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25 Junho 2015

"O papa expressa a profunda preocupação com que muitas injustiças das econômicas baseadas no mercado, junto da degradação ambiental, tem os seus mais impactos graves recaindo sobre pobres e vulneráveis.", comenta Tony Magliano, jornalista, colunista de temas de justiça social e paz, em artigo publicado pelo National Catholic Reporter, 22-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

É corajoso, é profético, é desafiador, é holístico, é maravilhoso: É isso o que penso da encíclica ambiental “Laudato Si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum”.

Citando o seu santo padroeiro, São Francisco de Assis, que também é o santo padroeiro da ecologia, o Papa Francisco começa a sua carta papal com um belo verso de Cântico das Criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

“Neste gracioso cântico, [São Francisco de Assis] recordava-nos”, diz o papa, “que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços. (…)

“Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la”.

O Papa Francisco explica: “Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrônicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioativos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”.

O Santo Padre, em seguida, passa a analisar as mudanças climáticas. Ignorando as fracas afirmações científicas daqueles que negam que o clima está mudando e que a Terra está se aquecendo principalmente por causa da poluição humana, ele escreve: “Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático”.

Realmente, o consenso científico é muito consistente. De acordo com a NASA, “97% ou mais dos cientistas do clima que estão ativamente publicando hoje concordam: as tendências do aquecimento climático ao longo do século passado muito provavelmente se devem à atividade humana”.

O Papa Francisco continua: “Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos (…) A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento”.

“Isto é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis” – ou seja, carvão, petróleo e gás.

O papa pede, com urgência, por uma conversão mundial do uso destes combustíveis fósseis para “energias limpas e renováveis” – eólica, solar e geotérmica.

“As mudanças climáticas são (…) atualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento”. Por exemplo, “é trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental”.

“O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultivações”, escreve Francisco.

“Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas”.

Repreendendo algumas empresas multinacionais que operam em países economicamente subdesenvolvidos, Francisco escreve: “Geralmente, quando cessam as suas atividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar”.
Francisco então volta a sua atenção para a escassez crescente de água potável, especialmente na África, e para a poluição irresponsável da água existente. Ele escreve sobre a sua preocupação com a privatização da água: “[tornando-a] uma mercadoria sujeita às leis do mercado”.

“Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável”, diz Francisco.

O papa expressa a profunda preocupação com que muitas injustiças das econômicas baseadas no mercado, junto da degradação ambiental, tem os seus mais impactos graves recaindo sobre pobres e vulneráveis.

Escreve ele: “O esgotamento das reservas ictíicas prejudica especialmente as pessoas que vivem da pesca artesanal e não possuem qualquer maneira de a substituir, a poluição da água afeta particularmente os mais pobres que não têm possibilidades de comprar água engarrafada, e a elevação do nível do mar afeta principalmente as populações costeiras mais pobres que não têm para onde se transferir”.

Francisco tenta despertar as consciências, especialmente os econômica e politicamente poderosos, para a situação dos pobres.

Escreve que, em discussões políticas e econômicas, os pobres parecem constituir um assunto de uma reflexão tardia. “Com efeito, na hora da implementação concreta, permanecem frequentemente no último lugar”.

Francisco astutamente observa que viver estilos de vida confortáveis, distantes dos pobres, muitas vezes ajuda a “cauterizar a consciência” e a ignorar partes da realidade com uma análise tendenciosa. “Isto, às vezes, coexiste com um discurso ‘verde’. 

“Mas, hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”.

Ao tratar da conexão entre a degradação ambiental e a guerra, Francisco escreve: “É previsível que, perante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favorável para novas guerras”.

Além de destacar o dever de cada um de nós no cuidado da natureza, o Papa Francisco diz que a Igreja deve “sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo”.

O Santo Padre vê o problema ambiental como parte de um problema muito maior, mais sério: o nosso fracasso em reconhecer, de forma consistente, a verdade de que tudo e todos estão interligados.

Ele explica: “Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância dum pobre, dum embrião humano, duma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos –, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado”.

“Uma vez que tudo está relacionado, também não é compatível a defesa da natureza com a justificação do aborto”, escreve.

O papa vê em São Francisco um exemplo perfeito de alguém que compreendeu plenamente a nossa interconexão.

Ele escreve que São Francisco era um “místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.

O Papa Francisco deu ao mundo um grande presente. Com uma visão sábia, ele traçou para nós a verdade da nossa interconexão com toda a criação – não só na teia ecológica da vida, mas como pessoas que compartilham uma natureza humana e, espiritualmente, como irmãos e irmãs unidos a Deus, pai de tudo.

No entanto, porque nós continuamos ignorando a necessidade essencial de nutrir esta interconexão, a teia ecológica, social e espiritual está se resgando.

Mas, se nos preocuparmos realmente, ainda teremos tempo para consertar.

A qualquer um que esteja interessado em fazer parte da solução, a encíclica “Laudato Si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum” é leitura obrigatória!

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