O papa na América do Sul e a defesa dos bens comuns. Artigo de Alessandro Santagata

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16 Julho 2015

A lição mais importante que Francisco deu com o último discurso aos movimentos sociais diz respeito, principalmente, ao método. Até mesmo o papa, sua santidade, sente hoje que deve descer do seu trono para "acompanhar os povos na sua capacidade de se organizar", para se pôr atrás do próprio rebanho como um companheiro de viagem, antes ainda que como pastor.

A opinião é do historiador italiano Alessandro Santagata, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 15-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"O destino universal dos bens não é um adorno discursivo da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, muito especialmente quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades dos povos. Não basta deixar cair algumas gotas quando os pobres agitam essa taça que nunca derrama sozinha. Trata-se de devolver aos pobres e aos povos o que lhes pertence."

Essas são algumas das palavras mais fortes do discurso proferido pelo Papa Francisco ao Segundo Encontro Mundial dos Movimentos Populares na Bolívia.

Um evento esperado há meses pelos catadores, pelos sem-terra e pelos grupos que animaram a revolta da água de Cochabamba; um encontro que foi precedido pelo encontro com o presidente Morales, símbolo da agitação indígena e intérprete do "socialismo do século XXI".

Neste jornal, a viagem de Bergoglio foi contada e analisada nas suas implicações políticas latino-americanas. Ampliando a perspectiva à luz do sucesso planetário da última encíclica, a força da mensagem do papa parece consistir na capacidade de ir muito além das fronteiras da Igreja e das organizações que gravitam em torno dela e de falar a toda a sociedade ocidental.

Esta última, nas palavras de Habermas e do sociólogo José Casanova, está vivendo hoje a era do "pós-secular": uma espécie de segunda "era axial", em que o religioso voltou a fornecer conteúdos semânticos para o político.

Nessa ótica, é possível explicar o crescente interesse em torno da figura do atual pontífice: um religioso que prega o Cristo ressuscitado a um mundo convencido de que ter resolvido há muito tempo a questão de Deus e que também voltou a se dirigir aos seus representantes na terra em busca de identidade.

À esquerda, em particular, o vazio deixado pela crise do marxismo impulsiona há décadas já em busca de um antídoto ao pensamento fraco e à subalternidade política ao neoliberalismo.

Também por isso, em várias partes, olha-se para a rebelião grega e para o diktat da troika como para uma história de resgate entusiasmante para aqueles que desejam um "contágio político" e uma retomada das palavras de ordem daquele "movimento dos movimentos" do qual também provém o primeiro-ministro grego, Tzipras.

Como se sabe, o Papa Francisco não é um teólogo da libertação, ao menos não em sentido tradicional, mas, como também reconheceu Leonardo Boff, ele parece colocar-se perfeitamente naquele percurso que, do Fórum Social de Porto Alegre, leva a Gênova em 2001 e às lutas pelos bens comuns.

Quando ele afirma que "a casa comum hoje é saqueada, devastada, humilhada impunemente" e que "a covardia na sua defesa é um pecado grave", Bergoglio não se limita, por assim dizer, a reescrever o Catecismo da Igreja Católica segundo as prioridades da ecoteologia de Moltmann, mas avança em um terreno de encontro com todas as pessoas comprometidas com a mudança.

Quando ele denuncia "alguns tratados denominados 'de livre comércio' e a imposição de medidas de 'austeridade' que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres", ele deixa para trás a tradição da caridade integrada ao sistema – aquela que ele chama com desprezo de "indignação elegante" – e coloca claramente os problemas da "globalização dos mercados e da indiferença".

Não, nunca tinha acontecido de se escutar um papa atacar a violência dos bancos, chamar à luta social pelo salário mínimo e se propor como um vetor da mudança social.

Eis, então, que, se realmente se quer uma contaminação política e cultural construtiva à esquerda, esta não pode passar pela busca de um genérico senso de civilidade, como aconteceu nos anos das núpcias com a campanha ratzingeriana contra o "desvio antropológico".

O entusiasmo com a pastoral do Papa Francisco, com o seu discurso crível e acreditado também não deve envolver a remoção dos aspectos indigeríveis da reflexão sobre a "ecologia humana", sobre gênero e sobre a laicidade do Estado em matéria biopolítica e direitos.

Para ficar dentro do raciocínio do pontífice, a mudança está nas mãos dos povos, nas lutas pela água, na desativação franciscana da injustiça proprietária e nas práticas de commoning.

A lição mais importante que Francisco deu com esse último discurso aos movimentos sociais, portanto, diz respeito, principalmente, ao método.

Até mesmo o papa, sua santidade, sente hoje que deve descer do seu trono para "acompanhar os povos na sua capacidade de se organizar", para se pôr atrás do próprio rebanho como um companheiro de viagem, antes ainda que como pastor.

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