“O Estado Islâmico promete revanche”

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Por: Jonas | 02 Junho 2015

O governo da França impulsiona um projeto de segurança no qual todo cidadão é passível de ser espionado no mesmo estilo do Patriot Act norte-americano, resolução criada por Bush em resposta aos ataques contra as Torres Gêmeas, em 2001. A nova lei prevê a vigilância massiva de comunicações por celulares e computadores, afetando o direito à privacidade e convertendo todos em virtuais suspeitos. O ataque à redação da revista satírica Charlie Hebdo, em janeiro passado, colocou em evidência falhas de coordenação e prevenção dos serviços de segurança. Para entender o pano de fundo do atentado, a socióloga francesa Maryse Esterle (foto) esmiúça diversos fatores sociais que estão interconectados, onde se cruzam os valores da república francesa com uma situação de discriminação e exclusão de jovens dos subúrbios, e o fenômeno dos jovens profissionais de classe média que vão combater na Síria. A professora honorária na Universidade de Artois conversou com o jornal Página/12 em sua visita a Buenos Aires, onde está para dar conferências.

 
Fonte: http://goo.gl/PpKFce  

A reportagem é de López San Miguel, publicada por Página/12, 01-06-2015. A tradução é do Cepat.

Esterle é autora do livro “A gangue, o risco e o acidente”, para o qual estudou jovens entre 18 e 25 anos de Paris com tendência à delinquência ou a cometer acidentes de trânsito. Foi um trabalho de campo nos anos 1990, quando já apresentou uma problemática que continua vigente. A partir de 2000, Esterle atuou como docente e pesquisadora no instituto universitário de formação de professores. Há doze anos, escreveu o artigo “Como se reconhece um aluno muçulmano”, a partir da verificação de que no colégio davam peixe para as crianças que pela aparência acreditavam que eram muçulmanas, ao passo que os demais comiam porco. “Se caso é atribuída uma religião para uma criança, ela irá levantar essa bandeira. Propus que deveríamos ser mais prudentes e não qualificar uma pessoa com uma suposta pertença religiosa pela cor da pele ou por ter um sobrenome árabe”, afirma a professora.

Esterle pesquisa as raízes do que aconteceu com o ataque realizado pelos irmãos Cherif e Saïd Kouachi, de 34 e 32 anos. Ambos tinham nacionalidade francesa e contavam com um prontuário por terrorismo jihadista. Acredita que o forte descontentamento que os jovens da periferia de Paris vivem é apenas a ponta do iceberg. “É evidente que a situação socioeconômica de uma camada mais desfavorecida da juventude, que provém de avós ou pais de origem magrebina, que não tem trabalho, é um terreno fértil que permite que neles cresça a desesperança. É um segmento muito discriminado no âmbito do trabalho e do lazer”. Para a especialista, este é um primeiro grupo minoritário de jovens atraídos pela propaganda do Estado Islâmico. “Encontram no Estado Islâmico uma promessa de revanche social, de reconhecimento, a possibilidade de pertencer a um grupo guerreiro com ideologia de dominação, fortemente viril, que lhes promete chegar ao paraíso ao morrer como mártires”.

A França ficou em estado de perplexidade pelo ataque aos cartunistas e jornalistas do Charlie, seguido por uma tomada de reféns em um supermercado kosher no dia seguinte, uma sequência que interrompeu a tranquilidade parisiense habitual. “Não vivemos na ditadura, não se mata jornalistas, há liberdade de expressão”, destaca a socióloga francesa e acrescenta outro dado: a estigmatização dos jovens de origem magrebina foi acentuada pelo contexto internacional e passaram a ser suspeitos de terrorismo.

Porém, existe uma realidade de pobreza e falta de integração social. “Todas as vezes que na França temos um problema, queremos que os valores de liberdade, igualdade e fraternidade sejam respeitados. Do meu ponto de vista, devemos falar da discriminação, pobreza, problemas na escola, nas prisões - onde há superlotação -, ao invés de apresentar os valores da república”, afirma Esterle.

Em 2006, Charlie Hebdo reproduziu alguns quadrinhos do profeta Maomé que haviam sido publicados por um jornal dinamarquês: “Os que se sentem excluídos se irritam de que deem risadas deles. Estes fatores se entrecruzam e levam a uma situação explosiva”.

Outro grupo de jovens que se sente atraído pelos jihadistas provém da classe média, sem vínculos prévios com a religião muçulmana e sem origem estrangeira. “Há jovens de famílias ateias ou protestantes que fizeram carreiras universitárias e que deixaram tudo para ir à Síria combater com o Estado Islâmico. Um perfil que não corresponde ao dos agressores do Charlie”.

Na França há cinco milhões de muçulmanos, meio milhão de judeus e um movimento de ultradireita em ascensão. Qual a força do impacto dos atentados no crescimento dos ultraconservadores? “Impacto tem, mais ainda quando não são trabalhados os problemas de verdade. Após os atentados, eu pensava que alguns bairros habitados por imigrantes magrebinos iam ser ameaçados ou atacados. E não aconteceu. As instituições ainda funcionam e as pessoas mantêm seu autocontrole.”.

Diante da aprovação de uma lei que aponta para o controle generalizado do conteúdo das mensagens de e-mails e de celulares, sem necessidade de autorização judicial, a socióloga acredita que há um problema adicional: a quem servirá esta massa de dados e, sobretudo, quem as irá examinar? “É necessário agentes com melhor formação, capazes de fazer investigações que seriam muito mais úteis do que milhões de dados pouco utilizáveis”.

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