A carne do futuro será a do passado. Consumo de carne cresce em ritmo acelerado e pode se tornar insustentável

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Por: André | 17 Julho 2015

Na coroação da rainha Isabel II, em 1953, foi servido frango, uma ave que pode parecer muito pouco nobre para um momento de pompa como este. Daquela cerimônia nasceu uma das receitas britânicas mais famosas, a Coronation Chicken. A partir de então, o consumo de carne no Ocidente acelerou-se de forma tão espetacular que aquilo que era extraordinário agora é comum. Só entre 1990 e 2012, segundo dados da FAO, o número de frangos no mundo cresceu 104,2%, passando de 11.788 para 24,7 bilhões, e o gado bovino, muito poluidor para o meio ambiente, passou de 1,4 bilhão para quase 1,7 bilhão de cabeças (um aumento de 16,5%). O problema está em saber se o planeta tem condições para suportar este aumento: um estudo de 2013, também da organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura, garante que a produção da carne é responsável por 14,5% das emissões de carbono e que, ao mesmo tempo, nos países desenvolvidos o consumo de carne cresce em torno de 5% ou 6% ao ano. “O gado tem um papel muito importante na mudança climática”, concluía a FAO.

 
Fonte: http://bit.ly/1K8PM6U  

A reportagem é de Guillermo Altares e publicada por El País, 15-07-2015. A tradução é de André Langer.

“A nossa alimentação está baseada em produtos de origem animal e sabemos que sua repercussão ambiental é muito grande”, explica Emilio Martínez de Victoria Muñoz, ex-presidente do Comitê Científico da Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição. “Um quilo de carne é muito menos sustentável que um quilo de verduras”. O antropólogo Jesús Contreras, do Observatório da Alimentação, assinala: “Se todos os habitantes da China consumissem a mesma quantia de carne que nós, seria insustentável. Temos um problema de sustentabilidade, porque mantemos uma alimentação energeticamente muito cara”.

A carne sofreu várias crises. Por um lado, existem os conselhos médicos relacionados ao excessivo consumo de determinadas variedades (suínos, carne vermelha). Por outro lado, como ocorreu com as vacas loucas, há as polêmicas provocadas pelos produtos com os quais se alimenta o gado. Mas o grande problema envolvido em seu consumo tem agora muito mais a ver com o meio ambiente do que com a saúde. A chamada pegada de carbono, que mede os recursos necessários para produzir algo, é gigantesca no caso da carne, tanto que ninguém acredita que se possa manter o ritmo atual. Novamente segundo a FAO, no conjunto dos países desenvolvidos consumiam-se em média 60 quilos de carne em 1964; agora são 95,7 e calcula-se que serão 100,1 em 2030.

O jornalista Andrew Lawyer, que acaba de publicar um livro sobre a história dos frangos, Why did the chicken cross the world?  (Por que o frango cruzou o mundo?), garante não poder calcular o número de aves que são sacrificadas diariamente no mundo: “Não existem estatísticas, mas estou seguro de que são dezenas de milhões. O consumo de frango cresce muito rapidamente. Quanto mais urbanizados são os países, mais ovos e frangos consomem”. A Espanha passou de uma produção de 836 mil toneladas de carne de aves para 1,3 milhão entre 1990 e 2013.

A carne representa uma indústria muito importante na Espanha. Segundo os últimos dados disponíveis da associação de produtores de carne, em 2013 o país exportou 1,57 milhão de toneladas pelo valor de 4,2 bilhões de euros. Com 3,4% da produção mundial, a Espanha é, além disso, o quarto maior produtor de carne suína, atrás apenas da China (que produz 50% da carne suína do mundo), dos Estados Unidos (10%) e da Alemanha (5,3%). Ao mesmo tempo, é o segundo país europeu em produção, representando 16% do total.

Esse mundo industrial, do qual vivem milhares de pequenas economias – basta recordar a crise que houve em Burgos no final de 2014 quando um incêndio destruiu a fábrica de Cantimpalos –, pode ser encontrado na localidade de Cantimpalos, com 1.400 habitantes, 16 indústrias de embutidos e uma produção de chouriço de 42 toneladas em 2013: “O setor de suínos não tem ajudas comunitárias”, explica Pedro Matarranz (foto abaixo), um pequeno produtor. “Este povo vive das indústrias de embutidos, da pecuária ou da agricultura”, afirma.

 
Fonte: http://bit.ly/1K8PM6U  

Sob o calor de julho no planalto da Segóvia, uma visita à sua pequena propriedade mostra as enormes dificuldades do ofício, desde o manejo de cerca de 500 toneladas de esterco ao ano (apesar de que ele utilize sobretudo palha) para transformá-los em adubo até as enormes medidas de segurança alimentar. Também em escala familiar, que beira o artesanal, a carne de porco requer um esforço energético muito grande.

“A alimentação do futuro será a alimentação do passado”, explica Sandro Dernini, assessor da FAO. “A pegada de carbono da produção de proteínas animais é enorme”, assinala. “Este ofício mudou muito pouco em 200 anos”, explica Jesús González Veneros (ver primeira foto), um pecuarista de Ávila, enquanto aponta para as manchas pretas em um morro distante da Sierra de Gredos. Um olho inexperiente é incapaz de distinguir o gado, mas ele o localiza perfeitamente. Para chegar até ali precisa de um cavalo, como seu bisavô, seu avô e seu pai, que também eram criadores de gado. Estas propriedades representam a máxima expressão de uma carne ecológica, da qual depende um ecossistema econômico e social, mas é impossível que por meio deste tipo de propriedade se consiga sustentar a demanda mundial, salvo se reduza drasticamente o seu consumo.

Este problema se coloca, além disso, em um mundo no qual em torno de 900 milhões de pessoas passam fome diariamente. Como assinala a FAO, o setor de carnes enfrenta um desafio impossível de aumentar a produção diante de um crescimento da demanda e da população do planeta e a necessidade de frear ao mesmo tempo as emissões.

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