Sri Lanka às Filipinas, o papa respondeu a uma pergunta sobre o assunto, constatando que o primeiro rascunho foi feito pelo Pontifício Conselho citado. Depois, ele trabalhou nele com alguns colaboradores. Em seguida, foi para as mãos de alguns teólogos. Ainda foi enviada uma cópia à Congregação para a Doutrina da Fé, para a Secretaria de Estado, para o teólogo da Casa Pontifícia. Por fim, o papa a assinou. Em nenhuma parte vejo citada a Pontifícia Academia das Ciências...

Mas há partes inteiras de natureza técnico-científica...

Que ele tenha recorrido aos nossos textos é mais do que possível. As teses científicas da encíclica, qualquer um pode constatar isso, são as que nós sustentamos. A encíclica não é um documento científico, mas pastoral, que utiliza, porém, os dados oferecidos pelas ciências naturais e pelas ciências sociais. Quando a encíclica diz que há um problema de clima, é claro que pode ter tirado isso também da Academia. Nós fomos os primeiros a levantar o assunto. Estamos dizendo há 20 anos que há um aquecimento devido à atividade humana. É uma tese compartilhada por 99% dos cientistas.

Na apresentação oficial da encíclica, tiveram uma grande participação as falas científicas, por exemplo a do professor Schellnhuber, "guru" da tese sobre o aquecimento global e defensor da teoria da tolerância máxima de dois graus a mais por parte Terra para evitar catástrofes universais. Schellnhuber, dentre outras coisas, tinha sido nomeado, um dia antes, membro ordinário da Academia: um reconhecimento certamente desejado. Na sua fala, ele foi claro, incisivo, também graças aos slides usados sobre o aumento progressivo de temperatura e poluição... Uma bela lição universitária, mas houve alguns que se perguntaram: mas o que isso tem a ver com uma encíclica do chefe da Igreja Católica?

Quem faz essa pergunta mostra não entender nada da encíclica...

Julgamento drástico...

Explico-me: a abordagem fundamental da encíclica é teológica...

Há alguns que duvidam que seja teológica...

Mas é teológica. O papa faz uma reflexão partindo da fé, através da razão. Isso acontece em todas as encíclicas. No nosso caso, o Papa Francisco raciocina em torno da Terra. Digo Terra, e não natureza, porque a natureza é muito maior do que a Terra... Nós somos um grãozinho de areia no universo. Quando dizemos que somos guardiões da Criação, é certo... mas, por enquanto, não podemos guardar nem mesmo a nossa galáxia, nem mesmo o Sol... Chegamos com dificuldade à Lua. A Marte, não. Portanto, devemos ter consciência das nossas limitações: somos guardiões apenas da Terra. A Bíblia diz isso. São Francisco – eu diria – também explicita isso. E também São Tomás, quando diz que tudo foi criado e redimido por Deus...

Com o homem, também os animais, os vegetais?

Sim, todos, todos. Haverá nova terra e novos céus. A ideia de São Francisco que fala da Irmã Terra explicita isso. Eu gosto de citar a biografia de São Francisco escrita por Chesterton: o escritor diz que São Francisco fez com que se entendesse que a natureza é criada por Deus, Deus está presente na criação inteira, as três pessoas da Trindade fizeram a criação como um processo que corresponde ao processo eterno das manifestações divinas.

Uma observação crítica sobre a encíclica diz que o papa, em grandes trechos do texto, fala de assuntos que não são da sua competência específica...

Sim, é a crítica feita por alguns candidatos republicanos à presidência dos Estados Unidos. Mas o papa sabe o que é a religião... sabe que pode falar sobre todas as coisas em relação com Deus e, portanto, também da Terra em relação com Deus: isso é religião! O que diz São Tomás na Suma Teológica? É tratar de Deus e de todas as coisas que têm relações com Ele.

Então, o Papa Francisco não pretende ensinar a ciência para os cientistas...

Não, ele utiliza os dados da ciência mais crível para descrever a situação da Terra. Aquela Terra da qual somos guardiões e que devemos acompanhar no seu progresso. Vigiamos e favorecemos o desenvolvimento, o desenvolvimento sustentável ...

Sobre desenvolvimento sustentável: despertou fortes polêmicas – em particular nos Estados Unidos – a participação no congresso do fim de abril sobre "Proteger a terra, dignificar a humanidade: as dimensões morais das mudanças climáticas e do desenvolvimento sustentável" do secretário-geral Ban Ki-moon e do seu conselheiro para os chamados Objetivos do Milênio, o economista Jeffrey Sachs, que é diretor do Instituto da Terra da Columbia University. Sachs é um economista muito discutido, também por causa das suas drásticas terapias neoliberais sugeridas aos governos da América Latina e pelas suas ideias sobre a "superpopulação" (aborto "barato e de baixo risco"). Você recebeu com todas as honras o secretário-geral de uma organização altamente desacreditada para muito e o seu conselheiros: ambos são a favor do controle de natalidade, do aborto...

Certos ambientes estadunidenses queriam afundar a encíclica preventivamente, até porque não acreditam em uma crise do clima devido à atividade humana...

Mas é uma opinião legítima do ponto de vista científico?

Para nós, não. E, de fato, eles não apresentam nenhum cientista importante em defesa das suas teses. A comunidade científica, as academias científicas em nível mundial pensam como nós. O papa também diz isso na encíclica. Dirigiram-me um ataque desproporcional, com o objectivo de tirar toda a seriedade das nossas conclusões. Segundo eles, se nós colaborarmos, trabalhamos com pessoas que não fazem parte do mundo católico, as conclusões a que chegaremos junto também estão fora do catolicismo.

As críticas ao congresso também dizem respeito, porém, às posições abortistas do secretário-geral e do seu conselheiro...

Mas o papa, quando nos pediu para organizar o congresso, não nos disse para fazê-lo sobre o aborto! Sabe o que ele me escreveu? "Marcelo: creo que sería bueno tratar sobre trata de personas y esclavitad moderna. La trata de órganos puede tratarse en conexión con la trata de personas. Muchas gracias. Francisco". Atacaram-nos em falso, em vez de nos julgar por aquilo que fizemos, um trabalho difícil, porque queríamos que tais assuntos fossem inseridos pela ONU entre os Objetivos do Milênio...

Vocês conseguiram o que queriam?

Não sabemos. Mas há a promessa de Ban Ki-moon, há a promessa de Sachs, que está encarregado da nova redação do texto dos Objetivos do Milênio. Nós pedimos que, na parte no documento referente à exclusão social, foquem-se as novas formas de escravidão, como o trabalho forçado, a prostituição, a venda de órgãos, talvez até mesmo o tráfico de drogas. Nós demonstramos que queremos defender a família, como eles dizem. A prostituição – é o exemplo mais marcante – atenta gravemente à vida da família. Assim como as chamadas viagens de turismo sexual. Por isso, pedimos que os nossos críticos assinem a declaração sobre as novas formas de escravidão, mas até agora não o fizeram.

O porquê deve ser perguntado para eles. Mas os críticos insistem na colaboração tão destacada com Ban Ki-Moon e Sachs...

Estes últimos não se reconhecem nas descrições que foram feitas.

No entanto, a ONU usa uma certa linguagem, na verdade fraudulenta, que abrange práticas como o aborto: pense na expressão "saúde reprodutiva", indubitavelmente inconciliável com a doutrina social da Igreja...

Aqui também é preciso especificar: a ONU nunca aprovou o direito ao aborto. São os nossos núncios que dizem isso.

Lembro-me, a esse respeito, das batalhas na Conferência do Cairo de 1994 pelo então observador permanente junto às Nações Unidas, hoje cardeal Renato Martino... Batalhas vencidas certamente não graças aos Estados chamados progressistas ocidentais, mas em virtude da aliança com diversos países do Leste Europeu e islâmicos...

Exatamente.

Mas, de fato, na sua atividade cotidiana e a despeito do grande compromisso dos diversos núncios apostólicos, a ONU, com as suas agências, favorece o aborto, assim como – para ficar na dramática atualidade – os chamados "casamentos gays" e a ideologia mortífera do gênero. Leia um pouco certos Position Papers, por exemplo da Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância...

Que de fato existem burocratas em favor do aborto e certos países inclinados na mesma direção é verdade. Mas não é verdade que a ONU seja a favor do aborto! É falso continuar dizendo isso.

Sim, mas o conceito de "saúde reprodutiva", utilizado em muitos documentos da ONU, embora não se fale explicitamente de "aborto", é enganoso, esconde a verdade... Você sabe o que escreveu no seu recente livro o cardeal africano Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino? É muito equivocado que a Igreja se permita usar as palavras que são usadas nas Nações Unidas. Temos um vocabulário para expressar aquilo em que cremos...

Certamente, a expressão é ambígua. Mas não se pode dizer que inclua o direito ao aborto, porque a ONU, graças ao trabalho da nossa diplomacia, nunca o reconheceu. Concordo com a observação do cardeal Sarah, mas me pergunto: se a Igreja deve falar disso, como faz?

Mas quando a opinião pública, especialmente ocidental, ouve falar de "saúde reprodutiva", pensa no aborto... Você sabe que, muitas vezes, na nossa sociedade midiaticamente fraudulenta, a percepção torna-se facilmente mais verdade do que a própria verdade...

Mas a Igreja interpreta de forma diferente o conteúdo da expressão "saúde reprodutiva": de acordo com o que foi aprovado nas Nações Unidas, ela não contém o direito ao aborto. As Nações Unidas não têm o direito ao aborto, não têm! Que os burocratas das Nações Unidas sejam a favor do direito ao aborto é outro assunto...

Mas os burocratas são as Nações Unidas!

Os burocratas não são as Nações Unidas. Você entende como são tolos aqueles que dizem certas coisas nos Estados Unidos? Os nossos núncios sempre conseguiram que não houvesse o direito ao aborto! Se nós dizemos que a ONU reconhece o direito ao aborto, fazemos uma coisa estúpida contra a Santa Sé!

Para concluir sobre o assunto, então as grandes polêmicas estadunidenses se baseiam em um colossal mal-entendido?

Não sei qual é a palavra italiana justa para definir a polêmica, mas "mal-entendido" é pouco demais. Aqui, foi preciso mudar as cartas na mesa para diminuir as coisas que estamos dizendo sobretudo sobre o problema do clima. Um dos críticos escreveu que reza por mim. Está bem, eu agradeço, mas lhe pergunto: por que não assina o documento em três línguas (inglês, espanhol e italiano) contra as novas formas de escravidão que está disponível no nosso site?

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