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Por: André | 17 Junho 2015

Desde 2011 o movimento cidadão não parou de formar redes solidárias que atendem às necessidades básicas que o sistema público deixou a descoberto, efeito das políticas de ajuste.

A reportagem é de Flor Ragucci e publicada por Página/12, 15-06-2015. A tradução é de André Langer.

Enquanto acompanha de perto os movimentos entre Syntagma e Bruxelas, o povo grego não deixa de se ajudar mutuamente para sobreviver. Para enfrentar os efeitos devastadores da austeridade imposta pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) e pelos governos anteriores, a população se organizou em múltiplas redes solidárias que garantem o que o Estado já não pode mais oferecer: saúde, alimentação, moradia, educação.

A Grécia é o Estado da União Europeia com maior número de habitantes abaixo da linha da pobreza (23% da população) e sua taxa de desemprego – que é de 26% e beira os 60% entre os jovens – aumentou 273,7% desde que começaram a ser sentidos os efeitos do programa de resgate. Os severos cortes em gasto público que o Banco Central Europeu, o FMI e os países membros da União Europeia impuseram como condição deixaram um amplo setor da sociedade em risco, que perdeu, além do trabalho, seu direito à assistência médica e às pensões.

As primeiras reações em massa contra as políticas de austeridade aconteceram no verão de 2011 com milhares de pessoas ocupando as principais praças do país e, a partir de então, o movimento cidadão não deixou de se expandir. A emergência disparou também a solidariedade e, conscientes das fissuras do atual sistema democrático, pessoas de todas as idades se encontraram – depois das praças – em assembleias de bairro para encontrar uma alternativa para o debate. Cooperativas, clínicas e farmácias sociais, lojas solidárias, bancos de tempo (usam moedas alternativas) ou campanhas antidespejos (contra os despejos) começaram a fiar ali um resistente tecido social que hoje, quatro anos depois, segue mantendo em pé um povo que cada vez mais procura se auto-abastecer.

As redes de saúde

“Eles te dão guarda-chuva quando faz sol e tiram-no quando começa a chover”, queixa-se Neny, dentista que trabalha como voluntária na The Athens Community Polyclin and Pharmacy (ACP&P), uma das 40 clínicas sociais que funcionam atualmente na Grécia. Neny qualifica de absurdas as medidas que excluíram mais de três milhões de pessoas da segurança social por terem perdido o emprego e menciona-as como fator determinante para a criação desta rede de centros médicos que – abertos pela própria população – agora tentam suprir a carência do sistema público.

Quando nasceu a primeira clínica solidária, em 2011, o propósito era cuidar de imigrantes indocumentados e refugiados que não dispunham de cobertura sanitária. Mas já em 2012 a exclusão do sistema de saúde pública converteu-se em um fenômeno massivo e os centros comunitários começaram a receber também centenas de pacientes gregos. Transbordados pela demanda, médicos, enfermeiros, dentistas e outros voluntários puseram mãos à obra e criaram em menos de três anos uma verdadeira rede de clínicas por todo o país, passando de apenas três, em setembro de 2012, para as atuais 40.

Na região de Atica – que tem Atenas como capital, a mais populosa da Grécia –, são 750 os voluntários que diariamente dedicam grande parte do seu tempo para colaborar em algum dos 16 centros que ali funcionam. Neny, por exemplo, tem 62 anos, está aposentada e agora coordena a área de odontologia da ACP&P, clínica que se situa justamente atrás da Prefeitura de Atenas. “Temos todas as especialidades – ginecologistas, otorrinos, psicólogos cirurgiões, etc. – e as que nos faltam conseguimos graças à colaboração de hospitais privados”, conta Neny. “Muitos médicos que trabalham ali – também outros profissionais, inclusive diretores – nos apóiam e aceitam gratuitamente pacientes que lhes mandamos”, relata.

A ajuda vai e vem. Em um sistema sanitário público quebrado, onde o gasto com saúde foi reduzido 56% desde 2009 e os impostos sobre os medicamentos aumentaram 70%, os hospitais já não dispõem do material necessário para os tratamentos e muita gente também não dispõe do dinheiro necessário para comprá-los. Diante disso, as campanhas de coleta de medicamentos realizadas pela rede de farmácias solidárias tiveram tanto sucesso que não abastecem apenas as clínicas sociais de remédios, mas também proporcionam remédios para os centros estatais. “Nós mandamos remédios contra o câncer para vários hospitais porque sobravam!”, exclama Neny, emocionada com a resposta em massa da população.

As clínicas e farmácias solidárias são mantidas graças às doações privadas – que chegam, inclusive, do exterior – e ao voluntariado de centenas de profissionais que, uma vez terminado o seu expediente de trabalho, vão até os centros para atender o fluxo constante de pessoas que ali solicitam assistência. Calcula-se que somente nos 16 centros da região de Atica, recebe-se cerca de dois mil pacientes por clínica/mês, e Eleni, a recepcionista da ACP&P, comprova isso mostrando um livro de consultas que não tem um único horário vago em dezenas de páginas.

“Há cada vez mais demanda de psiquiatras e psicólogos, sobretudo infantis, porque as crianças sofrem muito ao não ver futuro para seus pais”, relata Neny. Tanto a dentista como o resto dos colaboradores da clínica ateniense mostram-se verdadeiramente comovidos com o drama humanitário que os cerca, mas, ao mesmo tempo, não perdem a esperança de que algo possa mudar com o Syriza na presidência. “O novo governo declarou que não vai tomar mais medidas de austeridade e eu não sei o que vai acontecer com as negociações, mas creio que o Tsipras tem um compromisso honesto”, confessa Neny. “Devemos apoiá-lo e aguentar até que possa proporcionar novamente às pessoas os direitos sociais”.

As redes de alimentos

Para recuperar a economia de um país que, em tão somente cinco anos, viu como um quinto da sua população ficou com suas necessidades básicas sem ser atendidas, a busca de um comércio justo, com preços mais baixos para os consumidores e melhores condições para os produtores, não parece ser uma má ideia. Assim o pensaram – e o vêm fazendo desde 2012 – os 45 grupos de distribuição “sem intermediários” que funcionam em toda a Grécia.

Tonia Katerini, arquiteta e desempregada de longa duração (como a maioria dos arquitetos neste país, segundo ela mesma aponta), faz parte de um comércio que, em Exarchia, bairro popular do centro de Atenas, vende mais de 300 produtos adquiridos junto a produtores locais por um preço 25% maior do que aquele que receberiam se entregassem seus produtos aos supermercados e são oferecidos ao público por um preço 25% menor que aquele dos grandes negócios. “Contatamos diretamente com os produtores, sem intermediários, e criamos cadeias de distribuição alternativas – além de não usarmos publicidade nem embalagens caras –, o que nos permite oferecer preços mais baixos que o restante do mercado”, explica Tonia.

Embora o principal objetivo seja que todos possam ter acesso a alimentos básicos de boa qualidade, Katerini insiste em que a importância deste tipo de projeto está, sobretudo, na “criação de um novo tipo de sociedade, ao fomentar a produção e o consumo responsáveis”. Eles mesmos se aproximam dos produtores para assessorar os trabalhadores em técnicas mais respeitosas com o meio ambiente, ao mesmo tempo em que se encarregam de explicar à população por que é conveniente apoiar os produtores gregos.

Por outro lado, estes pontos de venda funcionam como cooperativas que, apesar de serem constituídas majoritariamente por voluntários, dada a sua crescente popularidade, começam a ver também seus frutos como criadores de emprego. “Agora temos um pouco de lucro e podemos pagar o primeiro trabalhador full time”, conta orgulhosa Tonia, que entende que o comércio sem intermediários ajuda assim a recuperar o tecido produtivo do país.

Cada agricultor que participa destas cooperativas deve doar entre 2% e 5% de suas vendas diárias para pessoas sem recursos e, desta forma, 2.169 famílias estão atualmente enchendo sua cesta. Além disso, a auto-organização cidadã se paga e dá um ponto a mais em sua rede também graças à contribuição do comércio justo.

Plataforma promovida pelo Syriza

Num aparelho estatal praticamente extenuado, a chegada de novas forças políticas às vezes pode ser revitalizante. O Syriza, ao menos, tenta. Desde que em 2012 entrou no Parlamento e como forma de apoio às cerca de 200 redes cidadãs que então existiam em toda a Grécia, decidiu que seus deputados doariam uma porcentagem do seu salário para a criação de um fundo solidário.

Foi assim que surgiu a Solidarity for All (S4A), uma estrutura que pretende ser um ponto de encontro para todos os movimentos cidadãos que trabalham na reconstrução social do país, assim como uma forma de dar-lhes visibilidade social. “Em outubro de 2012 fizemos uma chamada geral às pessoas em diversas cidades da Grécia para que se vinculassem às redes solidárias e organizassem grandes encontros para a criação deste espaço facilitador de iniciativas, para proporcionar documentação e assessoria e começar a encontrar lugares físicos onde nos reunir, com o objetivo de tornar este trabalho comunitário mais efetivo”, explica Christos Giovannopoulos, membro do Solidarity for All. “Nós não coordenamos nem representamos nenhum coletivo ou partido em particular – acentua Christos. Esta plataforma é fruto da confluência das necessidades das redes solidárias e da proposta do Syriza de criar este fundo econômico para ajudar a nos manter”.

Diante da crítica de certos setores, que acusam a S4A de mera base de captação de votos, Giovannopoulos defende que o propósito do Syriza nunca foi o de criar sua própria organização solidária, mas o de “promover a ideia da auto-organização da sociedade, aberta a todos”. Por isso, os fundos de que dispõem são utilizados apenas para os salários de meia dúzia de trabalhadores que administram a plataforma a partir de um escritório no centro de Atenas e para cobrir as necessidades pontuais dos diversos coletivos, ao passo que o resto se mantém com doações e trabalho voluntário. “Assim, se estes fundos acabarem ou forem cortados, o movimento solidário não se verá afetado significativamente e poderá continuar funcionando como antes”, defende Christos. “O objetivo é que os grupos permaneçam independentes e não se tornem dependentes do dinheiro que venha do centro”.

Outra função da Solidarity for All é a de estar atenta aos novos focos de emergência que continuam surgindo em consequência da crise humanitária que eclodiu em decorrência das políticas de austeridade. “Se detectamos um problema, organizamos assembleias para abordá-lo e fazer algo a respeito. Foi assim, por exemplo, que nasceu a campanha contra os despejos e a perda da moradia por falta de pagamento de aluguéis, para a qual tomamos como modelo as PAH (Plataforma dos Afetados pelas Hipotecas) espanholas”, relata Giovannnopoulos.

Também recorda muito especialmente como o marcaram, nos anos posteriores a 2001, as notícias que lhe chegavam da Argentina, e confessa inclusive que o documentário de Pino Solanas Memória do saque (2004) foi para ele determinante em sua trajetória no ativismo social. “Enquanto via essas imagens da crise na Argentina nem me ocorria que aqui algum dia poderia acontecer o mesmo”, reflete Christos. “Nós sempre os temos presente e seu país é uma referência em solidariedade e luta”.

No longo prazo, a iniciativa do Syriza procura desenvolver um novo paradigma de fazer política e de resolver as necessidades básicas, “obter a mudança social, antes que a política”, segundo declara o porta-voz da S4A. “Queremos promover novas formas de organização e de participação que depois possam ser generalizadas para o âmbito público e para o funcionamento do Estado”, afirma.

Trata-se de um longo caminho, no qual a macro-estratégia dos 400 coletivos que atualmente trabalham com a contribuição da S4A está muito clara, mas também as duras limitações com as quais se defrontam para levá-la adiante. “Agora estamos aguardando os desdobramentos das negociações com a Troika. Se eles fecharem a torneira e não tivermos mais dinheiro, possivelmente estas estruturas solidárias vão se tornar ainda mais organizadas”, prevê Christos Giovannopoulos, que recorda que o primeiro slogan que os lançou às praças – “Não deixar ninguém sozinho na crise” – continua a inspirá-los.

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