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Laudato si': a defesa de um clima mais estável e uma economia mais justa. Artigo de Naomi Klein

Nessa quarta-feira, 1º de julho, na Sala de Imprensa da Santa Sé, foi realizada uma coletiva de imprensa para apresentar a conferência de alto nível intitulada "As pessoas e o planeta em primeiro lugar: o imperativo de mudar de rota", que se realiza nesta quinta e sexta-feiras, 2 e 3 de julho, no Audustinianum, em Roma, organizada pelo Pontifício Conselho da Justiça e da Paz e pela CIDSE (Rede Internacional de ONGs Católicas para o Desenvolvimento, na sigla em inglês).

Publicamos aqui o discurso da ativista canadense Naomi Klein, publicada no sítio da Santa Sé, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É uma honra estar aqui hoje e, especialmente, compartilhar esta plataforma com o cardeal Turkson, que tem feito muito para nos trazer a este momento histórico.

O Papa Francisco escreve desde cedo que a Laudato si' não é apenas um ensinamento para o mundo católico, mas para "cada pessoa que habita este planeta" (n. 3). E eu posso dizer que, como feminista judia secular que ficou bastante surpresa ao ser convidada para o Vaticano, ele certamente falou comigo.

"Não somos Deus" (n. 67), afirma o encíclica. Todos os seres humanos sabiam disso antigamente. Mas, há cerca de 400 anos, avanços científicos vertiginosos fizeram com que alguns pensassem que os seres humanos estavam à beira de saber tudo o que havia para se saber sobre a Terra e, portanto, seriam os "mestres e donos" da natureza, como René Descartes afirmou tão memoravelmente. Era isso, segundo eles, o que Deus sempre quisera.

Essa teoria se manteve por um bom tempo. Mas avanços posteriores na ciência nos disseram algo muito diferente. Porque, enquanto queimávamos quantidades cada vez maiores de combustíveis fósseis – convencidos de que nossos navios porta-contêineres e os jatos-jumbo tinham nivelado do mundo, que nós éramos como deuses – os gases do efeito estufa estavam se acumulando na atmosfera e, implacavelmente, retendo o calor.

E agora somos confrontados com a realidade de que nunca fomos os mestres, nunca fomos os chefes – e que estamos desencadeando forças naturais que são muito mais poderosas do que até mesmo as nossas máquinas mais engenhosas. Nós podemos nos salvar, mas apenas se abrirmos mão do mito da dominação e do domínio, e aprendermos a trabalhar com a natureza – respeitando e aproveitando a sua capacidade intrínseca de renovação e regeneração.

E isso nos leva à mensagem central da interligação no cerne da encíclica. O que as alterações climáticas reafirmam – para aquela minoria da espécie humana que já se esqueceu disso – é que não há uma espécie de relação unidirecional de pura mestria na natureza. Como escreve o Papa Francisco, "nada deste mundo nos é indiferente".

Para alguns que veem a interligação como um rebaixamento cósmico, tudo isso é demais para se suportar. E assim – ativamente encorajados pelos atores políticos financiados pelos combustíveis fósseis – eles optam por negar a ciência.

Mas isso já está mudando com as mudanças climáticas. E provavelmente vai mudar mais com a publicação da encíclica. Isso poderia significar um problema real para os políticos norte-americanos que estão contando com o uso da Bíblia como cobertura para a sua oposição à ação climática. A esse respeito, a viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro, não poderia vir em melhor hora.

No entanto, como a encíclica sublinha com razão, a negação assume muitas formas. E há muitos, ao longo do espectro político e ao redor do mundo, que aceitam a ciência, mas rejeitam as difíceis implicações da ciência.

Eu passei as duas últimas semanas lendo centenas de reações à encíclica. E, embora a resposta tenha sido extremamente positiva, notei um tema comum entre as críticas. O Papa Francisco pode estar certo em relação à ciência – ouvimos – e até mesmo em relação à moral, mas deveria deixar a economia e a política para os especialistas. Eles são os únicos que sabem sobre o comércio de carbono e a privatização da água – dizem-nos – e como efetivamente os mercados podem resolver qualquer problema.

Eu discordo com força. A verdade é que chegamos a este lugar perigoso em parte porque muitos desses especialistas econômicos fracassaram muito conosco, empunhando as suas poderosas habilidades tecnocráticas sem sabedoria. Eles produziram modelos que escandalosamente deram pouco valor à vida humana, particularmente às vidas dos pobres, e deram um valor descomunal à proteção dos lucros das empresas e ao crescimento econômico.

Esse sistema de valores distorcido é o modo pelo qual acabamos chegando aos mercados de carbono ineficazes, em vez de taxas de carbono fortes, e altos royalties de combustíveis fósseis. Foi assim que acabamos com um alvo de temperatura de dois graus que permitiria que nações inteiras desaparecessem – simplesmente porque os seus PIBs foram considerados insuficientemente grandes.

Em um mundo onde o lucro é consistentemente posto acima das pessoas e do planeta, a economia climática tem tudo a ver com ética e moral. Porque, se concordamos que pôr a vida na Terra em perigo é uma crise moral, então cabe a nós agir em consequência.

Isso não significa arriscar o futuro nos ciclos de crescimento e queda do mercado. Isso significa políticas que regulem diretamente quanto carbono pode ser extraído da Terra. Isso significa políticas que nos façam ter 100% de energia renovável em duas a três décadas – e não até o fim do século. E isso significa alocar recursos comuns e compartilhados – como a atmosfera – com base na justiça e na equidade, não na lógico "os vencedores levam tudo".

É por isso que um novo tipo de movimento climático está emergindo rapidamente. Ele se baseia na verdade mais corajosa expressada na encíclica: que o nosso atual sistema econômico está alimentando a crise climática e ativamente nos impedindo de tomar as ações necessárias para impedir isso. Um movimento baseado no conhecimento de que, se não quisermos uma mudança climática descontrolada, então precisamos de uma mudança de sistema.

E, como o nosso sistema atual também está alimentando uma desigualdade cada vez maior, temos uma chance para enfrentar o desafio climático, para resolver várias crises que se sobrepõem de uma só vez. Em suma, podemos mudar para um clima mais estável e uma economia mais justa, ao mesmo tempo.

Esse entendimento crescente é a razão pela qual vocês está vendo algumas alianças surpreendentes e até improváveis. Como, por exemplo, eu no Vaticano. Como sindicatos, grupos indígenas, religiosos e ambientalistas trabalhando mais próximos do que nunca.

Dentro dessas coalizões, não concordamos sobre tudo – não mesmo. Mas entendemos que o que há em jogo é tão importante, que o tempo é tão curto e que a tarefa é tão grande que não podemos nos dar ao luxo de permitir que essas diferenças nos dividam. Quando 400 mil pessoas marcharam pela justiça climática em Nova York, em setembro passado, o slogan era "Para mudar tudo, precisamos de todos".

"Todos" inclui as lideranças políticas, é claro. Mas, depois de ter participado de muitos encontros com os movimentos sociais sobre a cúpula COP em Paris, eu posso relatar isto: há uma tolerância zero para mais um fracasso que possa ser travestido de sucesso diante das câmeras. Até mesmo uma semana depois, quando esses mesmos políticos estarão de volta para perfurar em busca de petróleo no Ártico e para construir mais rodovias e pressionar por novos acordos comerciais que dificultem ainda mais regular os poluidores.

Se a negociação fracassar no sentido de promover reduções às emissões imediatas, proporcionando um apoio real e substancial para os países pobres, então ela será declarada um fracasso. Como deveria ser.

O que devemos sempre lembrar é que não é tarde demais para sair da perigosa estrada em que estamos – que nos leva rumo a quatro graus de aquecimento. De fato, ainda poderíamos manter o aquecimento abaixo de 1,5 grau, se fizéssemos disso a nossa principal prioridade coletiva.

Seria difícil, com certeza. Assim como foi difícil o racionamento e as conversões industriais que já foram feitos em tempos de guerra. Assim como eram ambiciosos os programas antipobreza e de obras públicas lançados no período posterior à Grande Depressão e à Segunda Guerra Mundial.

Mas "difícil" não é o mesma coisa que "impossível". E desistir diante de uma tarefa que poderia salvar inúmeras vidas e evitar tanto sofrimento – simplesmente porque é difícil, caro e exige sacrifício por daqueles dentre nós que mais podem se dar ao luxo de viver com menos – não é pragmatismo.

É uma rendição do tipo mais covarde. E não há nenhuma análise custo-benefício no mundo que seja capaz de justificar isso.

* * *

"Não deixem que o 'perfeito' seja inimigo do 'bom'."

Temos ouvido essas palavras supostamente de pessoas sérias por mais de duas décadas. Durante todo o tempo de vida dos jovens ativistas climáticos de hoje.

E todas as vezes em que uma cúpula da ONU fracassa ao entregar políticas corajosas, juridicamente vinculantes e com base científica, polvilhando promessas vazias de ajudas monetárias reformuladas, nós ouvimos essas palavras novamente.

"Claro que não é o suficiente, mas é um passo na direção certa." "Faremos o trabalho mais difícil da próxima vez." E sempre: "Não deixem que o perfeito seja inimigo do bom."

Isso – é preciso dizê-lo no interior destas paredes sagradas – é puro absurdo. O "perfeito" perdeu o trem em meados da década de 1990, depois da primeira Cúpula da Terra do Rio.

Hoje, temos apenas duas estradas à nossa frente: a "difícil embora humano" e a "fácil embora repreensível".

Aos nossos chamados líderes que preparam as suas promessas para a COP 21 em Paris, tirando o batom e os saltos altos para se vestirem para outra negociação ruim, eu tenho que dizer isto: leiam a encíclica real – e não os resumos, mas a coisa toda.

Leiam-na e deixem-na entrar nos seus corações. A tristeza diante do que já perdemos e a celebração do que ainda podemos proteger e ajudar a florescer.

Ouçam, também, as vozes das centenas de milhares de pessoas que estarão nas ruas de Paris, do lado de fora da cúpula, reunidos simultaneamente em cidades ao redor do mundo.

Desta vez, eles vão estar dizendo mais do que "precisamos de ação". Eles vão estar dizendo: nós já estamos agindo.

Nós somos as soluções: nas nossas demandas de que as instituições renunciem às suas participações em empresas de combustíveis fósseis e as invistam nas atividades que irão reduzir as emissões.

Nos nossos métodos de agricultura ecológica, que dependem menos dos combustíveis fósseis, fornecem alimentos e trabalho saudáveis e retiram carbono.

Nos nossos projetos de energia renovável localmente controlados, que estão diminuindo as emissões, mantendo os recursos nas comunidades, reduzindo os custos e definindo o acesso à energia como um direito.

Na nossa demanda por um transporte público confiável, acessível e até mesmo gratuito, que vai nos tirar de dentro dos carros que poluem as nossas cidades, congestionam as nossas vidas e nos isolam uns dos outros.

Na nossa insistência intransigente de que vocês não podem se chamar líderes climáticos enquanto estiverem abrindo novas e vastas faixas de mar e de terra para a exploração de petróleo, o fracking do gás e a mineração de carvão. Temos de deixar tudo isso onde está, no chão, na terra.

Na nossa convicção de que vocês não podem se chamar de democracia, se estiverem em dívida com os poluidores multinacionais.

Em todo o mundo, o movimento de justiça climática está dizendo: vejam o belo mundo que se encontra do outro lado da política corajosa, cujas sementes já estão dando grandes frutos para qualquer pessoa que se importe em olhar.

Então, parem de fazer do "difícil" o inimigo do "possível".

E unam-se a nós para fazer do "possível" real.

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