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30 Junho 2015

"É importante que a Vida Consagrada aprenda pelas Novas Gerações abrir mão de certa rigidez nas estruturas que não estão a serviço dos pobres", escreve Paulo Suess, assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, relatando a sua participação no Congresso da Vida Religiosa, realizado recentemente em Bogotá, promovido pela Confederação Caribenha e Latino-americana de Religiosos e Religiosas - CLAR.

Eis o artigo.

Entre os dias 18 a 21 de junho, a CLAR(Confederação Caribenha e Latino-americana de Religiosos e Religiosas) reuniu mais de 1.200 pessoas da Vida Consagrada (VC) em Congresso de Bogotá, Colômbia. O tema do evento versava sobre “Horizontes de novidade na vivência dos nossos carismas hoje. – Escutemos a Deus onde a Vida Consagrada clama”. Os horizontes foram descortinados durante esses dias segundo o esquema ver-julgar-agir, agora denominado “clamores”, “convicções” e “compromissos”. O tema foi abordado através de palestras e oficinas que procuravam mostrar as frestas pelas quais hoje é possível sentir o afago de ventos novos da presença de Deus. As sínteses dos mais de 40 oficinas – um feixe de problemas do mundo de hoje - foram acolhidas em dez núcleos temáticos e apresentadas aos plenários no início do dia seguinte. Apesar da multiplicidade dos temas tratados nas oficinas, os organizadores fizeram um grande esforço de não perder o foco do tema: horizontes, novidades, saídas.

Hoje, a Vida Consagrada está atribulada por muitos lados. Dados do Anuário Pontifício da Igreja revelaram, ano por ano, um crescimento estável da Igreja Católica, porém, uma queda do número de homens e mulheres consagrados. De 2000-2008, o número de religiosos no mundo passou de pouco mais de 800.000, em 2000, para 740.000 em 2008. A VC no Brasil é composta por 80% de idosos com mais de 65 anos enquanto a população do Brasil está com pouco mais de 12% de idosos.

Na sociedade secular, o sistema capitalista resolve o enxugamento da máquina, quer dizer, a diminuição de operários, através de uma aceleração do processo de trabalho em função de maiores rendimentos e da competitividade. Na vida consagrada, o próprio Deus parece encarregar-se desse “enxugamento” através de um encolhimento vocacional que perpassa a maior parte de congregações e institutos religiosos.

O fenômeno do encolhimento atravessa comunidades com ênfase radical no despojamento e na encarnação, como atinge fraternidades que levam uma vida mais adaptada aos padrões do mundo secularizado e do conservadorismo de classes tradicionalistas. As causas são múltiplas e complexas: a diminuição dos filhos nas famílias, a migração do campo para a cidade, o imediatismo da cultura contemporânea com mudanças rápidas de cenários, com ofertas imediatas e certo desprezo por compromissos a longo prazo. Secularização, individualismo e relativismo são outros fatores da cultura moderna que contribuem para a configuração da crise da VC.

Guiado por necessidades e opções, o lado positivo dessas pressões permitiu melhor “escutar Deus, onde a vida clama” (cf. tema e Mensagem final do evento) e aponta para três sujeitos e áreas de presença: o mundo leigo (a), a periferia dos pobres (b) e as gerações novas (c).

a) O hospital e o grande colégio da Congregação ou da Ordem, que no passado prestaram bons serviços e garantiram o sustento para a atuação em áreas mais pobres, hoje passam progressivamente às mãos de leigos e ao estado laical, sem vínculo com a Vida Consagrada. As grandes obras sempre serviram mais às elites do que aos pobres. Com menos obras, consagrados e consagradas estão livres para a evangelização e a realização de uma Igreja em saída (EG 46).

b) A passagem das grandes obras administradas pela VC para a administração pública ou a gestão privada, geralmente, não é uma opção. Muitas vezes, é uma passagem forçada e dolorosa na qual é possível experimentar o desígnio de Deus que quer a VC livre para outros serviços nas periferias, para avançar na opção de uma Vida Religiosa pobre para os pobres. A VC está prestes a dar um adeus ao status de classe média.

Desde os primórdios da conquista espiritual das Américas e em suas fases de prosperidade e expansão, a VC dividiu-se entre acompanhamento dos conquistados e presença entre os conquistadores, entre serviços aos pobres e serviços aos abastados. Nas aldeias indígenas, os primeiros jesuítas aprenderam a ser Igreja inculturada, missionária, pobre e militante. Nos colégios adaptaram-se às demandas da classe dominante. Trabalharam como educadores a serviço dos conquistadores e dos colonos que já eram iniciados na fé de sua classe social e dispensaram grandes esforços de inculturação.

c) A partir da situação geral da VC é compreensível que participação e posicionamento das Novas Gerações ganharam destaque como “fato significativo” (cf. Mensagem final). O núcleo temático “Novas Gerações”, com cinco oficinas, “reconheceu sua componente utópica positivamente como chave de reforma em consonância com a utopia de Jesus: o Reino”, capaz de “gerar novos horizontes e motivar compromissos”.

É importante que a VC aprenda pelas Novas Gerações abrir mão de certa rigidez nas estruturas que não estão a serviço dos pobres. Mas é importante também não substituir o antigo autoritarismo dos idosos pelo culto às Novas Gerações com que a mídia televisiva nos tenta distrair dos verdadeiros problemas do mundo de hoje.

É fundamental manter um diálogo sincero com as Novas Gerações, que batem na porta dos noviciados ou dos seminários, para saber se além do canto e da beleza das roupas litúrgicas, amam também os pobres que, às vezes, não são bons nem belos.

Às Novas Gerações, que chegaram um dia antes em Bogotá, numa espécie de pré-congresso, eu perguntei no meu coração: Será que são capazes de amar em suas casas religiosas os velhinhos e as velhinhas que eram a maioria entre os participantes do Congresso? Em 2050, na América Latina, o número de pessoas com mais de 80 anos de idade será quatro vezes maior que agora, e o dinheiro em caixa da comunidade, certamente, vai ser muito menos do que hoje.

Provavelmente, a velhice das Novas Gerações de hoje, amanhã, será menos confortável. 

O Congresso questionou a autorreferencialidade da Vida Consagrada, lastimou as amarras de estruturas rígidas e considerou as contribuições das Novas Gerações sementes que devem passar da teoria à prática (Mensagem final, n. 6). De certa maneira aconteceu essa passagem nos dias que seguiram ao Congresso, de 22 a 24 de junho, nos dias em que uns 80 delegadas e delegados da Clar realizaram sua XIX Assembleia Geral. Estes, a partir da força missionária de seus carismas, procuravam situar a Vida Consagrada (VC) nos grandes conflitos causados pela degradação da vida no mundo de hoje (cf. Mensagem da XIX Assembleia).

A Assembleia fez a opção por:

- uma VC mais humanizada e humanizadora,
- uma vida em comunhão fraterna como respostas a uma sociedade violenta e desintegradora,
- um cuidado carinhoso com a criação como parte da vocação religiosa,
- uma credibilidade da própria pobreza junto aos grupos mais vulneráveis, particularmente ao lado dos imigrantes, afrodescendentes e povos indígenas,
- uma eclesiologia de diálogo como caminho para a paz, uma evangelização encarnada, e uma missão partilhada entre diferentes congregações e com os leigos,
- uma acolhida das contribuições das Novas Gerações,
- uma assimilação da espiritualidade trinitária e mística profética.

Ao despedir-me dos congressistas, antes do início da Assembleia da Clar, queria dizer algo que, na noite anterior, tinha escrito como lembrete: “Não esqueçam o melhor: a Trindade e a Páscoa, os mártires e os pobres, a comunidade e o despojamento, a misericórdia e a alegria!” Com a memória da recente beatificação de Mons. Óscar Romero e a assunção vigorosa da encíclica Laudato Si, do papa Francisco, a Assembleia da Clar celebrou sua Páscoa, e a Vida Consagrada, tantas vezes declarada sem futuro, renasceu como Igreja em saída, martirial e militante - cantando ao sol.

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