O acesso à alimentação é um direito, diz Francisco aos representantes da FAO

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Por: André | 12 Junho 2015

Devemos responder “ao imperativo de que o acesso à alimentação necessária é um direito de todos”. O Papa Francisco dirigiu-se desta maneira aos participantes da 39ª sessão da Conferência da FAO, que está acontecendo em Roma de 06 a 13 de junho. A poucos dias da publicação da sua encíclica ecológica Laudato Si, no próximo dia 18 de junho, Jorge Mario Bergoglio encorajou para o compromisso “de modificar os estilos de vida”, porque “é evidente” que a “sobriedade” converteu-se em uma “condição” para o desenvolvimento. Indicou que entre os problemas que precisam ser enfrentados estão a “mudança climática” e a “especulação financeira”, e exortou países, governos e organizações internacionais para não “desertar” nem “delegar” as próprias responsabilidades.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 11-06-2015. A tradução é de André Langer.

O Papa recordou a própria participação na Segunda Conferência Internacional sobre a Nutrição, que aconteceu no dia 20 de novembro passado, e recordou que nessa sede os Estados se comprometeram a encontrar soluções e recursos: “Espero – disse – que aquela decisão não fique apenas no papel ou nas intenções que orientaram as negociações, mas que prevaleça decididamente o sentido da responsabilidade em procurar responder de forma concreta aos famintos e a todos aqueles esperam do desenvolvimento uma resposta à sua condição”.

Vemos em todas as partes aumentar, destacou Francisco, “o número daqueles que com muita fadiga conseguem ter alimentos regulares e saudáveis”, mas “em vez de agir preferimos delegar, em todos os níveis. E pensamos: ‘Haverá alguém que vai se ocupar disso, quem sabe lá aquele país o então aquele determinado governo, aquela Organização Internacional’. A nossa tendência a ‘desertar’ perante temas difíceis é humana. Mais, é uma atitude que muitas vezes preferimos privilegiar, mesmo se depois não faltamos a nenhuma reunião, a nenhuma conferência ou à redação de um documento”.

“Pelo contrário, devemos responder ao imperativo de que o acesso à alimentação necessária é um direito de todos. E os direitos não permitem exclusões!”, insistiu o Papa. “Não basta fazer o estado da questão sobre a nutrição no mundo, embora a atualização dos dados seja necessária, porque nos mostra a dura realidade na qual vivemos. Pode consolar-nos saber que aquele um bilhão e 200 milhões de famintos que havia em 1992 diminuiu, mesmo com uma população mundial em pleno crescimento. Mas, é de pouca utilidade tomar nota dos números ou também projetar uma série de compromissos concretos  e de recomendações que devem ser aplicadas nas políticas e nos investimentos, se descuidamos a obrigação de ‘erradicar a fome e prevenir qualquer forma de desnutrição em todo o mundo’”, disse Francisco citando a Declaração de Roma sobre a Nutrição.

Em seguida, o Papa enfrentou a dramática questão do desperdício e do fato de que uma boa quantidade de produtos agrícolas “são utilizados para outras finalidades, talvez finalidades boas, mas que não são a necessidade imediata de quem passa fome. Perguntemo-nos então: o que podemos fazer? Mais ainda: o que eu estou fazendo?” É preciso começar pelo compromisso de “modificar os estilos de vida”, porque, “talvez, necessitamos de menos recursos”: “A sobriedade não se opõe ao desenvolvimento; agora se vê claramente que se converteu em uma condição para o mesmo”.

E Francisco identificou múltiplas causas desta situação: “Preocupa-nos justamente a mudança climática, mas não podemos esquecer a especulação financeira: um exemplo são os preços do trigo, do arroz, do milho, da soja, que oscilam nas Bolsas de Valores, às vezes vinculadas a fundos de renda e, portanto, quanto maior for sua cotação maior é o ganho do fundo. Também aqui, tratemos de seguir outro caminho, convencendo-nos de que os produtos da terra têm um valor que podemos dizer ‘sagrado’, já que são o fruto do trabalho diário de pessoas, famílias, comunidades de agricultores. Um trabalho muitas vezes dominado pelas incertezas, pelas preocupações com as condições climáticas, pelas ansiedades com a possível perda da produção”.

O Papa criticou a “resignação genérica, o desinteresse e até a ausência de muitos, inclusive dos Estados. Às vezes, tem-se a sensação de que a fome é um argumento impopular, um problema insolúvel, que não encontra soluções no arco de um mandato legislativo ou presidencial e, portanto, não garante consensos”. E esta atitude é provocada pela “falta de vontade de assumir compromissos vinculantes, já que nos escudamos atrás da questão da crise econômica mundial e da ideia de que em todos os países há fome: ‘Se há famintos no meu território, como posso pensar em destinar fundos para a cooperação internacional?’ Mas assim se esquece que, se em um país a pobreza é um problema social que pode ser solucionado, em outros contextos é um problema estrutural e não bastam as políticas sociais para enfrentá-los”.

Esta atitude, explicou o Pontífice argentino, “pode mudar se colocarmos novamente no coração das relações internacionais a solidariedade, transpondo-a do vocabulário às opções da política: a política do outro. Se todos os Estados membros trabalham pelo outro, os consensos para a ação da FAO não vão demorar a chegar e, mais ainda, se descobrirá novamente a sua função originária, esse ‘fiat panis’ que figura em seu emblema”. Para isso, são fundamentais “a educação das pessoas para uma correta dieta alimentar”, a necessidade de “rever os modelos de comportamento para garantir, agora e no futuro, o acesso de todos à água, indispensável para as suas necessidades e para as atividades agrícolas”, e enfrentar o problema do “monopólio das terras produtivas por parte de empresas transnacionais e Estados, que não priva apenas os agricultores de um bem essencial, mas que afeta diretamente a soberania dos países”, problema que deve ser enfrentado fortalecendo as empresas familiares locais e criando legislações justas do uso e da propriedade da terra.

“Trabalhemos para harmonizar as diferenças e unir esforços e, assim, já não precisamos mais ler que a segurança alimentar, para o Norte, significa eliminar gorduras e favorecer o movimento e que, para o Sul, consiste em proporcionar ao menos uma refeição por dia”, concluiu o Papa Francisco. “Devemos partir do nosso dia a dia se quisermos mudar os estilos de vida, conscientes de que nossos pequenos gestos podem garantir a sustentabilidade e o futuro da família humana. E sigamos depois a luta contra a fome sem segundas intenções”.

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