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21 Maio 2015

O ato de produzir racionalidade para interpretar o mundo, compreendendo as complexidades de maneira clara e fazer as relações que nos permitam compreender o certo e errado se chama discernimento. Se fôssemos resumir os ecos e as potencialidades dos 50 anos do Concílio Vaticano II em uma única palavra ela seria justamente a junção das cinco sílabas que forma o enunciado "discernimento". Fácil de escrever, difícil de executar. Foi em torno deste eixo que Christoph Theobald, professor doutor do Centre Sèvres, Facultés Jésuites de Paris, na França, debateu os devires da Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), durante a conferência As potencialidades de futuro da Constituição pastoral Gaudium et spes. Por uma fé que sabe interpretar o que advém – aspectos epistemológicos e constelações atuais, que integrou o II Colóquio Internacional IHU – O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade.

Christoph Theobald
Discernir é também o modo como interpretamos o mundo. Se temos uma compreensão vulgar do que isto significa, consequentemente teremos uma interpretação vulgar do que quer que estejamos olhando, seja os fenômenos culturais ou religiosos, entre tantos outros. Perceber e conhecer as dimensões históricas permite que se observe os processos históricos a partir de suas particularidades e que se leia o Concílio Vaticano II com inteligência. "O discernimento em 1965 consistia em articular as dimensões do humano e de uma outra a doutrina cristã da vocação humana, deixando transparecer no pano de fundo desta articulação aquilo que o povo chama de vocação humana da visão messiânica. Esse ponto de vista representa uma segunda potencialidade do texto hoje, que se insere em uma constelação cultural espiritual suficientemente diferente da década de 60 e do ultimo século", explica Theobald.

A metáfora do poliedro

Discernir requer inteligência, astúcia. Ao ser indagado por Massimo Faggioli, professor da University of St. Thomas – EUA, sobre como o Papa Francisco interpretava a Gaudium et Spes, Christoph Theobald relembrou a metáfora da esfera e do poliedro. "Podemos ler a Gaudium et Spes dentro da metáfora da esfera, em que a Igreja está dentro e no centro, sendo que aquilo que caracteriza é a equidistância de todos os elementos. Outra metáfora notável do Papa Francisco é a do poliedro. A multiplicidade das distâncias, os diferentes centros, o singular é mantido ali, cada elemento do triedro tem um conjunto singular e o poliedro forma um conjunto de todos os singulares", explica.

Transformações

Um dos grandes desafios ao catolicismo na atualidade é pensar as transformações sociais dentro da própria Igreja, o que passa por reinterpretar os pontos de vista das doutrinas e da teologia não somente a partir da tradição cristã, mas atravessando esses olhares com um certo materialismo histórico que modela as formas de enxergar o mundo. "É mais difícil pensar essa mutação de um ponto de vista doutrinal e teológico pelo caráter organizacional e sistêmico. No entanto, o discernimento como método é um caminho para perceber como procedemos", pontua Theobald.

"A conscientização do Concilio que o ateísmo pode ser compreendido a partir do humanismo exige uma reação ajustada e não a simples condenação. É preciso responder ao humanismo ateu por meio de uma verdadeira teologia cristã. O mistério de Cristo não é somente epifania de Deus, mas também a plenitude do homem", sustenta o conferencista.

Paradoxos

Por certo a definição que Theobald apresenta é muito distinta do que se pensava no contexto polarizado que marcou a história humana na segunda metade do século XX. Em momento controverso e de difícil interpretação do que ocorria à época, em linhas gerais a resposta conciliar na década de 1960 foi de condenação ao ateísmo. "Por fim foi levada, pelos bispos, uma afirmação que é paradoxal, sustentando que o Concílio mantinha a postura que a ausência de suporte divino provoca uma corrosão da dignidade humana e que o Espírito Santo oferece a todos, de uma forma que Deus conhece, a possibilidade de se associar ao espirito pascal", aponta Theobald.

"Esse paradoxo abre a possibilidade para distinguir a confissão explícita de ateísmo e de cristianismo. As palavras e as representações de Deus aparecem ali. De maneira diferente, Karl Rahner e Joseph Ratzinger insistem, em 1967 e 1968, na relação dialética entre o crente e o descrente que nenhum pode fugir do dilema da condição humana, o que também quer dizer que o silencio em relação a Deus não significa sua ausência", explica. Ao fazer esta abordagem o teólogo chamou atenção para o fato que os anos pós-conciliares são muitos marcados pelo ateísmo explícito e pelo cristianismo anônimo.

A ausência do comum

As novas constelações culturais e sociais rearranjam todas as relações e a pluralidade individualista de nosso tempo, que é diferente das singularidades existenciais, fez emergir uma certa relativização de todas teorizações, cujo saldo negativo aponta para a ausência de uma visão comum. "Mitos antigos voltam a ser tratados e novos são criados. Ocorre que dois tipos de homens parecem nascer: "o homem aumentado", que não se sabe onde pode chegar pelo desenvolvimento de suas técnicas; e o outro homem que foi gradativamente expropriado de sua humanidade, que é gerado no seio das transformações sociais, climáticas, energéticas etc", reflete Theobald.

"Pensemos no islamismo do Boko Haram e de pessoas que tentam extrair de nossas religiões formas de viver alinhadas ao capitalismo. Em muitos casos elas não tem mais a menor noção do que seja uma experiência religiosa", critica.

O desafio à fé cristã

Mas afinal como interpretar a fé cristã hoje? Ao final da conferência, no momento de abertura ao debate, o professor Geraldo De Mori, da Faculdade Jesuíta da Belo Horizonte, questionou justamente esses desafios à fé cristã. "Como a visão messiânica, que é de origem judaico-cristã, pode estabelecer diálogos com religiões que não se inscrevem nessa herança?", pontuou. "É preciso redescobrir a verdade no messianismo cristão que é invertido e não violento, fazendo-se valer contra nossa tradição – As cruzadas e a Colonização. Isso poderá ser feito se houver uma maneira de ler as escrituras contextualmente e a liturgia dentro do todo", respondeu Theobald.

Ao falar sobre fé, Theobald ressalta que menciona o termo fé entre aspas - "fé". Porque pensa o conceito como sendo algo constitutivo da própria diferença humana, ou seja, como essência da humanidade.

A vertente coletiva da fé

Segundo o conferencista, a consciência moral é da ordem de uma reflexão espiritual dada ao ser humano em sua singularidade absoluta. "Surge uma dimensão da fé que se origina em sua vertente propriamente coletiva, presente na experiência conciliar. Se a fé implica uma capacidade de expressão ela não pode subsistir ao cotidiano e ao futuro com maneira de entendimento. Essa articulação entre a fé conserva a humanidade e a Igrejas. O Concílio Vaticano II tem consciência da tensão paradoxal que cada um dá a sua existência, mas não presta atenção à ameaça política, tampouco pensa e deliberação de uma fé que resiste à desintegração do laço", explana. "Frente a dificuldade da humanidade em se querer em seu conjunto e em todas as suas gerações exige a criação de um espaço capaz de enfrentar dissensões e violências em que o Vaticano II se insere.

Entendimento

"O que Deus poderia ainda nos dizer posto que tudo nos disse em seu Filho? Tendo dito tudo pode se calar?", provoca Theobald. Em teologia o termo "pneumatologia" se refere aos estudos do Espírito Santo. Nesse sentido, a vertente pneumatológica abre caminho para a conversação da palavra de Deus na Igreja. "Ela (a conversação) é totalmente mediada por um jogo de multiplicidade de vozes para serem ouvidas e é ,justamente, nesse processo de escuta estereofônica que o entendimento coletivo pode estabelecer-se", sugere.

Karl Rahner

O discernimento dos sinais dos tempos foi um ponto central apresentado por Karl Rahner, que à época do Concílio classificou o cristianismo em três momentos distintos: judaico-cristianismo; o cristianismo da cultura helenística e da cultura europeia; e, por fim, o cristianismo de um espaço eclesial que era do mundo inteiro, já no século XX e nos dias atuais. Ainda que os dois primeiros momentos tenham suas separações mais evidenciáveis, a terceira etapa é mais complexa de compreender. "A questão está em aberto. Até que ponto a Igreja pós-apostólica ainda tem potencialidades inspiradoras?", provoca.

Uma nova visão

"Podemos observar que em vez de se contentar com um discurso catastrófico, convém enfatizarmos que o vínculo entre as gerações constituem a condição espiritual mais elementar de uma fé que considera a terra não como uma presa a ser capturada, mas como herança recebida gratuitamente e que deve ser passada gratuitamente às novas gerações", pondera Theobald. "Esse são sinais messiânicos que tem como motor uma fé antropológica ou em Cristo, que inauguram um outro tipo de fé", finaliza.

Por Ricardo Machado | Fotos: Ricardo Machado 

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