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10 Junho 2015

"Não aprovar uma cátedra não interfere na liberdade de ensino, pesquisa ou extensão. Não homenagear uma pessoa é bem diferente de censurá-la", escreve Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, comentando o artigo de Vladimir Safatle, filósofo, que descreveu como obscurantista a decisão da PUC-SP da não criação da Cátedra Michel Foucault, em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 02-06-2015.

Eis o artigo.

Vladimir Safatle, em coluna nesta Folha em 12 de maio, refere-se ao "obscurantismo" da PUC-SP, sugerindo que ela proibiria o ensino de Michel Foucault, Friedrich Nietzsche e de outros autores com posições contrárias à igreja. Tal veto, no entanto, não existe nem está sendo cogitado. Ao contrário, há mais de 20 anos se ensinam e se pesquisam, na PUC-SP, as ideias de Michel Foucault. E assim será no futuro.

Foucault teve uma postura crítica tanto ao pensamento católico como à instituição eclesial. Mas a Universidade Católica deve ser um lugar onde a fé cristã dialoga com a cultura acadêmica, e não onde ela é imposta a essa cultura.

O que aconteceu, gerando muito espalhafato, é que o Conselho Superior da mantenedora, agindo dentro das normas estatutárias, sem nenhum "golpismo" ou coisa semelhante, não aprovou a criação de uma Cátedra Michel Foucault.

Esse conselho, agindo dentro de suas atribuições, entende que as cátedras sejam nomeadas e dedicadas a personalidades que tenham afinidade com o pensamento católico. Foucault não se encaixa e nem gostaria se encaixar nesse perfil.

Uma informação para o leitor que está menos familiarizado com o universo acadêmico: na atual estrutura das universidades brasileiras, cátedras são entes honoríficos, com pequena função prática. As instâncias com atuação real são as disciplinas - no ensino -, os grupos de pesquisa e os núcleos - na pesquisa e na extensão.

Não aprovar uma cátedra não interfere na liberdade de ensino, pesquisa ou extensão. Deixar de homenagear uma pessoa é muito diferente de censurá-la. Não homenagear um autor que sempre foi crítico e até agressivo à igreja, mas ainda assim manter o seu estudo e a sua memória viva é sinal de abertura e diálogo, não de obscurantismo.

Essa cátedra estava associada a uma doação de materiais de Foucault para a PUC-SP e a um intercâmbio entre universidades de vários países. Cabe à universidade manter o compromisso, garantindo as condições de pesquisa, a preservação da memória e o suporte às atividades previstas nos intercâmbios.

Por outro lado, o temor pela censura interna, justa ou injusta, com ou sem bases razoáveis, é um fato. Como tal, exige gestos e esforços internos de diálogo e aproximação para que este medo seja eliminado.

O cardeal de São Paulo, d. Odilo Scherer, presidente da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP, recebeu uma comissão de professores responsáveis pela pesquisa sobre Foucault e lhes reafirmou o princípio da liberdade de estudo e pesquisa e lhes tranquilizou quanto à continuidade de suas atividades. No entanto, reafirmou a decisão tomada pelo conselho.

O caso gerou celeuma fora da PUC-SP não porque a identidade católica seja obscurantista. Pelo contrário, o debate ocorre justamente porque a igreja sempre soube se renovar e, a partir de sua identidade, criar uma instituição aberta à pluralidade, um dos pilares da liberdade de pensamento durante a repressão e que deseja continuar assim.

Num mundo repleto de identidades líquidas, pensamentos débeis e opiniões passageiras, incomoda uma instituição que há séculos acredita ter encontrado a verdade, mantém-se fiel à sua identidade e procura sempre se corrigir para estar mais a serviço do bem comum.

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