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23 Junho 2015

É mais fácil que um papa e a Igreja aceitem o progressismo social do que a mudança das relações entre os humanos. Ele pode aceitar, na misericórdia, os homossexuais, mas não a comunidade LGBT. Pode falar do valor das mulheres, criticar a violência contra elas, mas não reconhecer a sua autodeterminação.

A opinião é da jornalista italiana Bia Sarasini, em artigo publicado no sítio TheHuffingtonPost.it, 19-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há algo que não fecha. Que relação existe entre a grande encíclica social do Papa Francisco, Laudato si', e a guerra que os católicos declararam contra a ideologia de gênero, contra a qual se manifestaram no domingo, em Roma, na Praça de São João?

Em muitos aspectos, a ideologia de gênero parece ter tomado o lugar que, no passado, era ocupado pelo "comunismo", como forma de pensamento da modernidade a ser combatido a todo o custo. Como se hoje que, na encíclica, o Papa Bergoglio escreve, dentre outras coisas: "Os povos pagaram o resgate dos bancos", não houvesse mais o fantasma do inimigo social para assustar. Embora as reações ao texto papal testemunhem mais do que uma dificuldade. Além disso, o tom e as argumentações que ele assume não são a moeda corrente das elites contemporâneas.

Até o Papa Francisco, recentemente, falou da ideologia de gênero como de uma "colonização ideológica", como "expressão de frustração", como um apagamento da diferença sexual. E aqui está a questão.

Porque a diferença sexual da qual fala o Papa Francisco é concebida como dada na natureza, objetiva, sem discussão. O então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger, já tinha escrito sobre isso em 2004 na Carta aos bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo, um texto que está na base das elaborações posteriores. E em que o gênero é identificado como inimigo, uma forma de feminismo hostil. Como as grandes teóricas, Judith Butler mas também Simone de Beauvoir, e a sua famosa frase "não se nasce mulher, torna-se".

O que é, de fato, a teoria do gênero? Nas versões mais histéricas, parece haver uma conspiração universal para fazer com que os "meninos cresçam como meninas". Com o contrário, meninas que crescem como meninos, é evidente que ninguém se preocupa muito.

Com efeito, não existe uma "teoria do gênero". Existem estudos, posições políticas sobre o gênero, ou seja, sobre o gênero sexual, sobre como ele está ou não em relação com o corpo, os sexos, a identidade.

Depois, há os e as transgêneros, isto é, as pessoas que o profundo e doloroso desconforto por se encontrarem vivendo em um corpo e um sexo que não corresponde ao seu sentimento, decidem mudar de sexo. E há, obviamente, o reconhecimento dos direitos das pessoas homossexuais, incluindo o casamento.

Então, por que contrapôr gender e diferença sexual? É como assimilar o sexo à natureza, sem adjetivos. Em poucas palavras, mesmo aqueles que, como eu, como feminista, pensam que a diferença sexual é central, veem-na como uma relação – entre corpos de mulheres e de homens, desejos, construções sociais – e não como um puro fato da natureza.

Em suma, é mais fácil que um papa e a Igreja aceitem o progressismo social do que a mudança das relações entre os humanos. Ele pode aceitar, na misericórdia, os homossexuais, mas não a comunidade LGBT. Pode falar do valor das mulheres, criticar a violência contra elas, mas não reconhecer a sua autodeterminação.

Isso me traz à mente toda a antiga mentalidade da esquerda, dos homens de esquerda. Prontos para derrubar o capitalismo, mas tão intimamente patriarcais. Ainda hoje. Como mulher e feminista, isso me desagrada. Devo aceitar que o Papa Francisco, a única autoridade que hoje tem um olhar não conformista sobre o mundo, não tem palavras para mim, para nós.

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