“A socialdemocracia se alinhou com a economia neoliberal”. Entrevista com Etienne Balibar

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Por: André | 27 Maio 2015

Dezenas de pessoas fazem fila para vê-lo. Alguns ficarão do lado de fora. As entradas para ouvi-lo se esgotaram em tempo recorde. Não se trata de uma estrela de rock, mas quase. É que a visita de Etienne Balibar a Buenos Aires, que coincide com o 50º aniversário da publicação de Para ler O Capital, o célebre livro que escreveu junto com o seu professor Louis Althusser, desperta muito interesse entre aqueles que buscam respostas para a crise de representação e o auge do racismo na Europa. E não são poucos.

Na conferência que deu no Salão Solidariedade do Centro Cultural da Cooperação, com capacidade plena, o filósofo francês foi sincero: “Sou um federalista europeu. E a razão do meu pessimismo é que este federalismo está fracassando e tem menos justificativas e possibilidades de realização. Há forças de diversos tipos, invenções na hora de fazer política em parte da população europeia. Existem boas razões para pensar nas iniciativas do tipo do Podemos, na Espanha, embora estejam muito localizadas neste momento. Ou na vitória do Siriza”, anima-se. Balibar chamou a atenção para os estragos que a desigualdade está provocando na Europa, que ameaça dividir virtualmente o continente.

O filósofo francês falou com o Página/12 sobre o crescimento da ultradireita na França, o terrorismo islâmico, a islamofobia, a crise da socialdemocracia europeia e os desafios do governo de Alexis Tsipras na Grécia.

A entrevista é de Patricio Porta e publicada por Página/12, 25-05-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como explica o ataque à redação do Charlie Hebdo? É fruto das tensões étnicas na França ou uma consequência do terrorismo internacional?

Não se pode separar ambas as questões. Este tipo de acontecimento tem, geralmente, um conjunto muito complexo, para não dizer confuso, de origens, alguns muito antigos e outros bens recentes, alguns internos e outros externos. O importante e preocupante, em certo sentido, é que o governo e a população têm dificuldades para aceitar que a fronteira entre o interior e o exterior já não marca uma diferença absoluta. Há jovens ingleses e franceses de origem não muçulmana que entraram na rede do Estado Islâmico. Mas, especificamente na França são recrutados, em sua maioria, jovens de origem árabe ou da África do Norte que não suportam a condição de marginalização e de discriminação social e étnica na qual vivem. O crescimento da desigualdade em termos de recursos, de possibilidades de emprego e acesso aos bens culturais mais essenciais atingiu níveis sem precedentes. E isso traz consequências catastróficas para todos. É uma explicação, não uma justificativa.

Por outro lado, está claro que a guerra que existe há dezenas de anos no Oriente Médio está tomando progressivamente uma dimensão global. Alguns falam em guerra civil mundial, ou seja, já não é uma guerra entre um campo e outro, Ocidente e Oriente, mas um conflito multilateral entre forças religiosas, forças militares, regimes ditatoriais com intervenções externas que, como vemos, é uma das maiores catástrofes históricas. Nesta situação apareceram elementos fundamentalistas que adquirem grande capacidade de organização e de atração. Para compreender o que aconteceu é preciso ter em conta estes dois elementos: a situação interna na Europa e na África do Norte e a conversão gradual da guerra no Oriente Médio em um fenômeno de terrorismo global.

Acredita que a Frente Nacional da família Le Pen é uma ameaça real para a democracia francesa?

Sim, é uma ameaça real e muito preocupante. Para pessoas como eu, que entramos na política de maneira ativa e com forte compromisso na época da guerra da Argélia, quando o povo argelino lutava pela libertação do colonialismo francês, o fato de que um grupo político cujos líderes e cuja inspiração estão diretamente vinculados com uma espécie de revanche pós-colonialista, contra a independência da Argélia, é uma coisa terrível. Agora se apresenta como uma força cada vez mais influente. Não é interessante fazer previsões. Está claro que a Frente Nacional foi se implantando progressivamente na população francesa nos últimos anos em consequência da crise, da desestabilização e da falta de perspectiva para grande parte da sociedade, inclusive para parte da classe operária.

A deslegitimação crescente da classe política francesa e do sistema europeu contribui para esta situação. A lei eleitoral que temos na França é muito pouco democrática, é uma lei de maiorias, e isso vai produzir obviamente um efeito de tapa na cara. A Frente conseguiu crescer sem ter construído alianças com outros partidos. Foi mais ou menos excluída do jogo político, e se contava com os votos, não tinha nenhum representante no Parlamento. Agora a situação vai mudar para uma direção diametralmente oposta, porque com os progressos que fizeram vão ganhar mais representantes.

O presidente François Hollande não consegue reverter os baixos índices de popularidade de sua gestão. Nicolas Sarkozy, no entanto, manifestou sua intenção de voltar à presidência, mas está chamuscado por diversos escândalos de corrupção. Pensa então que Marine Le Pen e seu partido têm possibilidades de ganhar as eleições gerais em 2017?

Saber se vão chegar ao poder é outra questão. Minha resposta pessoal é provavelmente que não, por uma série de razões. Mas, mesmo que não cheguem ao poder se converterão em uma força com capacidade de pressão notável, com maior influência nos programas dos outros partidos. Não só no partido de Nicolas Sarkozy, a União por um Movimento Popular, mas também no Partido Socialista com o primeiro ministro Manuel Valls. O modo como nosso próprio governo já está aplicando medidas de discriminação que são parte do programa da Frente Nacional, com a ideia de que se os socialistas o fizerem ao seu modo, de uma forma menos suja, poderão conter a influência de Le Pen, é um completo absurdo e uma demonstração do poder da Frente Nacional.

Nos últimos anos, aumentaram consideravelmente os atos de antissemitismo e islamofobia na França. O primeiro ministro Valls apresentou esta semana um plano para combater o racismo e as expressões antissemitas. Segundo declarou, vai envolver os professores, assistentes sociais, associações civis e instituições judiciárias em colégios, bairros vulneráveis e até na internet. Isto demonstra a gravidade do problema. Por que acredita que se chegou a esta situação em um país com uma tradição republicana, pluralista e multiconfessional?

Republicana, sim. Multiconfessional, não. A tradição republicana não tem as capacidades internas de resistência a determinados preconceitos racistas. Em si não é suficiente. Mas quero dizer que é muito importante mencionar o antissemitismo e a islamofobia, porque inclusive os discursos oficiais neste momento não o fazem. O governo francês acaba de propor uma série de medidas sobre educação e repressão de atos de violência relacionados ao racismo e ao antissemitismo. Naturalmente, é preciso mencionar o antissemitismo. Não sou daqueles que não levam a sério o crescimento do antissemitismo na França. Mas racismo e antissemitismo não são uma fórmula honesta. Usa-se uma terminologia que evita nomear a islamofobia. Há toda uma polêmica nos círculos políticos e intelectuais, uma pressão muito forte de republicanos que argumentam que o termo islamofobia não é aceitável. Segundo dizem estes senhores e estas senhoras, a expressão confunde as coisas. Por um lado, os ataques contra árabes e muçulmanos, e por outro lado, a questão de saber se se pode criticar o Islã como religião. E como seria muito importante manter a possibilidade dessa crítica, a noção de islamofobia não deve ser aceita.

Esse argumento ganhou mais adeptos após o atentado ao Charlie Hebdo?

Sim, mas é uma vergonha. É uma besteira impedir que se mencionem juntos o antissemitismo e a islamofobia. Porque introduz uma discriminação na luta contra as discriminações. Não mencionar a islamofobia, que é o fenômeno mais preocupante neste momento, é uma vergonha. A chamada concepção republicana da laicidade sempre teve divergências e diversas orientações internas. Alguns me reprovaram como marxista defender uma concepção liberal, mas neste caso sou a favor dessa concepção, para a qual a noção de laicidade significa que todas as religiões têm o mesmo direito de existir, manifestar-se e desenvolver-se não apenas na esfera privada, mas também abertamente na sociedade e que o Estado não teria que intervir.

Essa concepção está nas origens das famosas leis laicas do final do século XIX, e está sendo cada vez mais suprimida por causa de uma concepção intolerante e repressiva que sustenta que o papel do Estado é eliminar as manifestações de pertença a comunidades religiosas. O véu fechado é uma coisa discutível na esfera pública por uma série de razões. Mas o véu normal, quero dizer, na cabeça das mulheres muçulmanas, como decisão pessoal de indicar sua pertença ao Islã é uma coisa que, segundo meu pensamento, uma laicidade liberal não pode suprimir. O governo francês e parte da sociedade entraram num caminho de repressão contínua que faz com que o multiconfessionalismo não exista realmente.

A crise econômica que a Europa atravessa atingiu a socialdemocracia, que ao longo de todo o continente encontra dificuldades para legitimar-se no poder, como no caso do Partido Socialista francês. Considera que a socialdemocracia poderá encontrar uma alternativa para as políticas de austeridade que predominam na Europa?

Seria um milagre. Há aspectos conjunturais. Podemos especular por que Hollande depois da sua eleição não esperou dois ou três anos, como o governo de François Mitterand, para converter seu programa inicial em outro de compromisso com as forças dominantes do neoliberalismo. Porque o fez imediatamente no dia seguinte à sua eleição. Depois de uma visita à chanceler alemã Angela Merkel, fez crer ao povo francês que queria impulsionar uma mudança de orientação nas políticas europeias e voltou ,na realidade, completamente alinhado com as posições alemãs. Está bem, os dirigentes alemães defendem e impõem sua orientação política. Seria preciso conhecer, então, alguns elementos secretos. Ameaçaram cortar o fluxo de investimentos estrangeiros na indústria francesa. Houve uma correlação de forças. Mas isso não basta como explicação.

O fundo é que a socialdemocracia, como todos sabemos, se alinhou com a concepção neoliberal da economia atual. Há três semanas, Martin Schulz, líder da socialdemocracia no Parlamento Europeu, explicava que a Europa tinha a possibilidade de converter-se em uma grande potência no mercado mundial. E é claro que deste ponto de vista os problemas sociais não são menores. Ou seja, a socialdemocracia não conseguiu inventar um modelo social que possa competir com o curso atual da globalização e substituir e renovar a velha ordem do Estado de Bem-Estar Social. Agora temos o resultado à vista. Um dos aspectos culturais da crise na Europa é a falta de perspectiva sobre a globalização. A Europa é incapaz de agir como uma força alternativa mundial no processo de globalização.

A vitória do Tsipras na Grécia parece delinear um novo rumo na Europa, ou, ao menos, o esboço de uma alternativa para as políticas de endividamento e os partidos tradicionais. O Podemos, uma força que surgiu após a crise, poderia ser uma surpresa nas próximas eleições gerais na Espanha. Como avalia estas experiências?

O Tsipras é um cara corajoso. Mas são processos diferentes. O problema do Podemos é chegar ao poder sozinho ou mais provavelmente com outros partidos. Caso isso ocorresse, seria para mim um sinal interessante e importante de que verdadeiramente há um conflito político na Europa e há forças renovadoras. Mas não é algo que se dá como dado. Está claro que uma das metas das atuais estruturas de poder na Europa, que o filósofo alemão Jürgen Habermas chama de modo extraordinário de “federalismo executivo pós-democrático”, que é a Troika, é esmagar a experiência grega antes das eleições na Espanha.

Para dar uma lição aos espanhóis.

Para não correr o risco. O caso do Siryza é diferente, porque está no poder nacional e se encontra neste momento em uma queda de braço com a estrutura de poder europeia. Ultrapassando o seu eleitorado inicial, tem um grande apoio do povo grego. Deve chegar a acordos, que são criticados pela extrema esquerda, uma coisa que me parece absurda e muito negativa. Porque já são tratados como traidores por esses compromissos, algo que é fundamental. Há uma tendência na extrema esquerda que quer aproveitar o caso grego para obter uma dissolução do sistema europeu pós-nacional, o que seria uma catástrofe para os próprios gregos. Não digo que se deva que apoiar o governo de Tsipras sem nenhum espírito crítico, mas é preciso considerar as dificuldades para criar uma alternativa na Europa.

Se formos reducionistas, as alternativas a conservadores e socialdemocratas são o Siryza ou a Frente Nacional de Le Pen.

É um pouco simplificador, mas é verdade se se considera a Europa como um todo. Se a alternativa não surgir na esquerda, então quem vai fazê-la é a direita.

Etienne Balibar ainda conserva a capacidade de explicar em termos simples os assuntos complexos. Em 1965, procurou dessacralizar as interpretações mais ortodoxas do marxismo, na contramão da doutrina difundida a partir de Moscou e da tradição dos marxistas europeus. Para ler O Capital, escrito em parceria com Louis Althusser, é a esta altura um clássico. Hoje utiliza a mesma clareza conceitual para analisar os grandes fenômenos da atualidade.

Etienne Balibar. Um discípulo de Althusser

A queda do Muro de Berlim introduziu uma mudança em suas inquietudes acadêmicas. A reconfiguração do mundo e o processo de globalização em marcha o levaram a escrever, em 1991, o livro Raça, nação, classe. As identidades ambíguas, junto com o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein. Em 2005, publicou Violências, identidades e civilidade. Seus temas de pesquisa são as migrações, a crise dos Estados modernos e o problema da cidadania. Sua última obra intitula-se Igualiberdade: ensaios políticos, traduzida para o inglês e o castelhano em 2014. Em suas páginas problematiza a necessária correspondência entre os conceitos de igualdade e liberdade nas democracias contemporâneas.

Balibar também acompanha de perto a política francesa. Afastado da atividade partidária há décadas (foi militante do Partido Comunista entre 1961 e 1981), é uma voz crítica do atual cenário, dominado pelo Partido Socialista, dos conservadores de Nicolas Sarkozy e da ascendente Frente Nacional de extrema direita.

O editorial publicado no jornal Libération após o atentado contra a revista satírica Charlie Hebdo, no dia 07 de janeiro passado, foi a sua dupla resposta à violência islâmica e à islamofobia promovida por alguns setores dentro e fora da França. “Necessitamos de comunidade: para o duelo, a solidariedade, a proteção, a reflexão. Esta comunidade não é exclusiva: em particular, não exclui aqueles cidadãos, franceses ou imigrantes, a quem uma propaganda cada vez mais virulenta, que faz lembrar os episódios mais sinistros da nossa história, assimila a invasão e o terrorismo para fazer deles bodes expiatórios dos nossos medos, do nosso empobrecimento e dos nossos fantasmas. Mas também não [exclui] aqueles que acreditam nas teses da Frente Nacional ou aqueles que são seduzidos pela prosa de Houellebecq”, disse naquela ocasião.

Balibar está fortemente comprometido com os direitos dos migrantes e dos refugiados. É membro da Liga dos Direitos Humanos, uma organização que zela pelo cumprimento dos direitos humanos na França. Além disso, faz parte do Tribunal Russell para a Palestina, que valia a situação dos palestinos na Faixa de Gaza e nos territórios ocupados.

Professor emérito de Moral e Filosofia Política da Universidade Paris X Nanterre, trocou as instituições francesas pelas dos Estados Unidos: é professor visitante do Centro de Estudos Comparativos sobre Literatura e Sociedade da Universidade de Columbia (Nova York) e professor distinguido de Humanidades na Universidade da Califórnia.

Sua figura continua provocando fascinação em círculos acadêmicos. Balibar é um dos maiores especialistas da filosofia marxista e integra o seleto grupo de intelectuais franceses com os falecidos Althusser, Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault, Jacques Lacan e Roland Barthes, entre outros. Sobre a ditadura do proletariado e Cinco estudos sobre o materialismo histórico, ambos escritos nos anos 1970, são estudados em numerosas universidades de todo o mundo.

Em sua passagem pela Argentina recebeu o doutorado Honoris Causa pela Universidade de San Martín e participou de uma mesa redonda pelo 50º aniversário de Para ler O Capital na Faculdade de Ciências Sociais da UBA.

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